Por último, resta o conjunto de outras coisas que é importante salvaguardar e que podem estar em perigo face a esta revoluçao. A atençao aos mais próximos, familiares, amigos. A atençao aos professores nas aulas. A atençao aos jornais e aos livros. A atençao a Pacheco Pereira.
Mas, a nao ser que sejamos uma criança birrenta, a atençao nao é um fim em si mesmo. Como no último post falávamos de narcisismo digital, vou ficar-me pelo meu exemplo.
Nas relaçoes afectivas, o objectivo da atençao seria a intimidade e a expressao de amor ou carinho. Criei um blogue quando vim pela primeira vez morar para a Alemanha. Quando falava com a minha mae ou o meu namorado, eles já sabiam um conjunto de informaçoes básicas, o mesmo acontecendo com alguns amigos importantes. Se falava com o meu pai ou amigos que nao liam o blogue, isso implicava po-los primeiro ao corrente da minha vida. Evidentemente, existem coisas que nunca passaram pelo blogue, ou hoje pelo Facebook e que tenho de contar pessoalmente. E ângulos diferentes. Mas a verdade é que, na distância, as pessoas que me lêm têm uma vantagem evidente que permite depois, no contacto por e-mail, telefone ou ao vivo, uma passagem muito mais directa à intimidade de quem se gosta e se vê todos os dias. Para além disso, mais canais permitem-me fazer coisas diferentes, por exemplo interagir no Facebook com uma amiga freelancer que tem durante o dia mais do que fazer do que falar comigo ao telefone por meia hora. Mais canais, tal como mais línguas, são mais formas de expressão. Isto já para nao falar dos amigos vindos das redes sociais ou das vantagens evidentes da técnica, como a facilidade de organizar jantares e festas com o Facebook ou de partilhar fotos.
O objectivo da atençao aos professores nas aulas é a aprendizagem. A grande questao aqui nao é porque é que as crianças já nao respondem aos métodos da década passada, mas quais os métodos que funcionam para estas crianças e, também, para estes professores. A informaçao resultante da pesquisa crítica pela Internet é de qualidade incomparavelmente superior àquela potenciada pela biblioteca da escola, quer queiramos quer nao, até porque a disponibilidade quase imediata da informaçao procurada já sugere que a aprendizagem nao é apenas o tomar conhecimento, mas o fazer e o pensar com esse conhecimento. E, depois da internet como antes dela, os melhores professores vao ser o que nos ensinarem a fazer isso.
O objectivo da atençao aos jornais e aos livros nao é a leitura, que aliás dificilmente está em perigo quando metade dos perigos que Pacheco Pereira menciona implicam comunicaçao escrita. A diferença entre o jornalismo e o meu blogue é um conjunto de práticas, direitos, obrigaçoes e princípios deontológicos cuja actualidade e papel para a democracia nao serao afectados, a longo prazo, pelo alargamento da esfera pública. Se forem, será sinal de que teremos encontrado uma melhor forma de obter informaçao e investigaçao com as mesmas garantias. Como o objectivo do jornalismo nao era o jornalismo, às tantas o que tivermos descoberto será uma coisa melhor. Como nao me parece que vá acontecer, acho que o jornalismo sobreviverá à revoluçao digital tal como as velas sobreviveram à luz eléctrica e a faca nao morreu com o surgimento do picador.
Já os livros, que iam morrer com o formato de bolso, a rádio, a televisao e, às tantas alguém se terá lembrado desta, com a imprensa, estarao assegurados enquanto suporte de informaçao enquanto eu me recusar a ler na Internet um
tratado de stecentas páginas sobre a cultura russa, que aliás já está a caminho encomendado na Amazon, e estarao assegurados enquanto suporte de arte enquanto houver artistas que assim queiram expressar-se. Provavelmente um dia perderao actualidade, como a pintura em cavernas? Nao é impossível. Passará a ser impossível lê-los? Proibido? Duvido. Passará a haver menos Arte? Nao. Devemos entao preocupar-nos com a morte do livro? Nao sei porquê. E eu adoro livros, desde sempre.
Resta a atençao a Pacheco Pereira. Essa provavelmente irá diminuir, partilhada com mil outros fazedores de opiniao. Mas eu, por exemplo, nunca lhe tinha dedicado tanto do meu tempo. Talvez porque encontrei naquele texto uma sinédoque, um pars pro toto das ideias afonsinas sobre as redes sociais, mas ainda assim, caramba, já aqui estou há uma hora. Anima-te camarada, enquanto há vida há esperança.
(e com isto, em vez de corrigir os erros ortográficos desta série de posts, que devem ser muitos que a eles sou especialmente propensa nestas diatribes, vou ter com os tais amigos de quarta à noite)(ainda sobre este artigo, ao qual eu cheguei tarde e, à moda antiga, via E-mail, vale a pena ler a discussao interessante que se faz aqui, uma resposta mais zangada do Arcebispo aqui e um postulado do Valupi que resume tudo a que eu andei para aqui a escrever por aqui fora numa palavra: liberdade)