Monday, August 24, 2015

rapariga com blogue com três leitores tenta o impossível


Alguém que me leia é/conhece:

a) um programador;
b) um programador com o mês de Setembro livre;
c) um programador com o mês de Setembro livre e experiência em Drupal;
c) um programador com o mês de Setembro livre e experiência em Drupal, interfaces de reserva e de paamento;

Respostas positivas serão recompensadas com gratidão eterna, queijo da ilha, flores no cemitério e um lugarzinho no céu. 

Tuesday, August 18, 2015

Regra geral das conversas ao telemóvel no autocarro


A maioria das pessoas que vai a conversar* no autocarro faz 90% das despesas da conversa que está a ter.

(*conversar=conversas superiores a cinco minutos cujo objectivo não é resolver questões imediatas)

coisas tão raras que não podem passar sem menção


Uma reflexão equilibrada e inteligente sobre proteção animal, neste caso sobre os lobos, a provar que se pode pensar nestes temas sem fundamentalismos, certezas absolutas e emoções ao rubro e que é útil e importante que se pense nestes temas sem fundamentalismos, certezas absolutas e emoções ao rubro. 

(por falar em posturas equilibradas e inteligentes, vale a pena ler este texto sobre a forma como Lisboa lida com as colónias de gatos vadios, que me parece extraordinariamente sensata)

Escala blasé de Rita Maria


Em uma pessoa querer demarcar-se das massas, seja por se sentir genuinamente superior, por embirrar com comportamentos de grupo, por necessidade de mostrar personalidade, por insegurança ou por fanfarronice, aparentar um desdém blasé pelo que quer que as massas apreciem é um dos comportamentos mais recomendados.

No entanto, para que este comportamento tenha o efeito desejado, convém não cometer erros de principiante, posicionando-se incorretamente na escala blasé, o que pode dar a impressão errada, porventura até comunicando o exacto oposto do que querem dizer. Para vos apoiar neste esforço decidi então criar a escala blasé de Rita Maria, tomando como exemplo a moda dos petiscos e grumêtascas que referi no post abaixo:

ESCALA BLASÉ DE RITA MARIA

[-5] O always adopter
Adopta entusiasticamente a moda das grumêtascas, procurando com vigor a melhor e mais original forma de aliar a farinheira a outro produto. Refere muitas vezes a importância da utilização de produtos locais, que podem ser combinados ou com farinheira ou com frutos vermelhos, de preferência locais. 
Coeficiente Expressão Identitária através do Consumo (EIC): +++

[-3] O curioso
Não é um entusiasta vocal da grumêtasca, mas tenta perceber o que se esconde por detrás dos modismos gastronómicos e tem curiosidade em conhecer restaurantes e conceitos novos. 
Coeficiente EIC: ++

[-1] O consumidor comum
Não as procura expressamente mas, ao cruzar-se com novidades gastronómicas, prova-as e enquadra-as nas suas preferências, adoptando umas e recusando outras de acordo com o seu gosto pessoal e disponibilidade financeira. Em muitos casos, ao cruzar-se com propostas originais e interessantes, procura replicá-las em casa.
Coeficiente EIC: +

[0] O blasé
Como tem uma certa alergia a modismos e às publicações que os veiculam, acaba por não se aperceber da existência de alguns deles. Quando confrontado com uma moda passageira, como por exemplo as grumêtascas, encara-as com um leve enfado, mas não deixa de lhes dar uma oportunidade, se a ocasião o propiciar, por exemplo para satisfazer o entusiasmo alheio com esta proposta gastronómica, porque não há nada melhor nas redondezas ou porque naquele dia lhe apetece, genuinamente, farinheira. 
Coeficiente EIC: 0

[+1] O blasé-irritadiço
O blasé-irritadiço é em tudo semelhante ao blasé regular, mas a sua alergia a modismos é mais pronunciada e sente alguma irritação face à proliferação cogumelar de ofertas gastronómicas em tudo idênticas mas extremamente ciosas da sua suposta originalidade. Reserva para si no entanto o direito a quebrar o jejum de modinhas e ceder em casos pontuais. Uma das estratégias mais comuns para a gestão de cedências pontuais é conhecer o sítio onde os hamburguers são bons e baratos, sem folclore excessivo, ou a grumêtasca/wine-bar cuja oferta de vinho a copo é verdadeiramente excecional e por isso irrecusável. Como se reconhece por esta estratégia e pelo coeficiente EIC, o blasé-irritadiço é muito semelhante ao consumidor comum.
Coeficiente EIC: +

[+3] O blasé-esforçado
O blasé-esforçado reconhece a utilidade social da recusa das modinhas passageiras, que o aproxima do blasé regular, que associa a uma certa classe e distinção. Por isso, esforça-se por demonstrar de formas variadas a sua não adesão a estas modinhas, seja garantindo publicamente e a um círculo tão alargado quanto possível que não toca em farinheira desde 1995 ou denegrindo as modas como poucochinhas e portanto abaixo do seu nível cultural e socio-económico, dizendo por exemplo “Ainda se fosse foie gras até se compreendia…” ou “Mas eu alguma vez comia mirtilhos de supermercado?”. Esta posição deve ser marcada afincadamente, tornando-se conhecida de todo o seu círculo, de forma a que ninguém se atreva a servir-lhe um grumê-petisco sob pena de ser enxovalhado pelas costas ou, em casos mais pronunciados, em público. 
Coeficiente EIC: ++

[+5] O blasé-regateiro
O blasé regateiro tende a aperceber-se das modas um pouco mais tarde e tenta compensar o seu atraso com excesso de entusiasmo crítico. Outra possibilidade é que o blasé regateiro esteja menos seguro da pertença aos círculos sócio-culturais blasé, o que torna mais propenso a exagerar no entusiasmo, de resto pouco blasé, com que marca a sua posição, quer tenha sido ou não convidado a expressá-la. A principal diferença entre o blasé esforçado e o blasé regateiro é que este último ataca não só a moda em si mas todos os que a seguem, garantindo serem os clientes da grumêtascas, todos sem exceção, um exército de acéfalos trogloditas, pirosos sem redenção, saloios das beiras e, em casos especialmente radicais, jurando que usam ceroulas de malha, que cheiram mal da boca, que não lavam as mãos e que são a meta da decadência mental, basta, pum, basta! Morra a farinheira, morra, pim!
Coeficiente EIC: +++

Conselhos de utilização:  Naturalmente esta escala é fluida, dependendo dos temas e modismos a que cada um é mais sensível. Eu por exemplo fui educada para uma certa alergia às tendências desta vida e sou quase regateira no que diz respeito à moda dos tuk tuks, uma blasé-irritadiça no que diz respeito às grumêtascas e uma entusiasta always adopter das combinações de Alvarinho com castas sulistas (por enquanto). Já na roupa tendo a aproximar-me mais do consumidor comum ou do blasé regular, encarando sem especial urticária até as propostas boho-betas que tanto fazem pelas lojinhas do Facebook deste país, mas há algumas coisas que me levam rapidamente ao campo blasé-irritadiço, quase esforçado. Já na literatura, consigo por exemplo manter-me no blasé regular face a José Luis Peixoto, que nunca li e que transformava rapidamente em blasés-mais-que-esforçados muitos dos meus amigos, mas sou muito vocal face a Ken Follett, aquele senhor que manda catedrais acima e abaixo em vários volumes. No geral, tento apenas evitar chegar ao blasé-regateiro, mais que não seja porque não engana ninguém e ainda corria o risco de parecer tolinha, insegura ou mau carácter.

Monday, August 17, 2015

breve interregno no coma induzido deste blogue para duas meias croniquetas de férias

Parte I
(Terceira, Pico, São Jorge)


Resumo: Vacas, hortênsias, muito verde e muito azul. Abelheira. 

O sítio mais bonito de todos: A minha ilha é sem dúvida S. Jorge, inacreditável na sua beleza e improbabilidade geográfica. E gostei muito do Pico, da omnipresença da montanha, cuja subida me foi sistematicamente recusada pelo mau tempo, dos vinhedos. Mas se tivesse de escolher um só sítio seria provavelmente uma qualquer estrada interior da ilha Terceira, uma das muitas que passavam ora por túneis de plátanos, ora por florestas tão densas que pareciam impenetráveis (mas não eram!), intercalando sempre com campos muito verdes, semeados de vacas e rodeados de hortênsias.

Um momento especial: Quase todos os momentos desta caminhada e o momento em que, depois de dias a tentar subi-lo ou pelo menos vê-lo, o Pico se nos revelou de repente, deslumbrante e já inalcancável. 

O que comer: Queijo. Lapas, claro (mas cansam, a certa altura). Amêijoas de S. Jorge (qualquer que seja o preço a que estejam tabeladas, não vão ser mais baratas no restaurante seguinte, afianço-vos). Morcela, muito boa e realmente diferente. Atum. Boca-negra grelhado (o meu novo peixe favorito). E cracas, muitas cracas. A acompanhar com Terras de Lava branco, e terminar com um bolo D. Amélia (em havendo frescos, senão não vale a pena) e uma abelheira. O turista gastronómico é muito feliz nos Açores.

O que comprar: Queijo da cooperativa dos Lourais. Adorei o de nove meses e estava disposta a financiar uns testes de 12, 18 ou 24 meses, mas foi o de sete, já picante e ainda "manteiguento" (demasiado para ir para queijo da ilha, explicou a senhora da fábrica), a conquistar o meu coração. 

O que ler: O "Mau Tempo no Canal" foi uma escolha difícil para livro de férias - aceitei logo que era a escolha evidente, mas já tinha tentado entrar no livro tantas vezes quando era mais nova, sempre para desistir outras tantas... E voltou a ser difícil, mas nos últimos dias da viagem dei por mim completamente conquistada, a arquivar já mentalmente o livro na prateleira dos romances da minha vida (isto não é uma metáfora pirosa, essa prateleira existe mesmo)(ok, é uma prateleira um bocadinho pirosa), a poupá-lo e a ter saudades dele, das personagens tão locais e tão universais, como quase sempre quando a literatura é grande. E, claro, deliciada por poder acompanhar os percursos da protagonista, o canal, as estradas que tomava, aflita de um lado para o outro, em São Jorge, os baleeiros, a casa de que tomou conta no Pico, o cemitério da Candelária onde enterrou o homem de quem mais gostava, que tinha visitado por acaso e que tanto me tinha impressionado, com as suas campas cercadas de molduras brancas de madeira, a fazer lembrar um berçário

Como voltar: Gorda, cansada, feliz, com a mala muito cheia e planos de regresso.


Parte II
(Minho)


Resumo: Família, incêndios, trabalho e chuva na praia. 

O sítio mais bonito de todos: Todos os que ficaram para o ano que vem.

Um momento mágico: Levar uma criança pequenina pelos campos, mostrar-lhe nozes, amêndoas e castanhas, todas ainda protegidas dentro de cascarões e ouriços, figos e pêssegos quase maduros, maçãs pequeninas, courgettes gigantes e os kiwis, essa cultura tão tipicamente minhota, carregados de fruta, a prometer uma excelente colheita daqui a um mês. Ter a família alargada à mesa e senti-la, devagarinho como são estas coisas, a ganhar espaço e marcar o lugar. E, last but not the least, o momento em que a fisioterapeuta-massagista-mãos de fada me explicou como torço os pés.

O que comer: Bolinhos de bacalhau, bacalhau frito, pataniscas e broa. Cabrito e fígado de vitela de cebolada (não tem comparação com o de porco). Rojões com sangue frito e farinhatos, papas de sarrabulho, polvo, vitela estufada e arroz de cabidela (não comi isto tudo, mas era o que recomendaria). Para acompanhar com verde tinto, de preferência um bom Vinhão, púrpureo e viscoso. Entre nós, guardamos o branco para fins de tarde de calor, champarrião, senhoras e turistas. E por falar em turistas:

O que não comer: Eu percebo que as pessoas locais se interessem pela inovação das grumêtascas de que a Volta ao Mundo aqui dá conta, mas se sei de alguém que tenha ido de Lisboa ao Alto Lima ver meter farinheira em tudo acho que lhe bato.

O que comprar: Jóias e broa (para meu azar, nem umas nem a outra). 

O que ler: Comecei a ler um livro, mas entre a família, os programas infantis e o trabalho que levei de Lisboa acabei por não ler nada e os livros a que dediquei mais atenção eram de pintar. 

Como voltar: Cansada e contente, mas a precisar de outras férias, para descansar e de pelo menos mais uma semana no Minho, de preferência com bom tempo, para fazer tudo o que queria fazer e não fiz, para mostrar tudo o que queria mostrar e não mostrei.

Monday, July 27, 2015

breve interregno no coma induzido deste blogue para um post em registo aforístico


A maioria das nossas atitudes para com os outros dizem mais sobre nós do que sobre os outros ou as suas ações. Isto é especialmente verdadeiro quando nos zangamos, quando outra pessoa nos irrita ou quando julgamos alguém merecedor do nosso desprezo, soberba ou altivez. 

Parecendo que não, saber isto é muito útil. 

Saturday, July 18, 2015

subtilezas


Sócrates vai de férias sozinho, come em restaurantes e gasta muito dinheiro. 
Título do jornal: Sócrates gasta muito dinheiro em férias e restaurantes. 

Sócrates vai de férias com os filhos, come em restaurantes e gasta muito dinheiro. 
Título do jornal: Sócrates gasta muito dinheiro em férias e restaurantes. 

Sócrates vai de férias com elementos do sexo feminino, come em restaurantes e gasta muito dinheiro. 
Título do jornal: Sócrates gasta muito dinheiro em mulheres.

(não percebo bem se ele pagou realmente pela companhia delas, o que sem dúvida justificaria o título, se elas são objectos de luxo como outros quaisquer ou se foram promovidas a animais de estimação, daqueles que são muito engraçados sim senhor mas dão muita despesa)

Thursday, July 02, 2015

circunflexo p circunflexo s

para não dizerem que neste blogue não se aprende nada de útil XLVI

Sabem quando copiamos texto de um pdf ou de um site para o Word e ele vem todo formatado? E depois limpamos a formatação e fica quase bem, mas tem uma palavra por linha, ou às vezes umas cinco ou seis, como se tivesse sido escrito em colunas? E depois perdemos imenso tempo a por o texto normal no Word?

Às vezes trocar de programa resolve, com um editor de HTML por exemplo, mas quando não se dá esse milagre, a solução é fazer Find/Replace e depois substituir "^p" por "^s" (sem aspas em ambos os casos).

Lição 1: Vale sempre a pena quando a alma não é pequena o problema é comum, dar um googladela rápida em vez de perder horas a corrigir espaços ou fazer outra tolice qualquer daquelas que as máquinas deviam ser capazes de resolver.
Lição 2: Os fóruns da internet são habitados por pessoas extraordinariamente generosas que gostam de poupar horas de vida aos seus semelhantes a troco de rigorosamente nada. Neste caso foi o rrich3. Lembrem-se dessas pessoas quando vos parecer que a internet é um antro de perdição composto por comentadores de jornais xenófobos, blogues em guerrinhas uns com os outros e primas em terceiro grau que partilham mensagens inspiradoras com erros ortográficos no vosso mural de Facebook.

Tuesday, June 30, 2015

coisas que a crise grega ensina


Não é, nunca é, uma questão de informação*. Na maior parte das vezes, as pessoas acreditam no que escolhem acreditar, os factos e os números são acessórios, procurados, identificados ou ignorados e interpretados em função das necessidades ideológicas de cada um.

(*isto é uma enormidade, porque daqui resulta que a política em função da racionalidade é e será sempre impossível. Bem, sendo uma enormidade não é nenhuma novidade, mas ainda assim é coisa para espantar regularmente aqueles de entre os marxistas que de vez em quando se deixam tentar pela crença de que a sociedade contemporânea tem as suas raízes no Iluminismo e/ou que se deixaram tentar pela "ideia" europeia)(tão tontinha, graças a Deus)

Monday, June 15, 2015

tempo de avançar


Coisas que me entusiasmam na candidatura “Tempo de Avançar”: uma esquerda que diz “queremos poder”, que diz “queremos estar no Governo”. Já votei demasiadas vezes ao longo na minha vida na esquerda que dizia “queremos ser a melhor oposição”, na que prometia ser “a oposição mais íntegra e trabalhadora” e na que garantia manter intacta a ideologia que a levaria à vitória quando a conjugação das forças históricas assim o determinassem. Agora quero uma que queira sujar as mãos, exigir medidas, trocar por outras, fazer compromissos, desiludir expectativas, manchar atestados de pureza, tudo em nome de medidas que realmente aliviem as pessoas e lhes permitam parar para respirar e, com sorte, algo mais.

Coisas que não me entusiasmam nem um bocadinho na candidatura “Tempo de Avançar”, despertando-me, isso sim, um longo bocejo: as primárias. E isto digo eu, que até conheço muitos dos candidatos e gostava genuinamente de ter alguns deles como representantes, imagino se não conhecesse.

Wednesday, June 03, 2015

desafio de interpretação da língua portuguesa


 (imagem em www.sata.pt)


1. Leia com atenção a descrição desta promoção da Sata. De seguida, identifique no texto as seguintes informações (grau de dificuldade crescente): 

a) Se comprar um voo de ida e volta para uma ilha dos Açores mas um dos seus voos tiver uma escala noutra ilha dos Açores, a promoção não se aplica. 
b) Se comprar um voo em www.sata.pt, tenha atenção às companhias aéreas que o operam: é possível que tenha comprado, no site da SATA, um voo "SATA International, operado por TAP Portugal". Nesse caso, naturalmente, a promoção não se aplica. 
c) Se fizer a sua reserva em www.sata.pt tem de marcar o seu voo extra junto de um call center ou numa loja física no próprio dia. 

2. Assinale a afirmação correta: 

a) Para beneficiar de uma promoção de uma companhia aérea anunciada na internet é necessário ler com muita atenção todas as informações contidas no site e fazer a reserva com cuidados redobrados.
b) Para beneficiar de uma promoção de uma companhia aérea anunciada na internet é necessário falar com alguém ou dirigir-se presencialmente ao balcão dessa mesma companhia aérea, desde que essa possibilidade esteja disponível. 
c) Para beneficiar de uma promoção de uma companhia aérea anunciada na internet é necessário ser extraordinariamente bafejado pela fortuna.

3. Numa breve composição, responda a esta questão: "alguém, alguma vez, nalguma parte do mundo, conseguiu beneficiar de uma promoção de uma companhia aérea anunciada na Internet?". Se possível, enriqueça a sua resposta com exemplos da vida real.

Thursday, May 07, 2015

teste sociológico de pertença de classe


Sei sempre se alguém é de classe média ou média-alta quando essa pessoa está convencida de que "dantes" as mulheres não trabalhavam fora de casa, referindo-se àqueles breves momentos da história portuguesa em que algumas mulheres da burguesia eram "apenas" donas-de-casa, dividindo-as apenas entre as donas de casa mais pobres, que não tinham "ajuda" e por isso trabalhavam muito, que isto de cuidar de uma casa dá uma trabalheira, e as que tinham criada, e por isso trabalhavam um pouco menos. 

Esperem, disse criadas? E estas criadas não eram mulheres? Quantas eram criadas de servir, costureiras, cozinheiras, governantas? E quantas outras, não conseguindo ou não querendo vir para criada, eram trabalhadoras rurais, a esmagadora maioria em terrenos alheios, muitas vezes pagas e contratadas ao dia? E quantos milhares eram operárias? 

Não tenho números, mas cheira-me que nesse "dantes" a maioria das mulheres portuguesas trabalhava (e com trabalhava quero dizer "para fora", a troca de dinheiro ou géneros, não desmerecendo de forma alguma o valor do trabalho doméstico em causa própria).

Thursday, April 30, 2015

#somostodosuber?


Cada um terá a sua opinião sobre a suspensão da actividade da Über* mas a estratégia de se colar a um movimento que nasceu da consternação coletiva motivada por um ataque terrorista aviltante, e consequentemente de tentar equiparar a ação de um Estado de Direito que faz cumprir a sua lei através dos tribunais às ações daqueles que à margem de qualquer lei ou moral mataram de forma bárbara um conjunto de jornalistas de forma a calá-los só me merece uma palavra: nojo.
A hashtag #somostodosUBER é um aproveitamento absolutamente nojento. 

 (*em jeito de disclaimer, a minha é esta: podemos estar mais ou menos satisfeitos com o serviço prestado pelos taxistas, com as instâncias que os fiscalizam e com os regulamentos a que obedecem, incluindo o regulamento que aparentemente levou a que a atividade da Über fosse suspensa. Independentemente disso, num Estado de Direito, quando não gostamos das regras equacionamos mudar as regras, em vez de ficar muito chocados por não serem criadas automaticamente exceções à lei para empresas modernas e tecnológicas da share economy, num deslumbramento terceiro-mundista por tudo o que é novo, ui, e de fora, ai)

Wednesday, April 22, 2015

the fashionist takeover


Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Se tinha pelos em vida
Agora já não tem porque ter

(Depois de Descartes no armário, a Grândola depilada. Vivem-se tempos difíceis para as grandes ideias)

#omeletessemovos


Os portugueses interiorizaram de tal forma o Programa Único que são como um vegetariano numa tasca tradicional, só pensam em omeletes. Mas esta vida não é só omeletes. Também há sopa de legumes, caril de beringelas e gnocchi com molho de gorgonzola. E isto para não falar de arroz de cabidela, choco frito, sardinhas na brasa e, porque não, numa loucura, bife.

Tuesday, April 21, 2015

coisinhas curtas e várias que separadas não iam a lado nenhum e juntas também não é garantido


1. O meu namorado costuma dizer que eu tenho uma velocidade de leitura impressionante, mas ao ler as críticas ao relatório elaborado pelos economistas convidados pelo PS, que tem 95 páginas, descubro que afinal devo ser bastante lenta.

2. Por falar em velocidade de leitura: ando a ler "As Luzes de Leonor", de Maria Teresa Horta. Ao princípio, a prosa poética irritou-me, porque me impossibilitava a leitura sôfrega que tinha planeado ao olhar para aquele volume com mais de um milhar de páginas e porque aquela escrita densa e floreada me despertava uma velha irritação, contra a escrita pomposa que me deixa com vontade de lavar as mãos.
Mas, devagarinho, fui-me apercebendo da riqueza do que estava a ler e da pertinência de cada uma das escolhas estilísticas da autora e percebi que o problema era meu. Há tanto tempo que não lia Arte que, ao cruzar-me com ela, a confundi com um agrupamento solto de artifícios vazios.
Não quero mentir-vos, continuei a ler o livro sofregamente, provavelmente demasiado rápido, mas com um prazer redobrado, uma alegria de que tinha saudades sem o saber.
Maria Teresa Horta é grande. Eu já sabia, mas ainda bem que me esqueci um bocadinho, para me deslumbrar assim outra vez.

3. Ainda sobre Maria Teresa Horta: não conheço ninguém que escreva o erótico como ela. É sublime e parece-me até provável que, pelo menos no que diz respeito à experiência feminina, seja inultrapassável. Mas neste livro o séc. XVIII ajuda e muito - tira o vestido, tira a camisa, tira as culotes, tira as meias, tira o espartilho... primeiro que alguém se dispa já o leitor está a suspirar de calores.

4. Última curta sobre as Luzes de Leonor (pelo menos por hoje): no livro, os filósofos e cientistas são revolucionários admirados de forma intensa, quase ardente, despertando amores e ódios. Dos antigos aos seus contemporâneos, de Hildegard von Bingen a Voltaire, Leonor encontra neles uma porta para a razão, para o saber, para a sua realização pessoal e intelectual. 
Ontem, numa ronda de blogues um bocadinho mais alargada do que o costume, encontrei Descartes num closet, a servir de elemento decorativo, ao lado de uns Louboutin. 
Isto para dizer que mesmo que um tipo se esforce, a vida é dura e difícil (e a posteridade então é uma coisa arriscadíssima).

5. Noto agora que ia escrever uma série de curtas sobre temas variados e acabei a escrever só sobre o livro que estou a ler. Renomeio o post? Tiro o primeiro ponto? Deixo assim?
Ganha a última - por preguiça, por falta de tempo e porque não deixa de ser significativo que todos os outros temas de que queria falar se me tenham varrido subitamente da memória.

Thursday, April 09, 2015

uma ignorância conquistada a pulso

(uma reflexão crítica (juro!), acrescida ainda de uma breve passagem pelo drama dos copos para refrigerante de um conhecido fabricante de copos austríaco)


Hoje de manhã fiz uma coisa que não costumo fazer: ao descarregar o jornal, li alguns dos artigos de opinião, inclusive justamente os cronistas de que gosto menos, Miguel Esteves Cardoso e João Miguel Tavares. 

O primeiro não reservava surpresas: tinha comprado copos Riedel para beber Coca-Cola e estava arrependido, porque afinal não bebia tanta Coca-Cola assim e o investimento não compensava. No fundo, uma crónica em que a  versão gourmet do #perdiacabeçanaFnac (para intelectuais)/ #desgraceimenaZara (para fashionistas) se junta ao triunfo máximo da irrelevância pura para nos dar uma mão cheia de rigorosamente nada. "Comprei uns copos, vejam como sou um consumidor requintado, como são finas as minhas tentações, mas arrependi-me. Vai-me servir de lição? Sei bem  que não*." Ui, ainda bem que guardámos uma página de jornal para isto. 

(*fingir uma incapacidade de resistir aos apelos do consumo, qualquer que seja o tipo de consumo que julgamos ser a melhor expressão da nossa identidade social, é uma forma de gabarolice muito típica da sociedade do "compro, logo sou", mas seria interessante estudar porque é que exige este fingimento de irracionalidade, de travessura, para funcionar)

Já o segundo, surpreendeu-me um bocadinho: João Miguel Tavares, que tirou Ciências da Comunicação na minha universidade, conseguiu terminar a licenciatura sem aprender que as Ciências Sociais são, por natureza, imagine-se, "críticas" e vêm nessa função crítica um exercício de cidadania, um contributo social. E de repente, confrontado com tal informação, está chocadíssimo e até junta um "juro" à sua crónica, como se o papel crítico das Ciências Sociais fosse ou uma descoberta recente ou o maior dos absurdos alguma vez enunciados por alguém. Ora, eu sei que no geral o curso de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa tem uma componente teórica muito pouco apreciada pela generalidade dos alunos, que na realidade gostavam de tirar um curso profissional de Jornalismo e não uma licenciatura em Ciências Sociais, e especialmente não nesta área das Ciências Sociais. E sei que, em consequência disso, muitos deles se esforçam por esquecer a toda a velocidade a componente teórica do curso. Mas, ainda assim, tenho dúvidas de que mais alguém tenha conseguido andar lá quatro anos a dar justamente perspectivas críticas sobre comunicação para depois se esquecer que é isso que as Ciências Sociais fazem - questionar criticamente a realidade. Como é que a universidade falhou de tal maneira a João Miguel Tavares?

Não tenho acompanhado as recentes polémicas com João Miguel Tavares sobre o desemprego nem a polémica que o opõe aos investigadores do Observatório sobre Crises e Alternativas da Universidade de Coimbra - na verdade, em resultado de algumas experiências pré-apoplécticas no passado, esforço-me por acompanhar ao mínimo o que escreve, mas espanta-me ainda assim um bocadinho este texto e esta sua descoberta. 

A ser genuína a sua surpresa, resta-me concluir que a ignorância, quando resulta da convicção profunda da inutilidade do conhecimento e da reflexão, é mais resistente do que eu pensava. Nesse caso, é bem possível que João Miguel Tavares tenha razão - se as universidades nem servem para alimentar o sector privado nem servem para acrescentar conhecimentos e capacidades críticas aos que por lá passam, então é bem possível que afinal não sirvam para nada.

Wednesday, April 08, 2015

das es, das ich und das über-ich

três rapidinhas sobre o ego e uma edição especial para freudianos da minha anedota favorita

1. Outro dia estava a fazer um teste de auto-estima numa revista e perguntavam quando me tinha sentido sexy pela última vez. Desisti do teste, não sabia que eram precisos conhecimentos especializados de Arqueologia. 

2. Por falar em auto-estima, ao fim de anos de espera e de vários posts infrutíferos no blogue, estou finalmente numa relação com alguém que me compra ovos Kinder na Páscoa: eu própria. As más notícias é que era um ovo Kinder pequenino, ainda não cheguei ao ovo gigante. Claramente, ainda tenho muito trabalho pela frente.

3. Quando eu era adolescente e estava ativamente envolvida no projeto "arranjar uma personalidade", meti na cabeça que só escrevia a roxo. Escolhia esferográficas com um tom de roxo bastante escuro e conseguia que passasse quase sempre, nos testes, nos documentos oficiais, até o Bilhete de Identidade eu assinei a roxo (depois com o sol e o uso ficou cor de rosa, o que espantava toda a gente). Depois, passou-me a palermice e descobri que isto das personalidades é um bocadinho mais complexo do que uma pessoa rodear-se de detalhes curiosos, hábitos originais e manias inflexíveis. 
Isto para dizer o quê? Que hoje em dia vejo, muitas vezes, pessoas que "escrevem a roxo". E que invariavelmente as compreendo bem, mas também tenho um bocadinho de pena delas, por se terem ficado por ali, por ainda sentirem aquela necessidade, e por não conseguirem mesmo beber o café a não ser que seja curto, em chávena escaldada, pires frio e com meio pacote de açúcar, mexendo só uma vez para não perder a espuma.

Edição especial para freudianos da minha anedota favorita:
Um ego vai na rua e vê um ego a voar.
Pergunta-lhe: "Eu, o que estás aí a fazer? Os egos não voam!"
Resposta: "Ah, mas eu sou um super-ego"
(a versão original é muito melhor. Basta substituir "egos" por "mercados")

Monday, March 16, 2015

iiiiiih, ainda há questionários blogosféricos!


Não sei há quanto tempo não via uma corrente blogosférica - se calhar até foi na semana passada, mas para mim são coisas com um sabor a nostalgia, aos bons velhos tempos do antigamente, quando quase não filtrávamos o que escrevíamos, éramos todos amigos e metade dos blogues que eu lia eram e portugueses que estavam no estrangeiro. 

Talvez por isso, fiquei mesmo contente com a nomeação da macaca-mor e pus logo mãos à obra:

1. Em apenas três palavras, como descreves o teu blog? 
Abandonado mas resistente. 

2. Qual foi o último item que riscaste da tua bucket list? 
Acho que não tenho uma bucket list, nunca escrevi uma. Mas assim de grandes objectivos de vida, cumpri dois recentemente, um profissional (ver abaixo) e um imobiliário, a vista frontal de Tejo. Faltam-me três, com a agravante de que o "quando for grande" morreu, pelo que são tudo coisas que podia, e às tantas devia, estar a fazer agora. Glup, os trinta são lixados. 

3. Se fosses um condenado à morte, o que escolherias como última refeição? 
Tenho esperança que nunca desistisse e me recusasse a participar em rituais que tentam tornar mais humano o que é para mim absolutamente inaceitável, mas se me conseguissem quebrar a resistência, acho que escolheria cozinhar, mesmo que fosse algo muito simples, idealmente um pão e uma receita qualquer nova, que eu nunca tivesse feito. Se também não me deixassem cozinhar, escolhia um copo de vinho tinto de perfil clássico, pão, queijo, um bife muito mal passado, espargos brancos, morangos selvagens e cerejas maduras. Assim, com sorte, ainda os obrigava a adiar a execução para Junho. 

4. Em que momento da tua vida te sentiste "mais tu próprio"? 
Profissionalmente, foi sem dúvida quando comecei a dar aulas - foi aquela sensação, quase mítica, de sentir que estava a fazer exactamente aquilo que sempre tinha querido fazer. Ainda é cedo para dizer se vou ou não ser boa professora, mas é sem dúvida a realização de um sonho.
De resto, talvez me sinta mais eu quando me sinto mais viva e sinto-me sempre mais viva quando faço coisas novas, quando mudo alguma coisa, quando crio, quando alguma coisa me toca, porque muito bonita, muito verdadeira ou muito boa e sempre que me sinto realmente próxima de alguém. 

5. Porque é que lês este blog
Leio o Macaquinhas no Sótão porque é um blogue da velha guarda, com pessoas dentro (ainda são várias? Não, pois não?), pessoas inteiras e inteligentes que podem falar um dia de política, noutro de receitas, noutro de literatura e no dia seguinte de roupa ou de homens (em ambos os casos com muito bom gosto) ou "apenas" do seu quotidiano e da sua vida.

Thursday, March 12, 2015

o realismo mágico



1. Para ver fenómenos sociais, é preciso aceitar que existem fenómenos sociais.

Eu sou uma mulher. Há vantagens inegáveis que me são dadas pela minha configuração de cromossomas. Físicas e culturais. Diz, por exemplo, que tenho uma esperança de vida maior do que a dos homens, diz também que provavelmente não serei acusada de não ser "mulher o suficiente" se demonstrar emoções ou vestir roupa colorida. 
E há desvantagens associadas à mesma configuração de cromossomas, algumas físicas, mas na sua maioria sociais e culturais, que me ultrapassam, a mim e à minha realidade imediata, que não posso resolver pessoalmente e que em alguns casos não me afetam sequer: diz que as mulheres são mais julgadas em função do seu aspeto físico que os homens, por exemplo. Diz também que ganham consistentemente menos, que têm maior risco de pobreza, que existem poucas mulheres em funções de responsabilidade - e os números, especialmente quando são tão expressivos e consistentes como estes são, raramente se referem a um conjunto de coincidências ou a uma acumulação de casos individuais muito específicos. 

Para ver, às vezes, basta querer ver. 
Mas se não quiser ver, posso convencer-me de que as mulheres não chegam mais longe porque, individualmente, não querem. Que as suas carreiras são prejudicadas quando constituem família porque, no caso individual daquela empresa, a empresa seria prejudicada e agiu racionalmente ao substituí-la. Que se quisessem estariam mais representadas na política, veja-se Tatcher, veja-se Merkel, mas aparentemente, individualmente, não querem. Que podiam ter mais dinheiro, quebrar o ciclo de pobreza mas, individualmente, não estão interessadas ou fizeram as escolhas erradas. As mesmas escolhas erradas que as tornaram, individualmente, cada uma de forma isolada, vítimas de violência doméstica. Ou, vítimas não, aqui não queremos vitimizar ninguém, recetoras de violência doméstica. 

Posso depois, para cada um destes problemas individuais, recomendar soluções individuais - a sociedade não existe, a ação coletiva é uma aberração pouco sofisticada, a política morreu, restam-nos um conjunto de indivíduos com os seus problemas pessoais, privados, sozinhos perante o mundo. Mundo esse que, claro está, "é como é", suponho que desde o princípio dos tempos e até ao fim dos tempos, imutável e irredutível. 


2. O mundo é como é, mas nem sempre foi como é e é historicamente provável que não seja sempre como é hoje.

O Dia da Mulher, que celebrámos no passado 8 de Março, lembra um conjunto de pessoas que, ao longo da História, recusaram aceitar que o mundo, que a sociedade, fossem imutáveis. Um conjunto de homens e mulheres que recusaram acreditar que o progresso fosse impossível e que a condição da mulher fosse uma questão privada. Um conjunto de pessoas que foram ridicularizadas, pelas suas pretensões e pelos métodos de luta que escolheram, por homens e mulheres. Que foram enxovalhadas, múltiplas vezes, por todos aqueles, homens e mulheres, que defendiam o mundo tal como era.  

Nem elas nem os homens que as apoiavam conseguiram tudo o que desejavam, mas conseguiram muito. Tanto que lhes dedicámos um dia, a eles, a elas, à sua luta e às suas conquistas.
Até ao dia em que definimos que os objetivos dessa luta tinham sido atingidos na maioria do mundo ocidental e as arquivámos confortavelmente no passado, às lutas, à reflexão social, sinal inequívoco de quem se leva demasiado a sério e não tem sentido de humor, e à própria ideia da ação coletiva, que de resto era uma ideia perigosa e nefasta. 

E, ficando ali com aquele dia de sobra, escolhemos usá-lo para explicar a quem insistia nessa luta desatualizada qual o verdadeiro motivo pelo qual homens e mulheres ainda têm oportunidades diferentes, até nas democracias ocidentais. Comprámos flores, velas, vestidos, presentes e mandamos imprimir cartões coloridos a explicar que a mulher é um ser mágico, uma musa que enche o mundo de beleza, carinho, inspiração, organização e sentido prático. E que, unicórnio* que era, seria uma tontice querer abdicar da sua superioridade natural para ser "igual aos homens", definidos por sua vez como um conjunto de brutos amorfos, francamente ineptos na gestão das emoções e do quotidiano e simplesmente tontinhos em tudo o resto.

[nunca percebo porque é que depois são as feministas que são acusadas de não gostar de homens]


3. #mugglesanonymous

Mas eu, infelizmente, não sou mágica. 
Nem naturalmente superior. Não sou sempre bonita e delicada, algumas pessoas dirão que não sou bonita de todo e muito menos delicada. Não sou naturalmente mais forte do que a maioria das pessoas. Não sou um poema. Não tenho maior tolerância à dor do que a maioria das pessoas. Não consigo fazer de saltos o que as outras pessoas fazem sem eles. Com ou sem saltos, não canto ópera, não opero tumores, não reparo tubos de escape, não escrevo poesia e não programo aplicações informáticas. Não sou uma flor. Não sou naturalmente sábia. Não tenho um sentido estético natural superior ao de metade da população. Não sou uma musa. Não encerro em mim grandes mistérios, talvez me falte subtileza. Não sou mais sensível do que a maioria das pessoas. Sou mais sensível do que algumas delas. Nem todas essas são homens. 
Não sou uma fada. Não tenho um talento natural para as tarefas domésticas. Não sou mais carinhosa do que todos os homens que conheço. Não sou uma canção. Não sou especialmente difícil de compreender. Não sou nem me sinto mais sensata que a maioria da população, nem com maior sentido prático - muitas pessoas têm maior sentido prático que eu, talvez até a maioria delas, muitas são homens. Não sou um unicórnio*. Não sou mais organizada do que a maioria das pessoas, sou menos. Não contenho em mim toda a sabedoria de Sun Tzu. Não sou especialmente ardilosa quando discuto, não sou estratega nas minhas interações, acredito mais no poder dos argumentos quando troco ideias e na assunção sincera de emoções e da vulnerabilidade quando discuto questões pessoais. Não sou a guardiã do amor, do carinho e dos afetos humanos.
Não sou um fenómeno paranormal, sou uma pessoa. 

Mas, realmente, sou mais do que isso. Sou uma pessoa inserida numa cultura e numa sociedade das quais e pelas quais sou, como cidadã e, como ator social, co-criadora e co-responsável. E com isso voltamos ao princípio e começamos a pensar como intervir em fenómenos sociais, e nomeadamente neste.


Tuesday, March 03, 2015

Thursday, February 26, 2015

5:00


Hoje ao passar num quiosque vi na capa de uma revista que a mulher do Primeiro Ministro foi operada, e que terá corrido bem. Parte de mim ficou triste por a senhora ter esta fase da sua vida tão exposta, mas depois parei um momento para pensar e reparei que não sei de qualquer ocorrência em que este tema tenha sido utilizado no debate público, zero aproveitamento do lado do Governo, zero aproveitamento do lado da oposição. 

E tirei cinco minutos para ter orgulho no meu país e na sua classe política, o que é raro, mas neste caso inteiramente justo.

Tuesday, February 24, 2015

informação oficial*


Informo os estimados leitores deste blogue que a Primavera começou este fim-de-semana. Aproveito para agradecer a quem de direito este Inverno maravilhoso, frio e pouco chuvoso, o primeiro desde que regressei a Portugal que não foi uma tortura.

(*eu não tenho muitos talentos, mas um deles é este: sou a pessoa mais competente que conheço no que diz respeito à distinção entre o fim do Inverno e o início da Primavera. Podia saber cantar, dançar, gerir o meu dinheiro ou fazer maionese, podia, mas não era a mesma coisa)

Friday, February 20, 2015

Passos garante que dignidade dos portugueses não foi atingida


Fala por ti, filhinho, fala por ti.
A minha dignidade se calhar sofre de excesso de sensibilidade, mas de cada vez que lia coisas como estas, só para dar um exemplo, garanto-te que ficava francamente afectada.

Sunday, February 15, 2015

troca de favores

Se eu prometer não recuperar aquele maravilhoso dinossauro amarelo, alguém me ajuda a recuperar o bordeaux do título do blogue? Eu não costumo ser demasiado naba, mas este template novo tem uma quantidade de limitações que estou com algumas dificuldades em contornar.