Tuesday, June 30, 2015

coisas que a crise grega ensina


Não é, nunca é, uma questão de informação*. Na maior parte das vezes, as pessoas acreditam no que escolhem acreditar, os factos e os números são acessórios, procurados, identificados ou ignorados e interpretados em função das necessidades ideológicas de cada um.

(*isto é uma enormidade, porque daqui resulta que a política em função da racionalidade é e será sempre impossível. Bem, sendo uma enormidade não é nenhuma novidade, mas ainda assim é coisa para espantar regularmente aqueles de entre os marxistas que de vez em quando se deixam tentar pela crença de que a sociedade contemporânea tem as suas raízes no Iluminismo e/ou que se deixaram tentar pela "ideia" europeia)(tão tontinha, graças a Deus)

Monday, June 15, 2015

tempo de avançar


Coisas que me entusiasmam na candidatura “Tempo de Avançar”: uma esquerda que diz “queremos poder”, que diz “queremos estar no Governo”. Já votei demasiadas vezes ao longo na minha vida na esquerda que dizia “queremos ser a melhor oposição”, na que prometia ser “a oposição mais íntegra e trabalhadora” e na que garantia manter intacta a ideologia que a levaria à vitória quando a conjugação das forças históricas assim o determinassem. Agora quero uma que queira sujar as mãos, exigir medidas, trocar por outras, fazer compromissos, desiludir expectativas, manchar atestados de pureza, tudo em nome de medidas que realmente aliviem as pessoas e lhes permitam parar para respirar e, com sorte, algo mais.

Coisas que não me entusiasmam nem um bocadinho na candidatura “Tempo de Avançar”, despertando-me, isso sim, um longo bocejo: as primárias. E isto digo eu, que até conheço muitos dos candidatos e gostava genuinamente de ter alguns deles como representantes, imagino se não conhecesse.

Wednesday, June 03, 2015

desafio de interpretação da língua portuguesa


 (imagem em www.sata.pt)


1. Leia com atenção a descrição desta promoção da Sata. De seguida, identifique no texto as seguintes informações (grau de dificuldade crescente): 

a) Se comprar um voo de ida e volta para uma ilha dos Açores mas um dos seus voos tiver uma escala noutra ilha dos Açores, a promoção não se aplica. 
b) Se comprar um voo em www.sata.pt, tenha atenção às companhias aéreas que o operam: é possível que tenha comprado, no site da SATA, um voo "SATA International, operado por TAP Portugal". Nesse caso, naturalmente, a promoção não se aplica. 
c) Se fizer a sua reserva em www.sata.pt tem de marcar o seu voo extra junto de um call center ou numa loja física no próprio dia. 

2. Assinale a afirmação correta: 

a) Para beneficiar de uma promoção de uma companhia aérea anunciada na internet é necessário ler com muita atenção todas as informações contidas no site e fazer a reserva com cuidados redobrados.
b) Para beneficiar de uma promoção de uma companhia aérea anunciada na internet é necessário falar com alguém ou dirigir-se presencialmente ao balcão dessa mesma companhia aérea, desde que essa possibilidade esteja disponível. 
c) Para beneficiar de uma promoção de uma companhia aérea anunciada na internet é necessário ser extraordinariamente bafejado pela fortuna.

3. Numa breve composição, responda a esta questão: "alguém, alguma vez, nalguma parte do mundo, conseguiu beneficiar de uma promoção de uma companhia aérea anunciada na Internet?". Se possível, enriqueça a sua resposta com exemplos da vida real.

Thursday, May 07, 2015

teste sociológico de pertença de classe


Sei sempre se alguém é de classe média ou média-alta quando essa pessoa está convencida de que "dantes" as mulheres não trabalhavam fora de casa, referindo-se àqueles breves momentos da história portuguesa em que algumas mulheres da burguesia eram "apenas" donas-de-casa, dividindo-as apenas entre as donas de casa mais pobres, que não tinham "ajuda" e por isso trabalhavam muito, que isto de cuidar de uma casa dá uma trabalheira, e as que tinham criada, e por isso trabalhavam um pouco menos. 

Esperem, disse criadas? E estas criadas não eram mulheres? Quantas eram criadas de servir, costureiras, cozinheiras, governantas? E quantas outras, não conseguindo ou não querendo vir para criada, eram trabalhadoras rurais, a esmagadora maioria em terrenos alheios, muitas vezes pagas e contratadas ao dia? E quantos milhares eram operárias? 

Não tenho números, mas cheira-me que nesse "dantes" a maioria das mulheres portuguesas trabalhava (e com trabalhava quero dizer "para fora", a troca de dinheiro ou géneros, não desmerecendo de forma alguma o valor do trabalho doméstico em causa própria).

Thursday, April 30, 2015

#somostodosuber?


Cada um terá a sua opinião sobre a suspensão da actividade da Über* mas a estratégia de se colar a um movimento que nasceu da consternação coletiva motivada por um ataque terrorista aviltante, e consequentemente de tentar equiparar a ação de um Estado de Direito que faz cumprir a sua lei através dos tribunais às ações daqueles que à margem de qualquer lei ou moral mataram de forma bárbara um conjunto de jornalistas de forma a calá-los só me merece uma palavra: nojo.
A hashtag #somostodosUBER é um aproveitamento absolutamente nojento. 

 (*em jeito de disclaimer, a minha é esta: podemos estar mais ou menos satisfeitos com o serviço prestado pelos taxistas, com as instâncias que os fiscalizam e com os regulamentos a que obedecem, incluindo o regulamento que aparentemente levou a que a atividade da Über fosse suspensa. Independentemente disso, num Estado de Direito, quando não gostamos das regras equacionamos mudar as regras, em vez de ficar muito chocados por não serem criadas automaticamente exceções à lei para empresas modernas e tecnológicas da share economy, num deslumbramento terceiro-mundista por tudo o que é novo, ui, e de fora, ai)

Wednesday, April 22, 2015

the fashionist takeover


Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Se tinha pelos em vida
Agora já não tem porque ter

(Depois de Descartes no armário, a Grândola depilada. Vivem-se tempos difíceis para as grandes ideias)

#omeletessemovos


Os portugueses interiorizaram de tal forma o Programa Único que são como um vegetariano numa tasca tradicional, só pensam em omeletes. Mas esta vida não é só omeletes. Também há sopa de legumes, caril de beringelas e gnocchi com molho de gorgonzola. E isto para não falar de arroz de cabidela, choco frito, sardinhas na brasa e, porque não, numa loucura, bife.

Tuesday, April 21, 2015

coisinhas curtas e várias que separadas não iam a lado nenhum e juntas também não é garantido


1. O meu namorado costuma dizer que eu tenho uma velocidade de leitura impressionante, mas ao ler as críticas ao relatório elaborado pelos economistas convidados pelo PS, que tem 95 páginas, descubro que afinal devo ser bastante lenta.

2. Por falar em velocidade de leitura: ando a ler "As Luzes de Leonor", de Maria Teresa Horta. Ao princípio, a prosa poética irritou-me, porque me impossibilitava a leitura sôfrega que tinha planeado ao olhar para aquele volume com mais de um milhar de páginas e porque aquela escrita densa e floreada me despertava uma velha irritação, contra a escrita pomposa que me deixa com vontade de lavar as mãos.
Mas, devagarinho, fui-me apercebendo da riqueza do que estava a ler e da pertinência de cada uma das escolhas estilísticas da autora e percebi que o problema era meu. Há tanto tempo que não lia Arte que, ao cruzar-me com ela, a confundi com um agrupamento solto de artifícios vazios.
Não quero mentir-vos, continuei a ler o livro sofregamente, provavelmente demasiado rápido, mas com um prazer redobrado, uma alegria de que tinha saudades sem o saber.
Maria Teresa Horta é grande. Eu já sabia, mas ainda bem que me esqueci um bocadinho, para me deslumbrar assim outra vez.

3. Ainda sobre Maria Teresa Horta: não conheço ninguém que escreva o erótico como ela. É sublime e parece-me até provável que, pelo menos no que diz respeito à experiência feminina, seja inultrapassável. Mas neste livro o séc. XVIII ajuda e muito - tira o vestido, tira a camisa, tira as culotes, tira as meias, tira o espartilho... primeiro que alguém se dispa já o leitor está a suspirar de calores.

4. Última curta sobre as Luzes de Leonor (pelo menos por hoje): no livro, os filósofos e cientistas são revolucionários admirados de forma intensa, quase ardente, despertando amores e ódios. Dos antigos aos seus contemporâneos, de Hildegard von Bingen a Voltaire, Leonor encontra neles uma porta para a razão, para o saber, para a sua realização pessoal e intelectual. 
Ontem, numa ronda de blogues um bocadinho mais alargada do que o costume, encontrei Descartes num closet, a servir de elemento decorativo, ao lado de uns Louboutin. 
Isto para dizer que mesmo que um tipo se esforce, a vida é dura e difícil (e a posteridade então é uma coisa arriscadíssima).

5. Noto agora que ia escrever uma série de curtas sobre temas variados e acabei a escrever só sobre o livro que estou a ler. Renomeio o post? Tiro o primeiro ponto? Deixo assim?
Ganha a última - por preguiça, por falta de tempo e porque não deixa de ser significativo que todos os outros temas de que queria falar se me tenham varrido subitamente da memória.

Thursday, April 09, 2015

uma ignorância conquistada a pulso

(uma reflexão crítica (juro!), acrescida ainda de uma breve passagem pelo drama dos copos para refrigerante de um conhecido fabricante de copos austríaco)


Hoje de manhã fiz uma coisa que não costumo fazer: ao descarregar o jornal, li alguns dos artigos de opinião, inclusive justamente os cronistas de que gosto menos, Miguel Esteves Cardoso e João Miguel Tavares. 

O primeiro não reservava surpresas: tinha comprado copos Riedel para beber Coca-Cola e estava arrependido, porque afinal não bebia tanta Coca-Cola assim e o investimento não compensava. No fundo, uma crónica em que a  versão gourmet do #perdiacabeçanaFnac (para intelectuais)/ #desgraceimenaZara (para fashionistas) se junta ao triunfo máximo da irrelevância pura para nos dar uma mão cheia de rigorosamente nada. "Comprei uns copos, vejam como sou um consumidor requintado, como são finas as minhas tentações, mas arrependi-me. Vai-me servir de lição? Sei bem  que não*." Ui, ainda bem que guardámos uma página de jornal para isto. 

(*fingir uma incapacidade de resistir aos apelos do consumo, qualquer que seja o tipo de consumo que julgamos ser a melhor expressão da nossa identidade social, é uma forma de gabarolice muito típica da sociedade do "compro, logo sou", mas seria interessante estudar porque é que exige este fingimento de irracionalidade, de travessura, para funcionar)

Já o segundo, surpreendeu-me um bocadinho: João Miguel Tavares, que tirou Ciências da Comunicação na minha universidade, conseguiu terminar a licenciatura sem aprender que as Ciências Sociais são, por natureza, imagine-se, "críticas" e vêm nessa função crítica um exercício de cidadania, um contributo social. E de repente, confrontado com tal informação, está chocadíssimo e até junta um "juro" à sua crónica, como se o papel crítico das Ciências Sociais fosse ou uma descoberta recente ou o maior dos absurdos alguma vez enunciados por alguém. Ora, eu sei que no geral o curso de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa tem uma componente teórica muito pouco apreciada pela generalidade dos alunos, que na realidade gostavam de tirar um curso profissional de Jornalismo e não uma licenciatura em Ciências Sociais, e especialmente não nesta área das Ciências Sociais. E sei que, em consequência disso, muitos deles se esforçam por esquecer a toda a velocidade a componente teórica do curso. Mas, ainda assim, tenho dúvidas de que mais alguém tenha conseguido andar lá quatro anos a dar justamente perspectivas críticas sobre comunicação para depois se esquecer que é isso que as Ciências Sociais fazem - questionar criticamente a realidade. Como é que a universidade falhou de tal maneira a João Miguel Tavares?

Não tenho acompanhado as recentes polémicas com João Miguel Tavares sobre o desemprego nem a polémica que o opõe aos investigadores do Observatório sobre Crises e Alternativas da Universidade de Coimbra - na verdade, em resultado de algumas experiências pré-apoplécticas no passado, esforço-me por acompanhar ao mínimo o que escreve, mas espanta-me ainda assim um bocadinho este texto e esta sua descoberta. 

A ser genuína a sua surpresa, resta-me concluir que a ignorância, quando resulta da convicção profunda da inutilidade do conhecimento e da reflexão, é mais resistente do que eu pensava. Nesse caso, é bem possível que João Miguel Tavares tenha razão - se as universidades nem servem para alimentar o sector privado nem servem para acrescentar conhecimentos e capacidades críticas aos que por lá passam, então é bem possível que afinal não sirvam para nada.

Wednesday, April 08, 2015

das es, das ich und das über-ich

três rapidinhas sobre o ego e uma edição especial para freudianos da minha anedota favorita

1. Outro dia estava a fazer um teste de auto-estima numa revista e perguntavam quando me tinha sentido sexy pela última vez. Desisti do teste, não sabia que eram precisos conhecimentos especializados de Arqueologia. 

2. Por falar em auto-estima, ao fim de anos de espera e de vários posts infrutíferos no blogue, estou finalmente numa relação com alguém que me compra ovos Kinder na Páscoa: eu própria. As más notícias é que era um ovo Kinder pequenino, ainda não cheguei ao ovo gigante. Claramente, ainda tenho muito trabalho pela frente.

3. Quando eu era adolescente e estava ativamente envolvida no projeto "arranjar uma personalidade", meti na cabeça que só escrevia a roxo. Escolhia esferográficas com um tom de roxo bastante escuro e conseguia que passasse quase sempre, nos testes, nos documentos oficiais, até o Bilhete de Identidade eu assinei a roxo (depois com o sol e o uso ficou cor de rosa, o que espantava toda a gente). Depois, passou-me a palermice e descobri que isto das personalidades é um bocadinho mais complexo do que uma pessoa rodear-se de detalhes curiosos, hábitos originais e manias inflexíveis. 
Isto para dizer o quê? Que hoje em dia vejo, muitas vezes, pessoas que "escrevem a roxo". E que invariavelmente as compreendo bem, mas também tenho um bocadinho de pena delas, por se terem ficado por ali, por ainda sentirem aquela necessidade, e por não conseguirem mesmo beber o café a não ser que seja curto, em chávena escaldada, pires frio e com meio pacote de açúcar, mexendo só uma vez para não perder a espuma.

Edição especial para freudianos da minha anedota favorita:
Um ego vai na rua e vê um ego a voar.
Pergunta-lhe: "Eu, o que estás aí a fazer? Os egos não voam!"
Resposta: "Ah, mas eu sou um super-ego"
(a versão original é muito melhor. Basta substituir "egos" por "mercados")

Monday, March 16, 2015

iiiiiih, ainda há questionários blogosféricos!


Não sei há quanto tempo não via uma corrente blogosférica - se calhar até foi na semana passada, mas para mim são coisas com um sabor a nostalgia, aos bons velhos tempos do antigamente, quando quase não filtrávamos o que escrevíamos, éramos todos amigos e metade dos blogues que eu lia eram e portugueses que estavam no estrangeiro. 

Talvez por isso, fiquei mesmo contente com a nomeação da macaca-mor e pus logo mãos à obra:

1. Em apenas três palavras, como descreves o teu blog? 
Abandonado mas resistente. 

2. Qual foi o último item que riscaste da tua bucket list? 
Acho que não tenho uma bucket list, nunca escrevi uma. Mas assim de grandes objectivos de vida, cumpri dois recentemente, um profissional (ver abaixo) e um imobiliário, a vista frontal de Tejo. Faltam-me três, com a agravante de que o "quando for grande" morreu, pelo que são tudo coisas que podia, e às tantas devia, estar a fazer agora. Glup, os trinta são lixados. 

3. Se fosses um condenado à morte, o que escolherias como última refeição? 
Tenho esperança que nunca desistisse e me recusasse a participar em rituais que tentam tornar mais humano o que é para mim absolutamente inaceitável, mas se me conseguissem quebrar a resistência, acho que escolheria cozinhar, mesmo que fosse algo muito simples, idealmente um pão e uma receita qualquer nova, que eu nunca tivesse feito. Se também não me deixassem cozinhar, escolhia um copo de vinho tinto de perfil clássico, pão, queijo, um bife muito mal passado, espargos brancos, morangos selvagens e cerejas maduras. Assim, com sorte, ainda os obrigava a adiar a execução para Junho. 

4. Em que momento da tua vida te sentiste "mais tu próprio"? 
Profissionalmente, foi sem dúvida quando comecei a dar aulas - foi aquela sensação, quase mítica, de sentir que estava a fazer exactamente aquilo que sempre tinha querido fazer. Ainda é cedo para dizer se vou ou não ser boa professora, mas é sem dúvida a realização de um sonho.
De resto, talvez me sinta mais eu quando me sinto mais viva e sinto-me sempre mais viva quando faço coisas novas, quando mudo alguma coisa, quando crio, quando alguma coisa me toca, porque muito bonita, muito verdadeira ou muito boa e sempre que me sinto realmente próxima de alguém. 

5. Porque é que lês este blog
Leio o Macaquinhas no Sótão porque é um blogue da velha guarda, com pessoas dentro (ainda são várias? Não, pois não?), pessoas inteiras e inteligentes que podem falar um dia de política, noutro de receitas, noutro de literatura e no dia seguinte de roupa ou de homens (em ambos os casos com muito bom gosto) ou "apenas" do seu quotidiano e da sua vida.

Thursday, March 12, 2015

o realismo mágico



1. Para ver fenómenos sociais, é preciso aceitar que existem fenómenos sociais.

Eu sou uma mulher. Há vantagens inegáveis que me são dadas pela minha configuração de cromossomas. Físicas e culturais. Diz, por exemplo, que tenho uma esperança de vida maior do que a dos homens, diz também que provavelmente não serei acusada de não ser "mulher o suficiente" se demonstrar emoções ou vestir roupa colorida. 
E há desvantagens associadas à mesma configuração de cromossomas, algumas físicas, mas na sua maioria sociais e culturais, que me ultrapassam, a mim e à minha realidade imediata, que não posso resolver pessoalmente e que em alguns casos não me afetam sequer: diz que as mulheres são mais julgadas em função do seu aspeto físico que os homens, por exemplo. Diz também que ganham consistentemente menos, que têm maior risco de pobreza, que existem poucas mulheres em funções de responsabilidade - e os números, especialmente quando são tão expressivos e consistentes como estes são, raramente se referem a um conjunto de coincidências ou a uma acumulação de casos individuais muito específicos. 

Para ver, às vezes, basta querer ver. 
Mas se não quiser ver, posso convencer-me de que as mulheres não chegam mais longe porque, individualmente, não querem. Que as suas carreiras são prejudicadas quando constituem família porque, no caso individual daquela empresa, a empresa seria prejudicada e agiu racionalmente ao substituí-la. Que se quisessem estariam mais representadas na política, veja-se Tatcher, veja-se Merkel, mas aparentemente, individualmente, não querem. Que podiam ter mais dinheiro, quebrar o ciclo de pobreza mas, individualmente, não estão interessadas ou fizeram as escolhas erradas. As mesmas escolhas erradas que as tornaram, individualmente, cada uma de forma isolada, vítimas de violência doméstica. Ou, vítimas não, aqui não queremos vitimizar ninguém, recetoras de violência doméstica. 

Posso depois, para cada um destes problemas individuais, recomendar soluções individuais - a sociedade não existe, a ação coletiva é uma aberração pouco sofisticada, a política morreu, restam-nos um conjunto de indivíduos com os seus problemas pessoais, privados, sozinhos perante o mundo. Mundo esse que, claro está, "é como é", suponho que desde o princípio dos tempos e até ao fim dos tempos, imutável e irredutível. 


2. O mundo é como é, mas nem sempre foi como é e é historicamente provável que não seja sempre como é hoje.

O Dia da Mulher, que celebrámos no passado 8 de Março, lembra um conjunto de pessoas que, ao longo da História, recusaram aceitar que o mundo, que a sociedade, fossem imutáveis. Um conjunto de homens e mulheres que recusaram acreditar que o progresso fosse impossível e que a condição da mulher fosse uma questão privada. Um conjunto de pessoas que foram ridicularizadas, pelas suas pretensões e pelos métodos de luta que escolheram, por homens e mulheres. Que foram enxovalhadas, múltiplas vezes, por todos aqueles, homens e mulheres, que defendiam o mundo tal como era.  

Nem elas nem os homens que as apoiavam conseguiram tudo o que desejavam, mas conseguiram muito. Tanto que lhes dedicámos um dia, a eles, a elas, à sua luta e às suas conquistas.
Até ao dia em que definimos que os objetivos dessa luta tinham sido atingidos na maioria do mundo ocidental e as arquivámos confortavelmente no passado, às lutas, à reflexão social, sinal inequívoco de quem se leva demasiado a sério e não tem sentido de humor, e à própria ideia da ação coletiva, que de resto era uma ideia perigosa e nefasta. 

E, ficando ali com aquele dia de sobra, escolhemos usá-lo para explicar a quem insistia nessa luta desatualizada qual o verdadeiro motivo pelo qual homens e mulheres ainda têm oportunidades diferentes, até nas democracias ocidentais. Comprámos flores, velas, vestidos, presentes e mandamos imprimir cartões coloridos a explicar que a mulher é um ser mágico, uma musa que enche o mundo de beleza, carinho, inspiração, organização e sentido prático. E que, unicórnio* que era, seria uma tontice querer abdicar da sua superioridade natural para ser "igual aos homens", definidos por sua vez como um conjunto de brutos amorfos, francamente ineptos na gestão das emoções e do quotidiano e simplesmente tontinhos em tudo o resto.

[nunca percebo porque é que depois são as feministas que são acusadas de não gostar de homens]


3. #mugglesanonymous

Mas eu, infelizmente, não sou mágica. 
Nem naturalmente superior. Não sou sempre bonita e delicada, algumas pessoas dirão que não sou bonita de todo e muito menos delicada. Não sou naturalmente mais forte do que a maioria das pessoas. Não sou um poema. Não tenho maior tolerância à dor do que a maioria das pessoas. Não consigo fazer de saltos o que as outras pessoas fazem sem eles. Com ou sem saltos, não canto ópera, não opero tumores, não reparo tubos de escape, não escrevo poesia e não programo aplicações informáticas. Não sou uma flor. Não sou naturalmente sábia. Não tenho um sentido estético natural superior ao de metade da população. Não sou uma musa. Não encerro em mim grandes mistérios, talvez me falte subtileza. Não sou mais sensível do que a maioria das pessoas. Sou mais sensível do que algumas delas. Nem todas essas são homens. 
Não sou uma fada. Não tenho um talento natural para as tarefas domésticas. Não sou mais carinhosa do que todos os homens que conheço. Não sou uma canção. Não sou especialmente difícil de compreender. Não sou nem me sinto mais sensata que a maioria da população, nem com maior sentido prático - muitas pessoas têm maior sentido prático que eu, talvez até a maioria delas, muitas são homens. Não sou um unicórnio*. Não sou mais organizada do que a maioria das pessoas, sou menos. Não contenho em mim toda a sabedoria de Sun Tzu. Não sou especialmente ardilosa quando discuto, não sou estratega nas minhas interações, acredito mais no poder dos argumentos quando troco ideias e na assunção sincera de emoções e da vulnerabilidade quando discuto questões pessoais. Não sou a guardiã do amor, do carinho e dos afetos humanos.
Não sou um fenómeno paranormal, sou uma pessoa. 

Mas, realmente, sou mais do que isso. Sou uma pessoa inserida numa cultura e numa sociedade das quais e pelas quais sou, como cidadã e, como ator social, co-criadora e co-responsável. E com isso voltamos ao princípio e começamos a pensar como intervir em fenómenos sociais, e nomeadamente neste.


Tuesday, March 03, 2015

Thursday, February 26, 2015

5:00


Hoje ao passar num quiosque vi na capa de uma revista que a mulher do Primeiro Ministro foi operada, e que terá corrido bem. Parte de mim ficou triste por a senhora ter esta fase da sua vida tão exposta, mas depois parei um momento para pensar e reparei que não sei de qualquer ocorrência em que este tema tenha sido utilizado no debate público, zero aproveitamento do lado do Governo, zero aproveitamento do lado da oposição. 

E tirei cinco minutos para ter orgulho no meu país e na sua classe política, o que é raro, mas neste caso inteiramente justo.

Tuesday, February 24, 2015

informação oficial*


Informo os estimados leitores deste blogue que a Primavera começou este fim-de-semana. Aproveito para agradecer a quem de direito este Inverno maravilhoso, frio e pouco chuvoso, o primeiro desde que regressei a Portugal que não foi uma tortura.

(*eu não tenho muitos talentos, mas um deles é este: sou a pessoa mais competente que conheço no que diz respeito à distinção entre o fim do Inverno e o início da Primavera. Podia saber cantar, dançar, gerir o meu dinheiro ou fazer maionese, podia, mas não era a mesma coisa)

Friday, February 20, 2015

Passos garante que dignidade dos portugueses não foi atingida


Fala por ti, filhinho, fala por ti.
A minha dignidade se calhar sofre de excesso de sensibilidade, mas de cada vez que lia coisas como estas, só para dar um exemplo, garanto-te que ficava francamente afectada.

Sunday, February 15, 2015

troca de favores

Se eu prometer não recuperar aquele maravilhoso dinossauro amarelo, alguém me ajuda a recuperar o bordeaux do título do blogue? Eu não costumo ser demasiado naba, mas este template novo tem uma quantidade de limitações que estou com algumas dificuldades em contornar.

Friday, February 13, 2015

coesão social


Eu sinto que como sociedade estamos demasiado desligados, que nos faltam rituais, que nos devíamos deixar de preconceitos e festejar todas as festas, feriados e tradições, quer sejam novas ou velhas, nacionais ou importadas, inventadas por nós ou já existentes, religiosas ou civis, pessoais ou colectivas. Acho que isso fazia de nós uma sociedade mais unida, forte e solidária e, a nível mais pessoal,  que são as celebrações e rituais que impedem o tempo de se nos escorrer ente os dedos, e nós a ver sem conseguir pará-lo. 
Acredito mesmo nisto.

Posto isto ontem tive muito boas notícias e não celebrei, não me vou mascarar no Carnaval, não estou a planear festejar o Dia dos Namorados e tanto se me dá que hoje seja sexta-feira 13, 15 ou 25.
Sou uma fraude.

ópio do povo reloaded




1. Leio a polémica sobre o cachecol de Varoufakis com um bocejo. Tenho especial carinho por todos aqueles que, à esquerda ou à direita, não conseguem distinguir a defesa da redistribuição da riqueza de um voto de pobreza e confundem os marxistas com os franciscanos. Entretanto aproveitei para registar que Varoufakis está casado há imenso tempo e que os cachecóis da Burberry duram pelo menos doze anos* - não que eu queira um, que se eu mandasse todos os cachecóis que não dessem pelo menos três voltas ao pescoço seriam proibidos ou, vá, um bocadinho de liberdade, seja, obrigados a mudar de nome. Sugiro "farrapinhos". E por falar em "se eu mandasse"...

2. Estou a ler um livro sobre a Coreia do Norte. A certa altura, sobre a famosa questão dos penteados, refere que a regra para os homens, a determinada altura, era que cada fio de cabelo individual não podia ter mais de 5cm de comprimento. A exceção eram os homens que sofriam de calvície, cujos fios de cabelo podiam ir até aos 7cm. Estão a ver porquê, não estão? Não percebo esta gente, assumem o desafio de tentar criar uma humanidade melhor, regulam os mais insignificantes detalhes do aspecto e da vida pessoal dos cidadãos, mas depois deixam passar estas coisas. E por falar em calvície...

3. Estive a reflectir e cheguei à conclusão de que este post da São João ("O objectivo da busca da igualdade não é podermos fazer o mal que os outros fazem.") significa que se critico a obsessão dos media com os corpos, penteados e roupas das mulheres políticas e o facto de as usarem para as descredibilizar, também não posso tirar o dia para me rir do Paulo Portas e da sua careca descoberta. Reconheço que me custa e penso no que isso quererá dizer.

Update*: afinal não duram nada. O Público, o nosso jornal diário de referência, refere que o cachecol tem um aspecto "um pedacito coçado".  Todo um tratado.

Thursday, February 12, 2015

#jesuispas50shades




Pergunto-me porque terão as pessoas tanta necessidade de se distanciar publicamente de 50 Shades of Grey. O que não faltam são produtos culturais de fraca qualidade, mas só alguns conseguem a proeza de levar as pessoas a sentir a necessidade de garantir em público que não leram, não viram e desdenham quem o fez. Qual será o segredo?

Update: Entretanto nos comentários deste post linkaram-me este post, que julgo que responde parcialmente à questão, ou pelo menos dá a pista principal: "coisas de gajas". Eu não concordo na totalidade com o post, mas vale a pena seguir o link. Deixo aqui apenas dois parágrafos, que me parecem acertar na mouche e que me lembram o que disse sobre pornografia para mulheres, justamente na análise que fiz depois de ler este livro:

"Twilight e Fifty Shades of Grey, este último aqui apresentado como um mero produto de marketing, partilham o mesmo ponto de partida: o material de origem, os livros, foram escritos por uma gaja, o filme foi realizado por outra gaja e o material é dirigido a gajas, dando-lhes o tipo de historias que parte significativa das gajas querem ler/ver, mas cujo gosto e desejo espelhado pela predilecção por este tipo de história estão pressionadas a não revelar publicamente" 

"As "verdadeiras" gajas, as feministas, não apreciam particularmente este tipo de história pelo papel para o qual remetem as gajas no seu relacionamento com os gajos, e os gajos, que continuam a ter o domínio do espaço público, também não apreciam estas história porque, enfim, são histórias de gajas. Logo, no espaço público, há que tratar com desprezo este tipo de produtos. Desprezo que não se manifesta igualmente por uma outra série de produtos de valor semelhante, nomeadamente os filmes de super-heróis."

"Paradoxalmente, na perspectiva das "verdadeiras" gajas, contudo, os filmes de super-heróis, cuja supremacia na indústria cinematográfica tem origem numa cultura maioritariamente masculina, só lhes irrita pela ausência de super-heroínas. Para as "verdadeiras" gajas, a ascensão da mulher no espaço mediático [deve ser feita] pela apropriação por parte da mulher daquilo que é e tem sido uma cultura essencialmente masculina." 

(link post completo)

Wednesday, February 11, 2015

kindergartenpolitik


Boa ideia: reconhecer que o facto de Lisboa ser cada vez mais uma cidade turística tem custos para a cidade, e cobrar em consequência uma taxa, tal como o fazem centenas de cidades com grande afluxo de turistas, sem que de resto a sua atratividade em termos turísticos tenha sofrido a mínima mossa.

Um bocadinho deslocado: decidir usar esse dinheiro não para equilibrar as contas da cidade, não para melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes e mitigar as desvantagens de viver num destino turístico, nem para investir em infraestruturas que contribuam para a melhoria da experiência turística da maioria dos turistas, mas para recuperar um pavilhão. Não é nenhum absurdo, porque o turismo de congressos é um sector que mexe milhões, mas achei que não fazia sentido direcionar à partida a totalidade das verbas obtidas pelaa taxa para um objetivo tão específico.

Palermice: Desistir da ideia porque o presidente da Associação de Hotelaria de Lisboa, que defendia a recuperação do pavilhão, disse mal da CML e da sua intenção de implementar uma taxa turística. Mas afinal a taxa turística fazia sentido e a recuperação do pavilhão era importante para a cidade, ou era só um jeitinho à AHL?

Tuesday, February 10, 2015

camarada, faz a tua autocrítica!


Não concorda com uma blogger ou colunista? Não há problema!
A partir de agora, com este teste de auto-diagnóstico, pode descobrir o que há de errado consigo antes de partir para discussões embaraçosas -  a maioria dos nossos defeitos e problemas acabam por ser bastante óbvios para os outros, que não deixarão de nos alertar para essa fragilidade, com efeitos potencialmente destruidores para a nossa auto-estima. Para evitar esse confronto, antes de expressar a sua discórdia, faça este teste: 

Quem é o seu herói de infância:
a) A virgem Maria.
b) Cavaco Silva.
c) Aristóteles.
d) A vizinha de baixo, que tinha sempre todas as Barbies que saíam.
e) Outro.

Quando foi a última vez que riu à gargalhada?
a) Ontem, estava na paragem do autocarro e vieram-me uns calores engraçadíssimos, faziam cociguinhas.
b) Julgo que foi em 1995, mas deixe-me confirmar na minha agenda.
c) Oh pá, a semana passada, há uma passagem do Guattari que me leva sempre às lágrimas.
d) Quando a minha colega foi ao cabeleireiro e saiu de lá com uma permanente horrível.
e) Outro.

Qual o seu primeiro pensamento quando acorda de manhã?
a) Não posso dizer.
b) Deixa-me apagar o rádio-despertador rápido antes que comecem aqueles tipos com a mania de que têm graça.
c) Deito-me, levanto-me, deito-me, levanto-me, a condição humana é um absurdo.
d) Hoje vou vestir a minha saia preta da Zara, espero que a bimba da secretária do chefe que foi logo a correr comprar uma igual apesar de ter umas coxas de lavadeira não se lembre de a vestir também.
e) Outro.

Qual o seu prato favorito?
a) Calipo de morango.
b) Papas de aveia.
c) Papas de aveia.
d) O que eu gosto mesmo muito é de chocolates, mas de cada vez que como um tenho de fazer três horas de ginásio. Já a minha irmã? Come o que lhe apetece e não engorda, a vaca.
e) Outro.

Quem é o seu autor favorito?
a) EL James.
b) José Rodrigues dos Santos.
c) David Foster Wallace.
d) Eu não tenho tempo para ler, isso é para quem não tem mais que fazer.
e) Outro.

Porque não concorda com a blogger?
a) O texto dela causou-me um afrontamento.
b) O texto dela não tem graça.
c) O texto dela é ofensivo e desonesto.
d) Ela está sempre a mostrar as coisas que tem.
e) Outro.

Avalie as suas respostas e identifique de acordo com a chave abaixo qual o seu problema e como resolvê-lo ou escondê-lo de forma eficaz:

Maioria de respostas a)
o seu problema é a falta de sexo. Caso não disponha de um cavalheiro disposto a colaborar consigo na resolução deste problema e o seu pudor não lhe permita resolver o assunto pelas suas próprias mãos, existem gadgets muito úteis à venda na internet.

Maioria de respostas b) o seu problema é que não tem sentido de humor, só gosta de coisas sensaboronas e é capaz de se cruzar com as coisas mais absurdas sem esboçar um sorriso. Este problema não tem solução definitiva, mas pode torná-lo mais discreto aprendendo a rir dos mesmos assuntos que a maioria das pessoas e imitando o seu comportamento.

Maioria de respostas c) o seu problema é que se leva demasiado a sério. A solução mais simples para este problema é “deixar-se de merdas” mas se tiver dificuldades em fazê-lo devido a excesso de exposição a estímulos intelectuais na adolescência, pode juntar-se a uma comunidade hipster, o que lhe vai permitir perceber que a ironia é omnipresente, tudo pode ser irónico, de uma canção a uma operação bancária, de um bigode a uma escolha de carreira, de uma doença venérea a um programa político. Existe a possibilidade de acabar por levar demasiado a sério a tarefa de não levar nada a sério - caso isso aconteça, tente falar abertamente desse problema de forma irónica.

Maioria de respostas d) o seu problema é inveja, um dos problemas feministas* mais omnipresentes na sociedade, embora esteja um pouco demodé e seja cada vez menos visto. A solução para o seu problema, como sei que sempre suspeitou, é comprar várias coisas muito caras e falar abundantemente sobre elas, garantindo que ninguém suspeita da aflição que a consome. Se a sua inveja tiver outra origem, proceda de igual forma adaptando o objeto de consumo.

Maioria de respostas e) o seu problema é de diagnóstico mais difícil, sendo que é provável que tenha uma combinação de todos os problemas acima e/ou que tenha sido intelectualmente desonesto nas respostas a este teste.

(*de acordo com uma descoberta que fiz hoje num portal para mulheres, são feministas todas as coisas que todas as mulheres fazem desde sempre, como coçar o nariz, dizer mal umas das outras, respirar, ter o período ou criticar o parceiro) 

ui, que me ri tanto que até me saiu uma ervilha pelo nariz!



Fala-se muito da forma como a internet espicaça as discussões, as torna mais acesas, menos tolerantes, e nos deixa a nós mais prontos a partir para a ofensa, em função do espírito de manada ou a coberto da distância ou do anonimato. 

Já da gargalhada blogosférica fala-se menos, e é pena. Nas caixas de comentários dos blogues, Mona Lisa não tinha futuro. À menor piadinha (com ou sem graça*), as pessoas riem-se de tal forma que se engasgam, saltam-lhes lágrimas dos olhos, têm de correr a esconder-se na casa de banho, dar explicações ao chefe que as ouviu no andar de baixo e tomar uma aspirina para não ter um ataque cardíaco. A ser verdade, os blogues fazem mesmo muito pela felicidade dos seus leitores.

(*se bem que, para dizer a verdade, não haja piadas sem graça na internet, no máximo há leitores sem sentido de humor, provavelmente por se levarem demasiado a sério)

Thursday, February 05, 2015

da corrupção


Uma das melhores coisas que me aconteceu em 2014 foi receber de presente uma assinatura da London Review of Books e passar a ler regularmente artigos com perspetivas inovadoras e argumentadas de forma extremamente séria, exaustiva e ponderada, sem a mínima cedência ao soundbyte, sobre temas que me interessam, do feminismo à economia, da política internacional ao ambiente, passando também, como não podia deixar de ser, pela crítica literária e artística. Mesmo quando não concordo com a posição de um autor (talvez até especialmente nesses casos) é um prazer imenso lê-la, mesmo quando calha só conseguir ler dois ou três artigos de uma edição, e só espero poder continuar a assiná-la por muitos e muitos anos.

Um dos artigos mais interessantes com que me cruzei foi este artigo de Perry Anderson sobre a corrupção na Itália, que me levou a uma pequena epifania que vou formular assim: a corrupção não é um estado de exceção no capitalismo e nas democracias ocidentais, mas um seu elemento constitutivo*. 

Dantes, eu partilhava a perspetiva de muitos portugueses sobre a corrupção em Portugal em comparação com outros países europeus e, como alemã honorária, sentia-me orgulhosa do meu segundo país, onde os políticos sobre quem recaíam suspeitas se demitiam ou eram demitidos, os poderosos que fugiam aos impostos acabavam na cadeia e escândalos em que se descobriam redes de corrupção tinham consequências gravosas. Continuo, claro, a achar que estas diferenças são significativas. Mas o que aprendi neste artigo foi a olhar, com olhos de ver, para as semelhanças. E percebi que elas são muitas mais, e muito mais significativas, que as diferenças. 

Julgo que haverá talvez ainda uma outra diferença, entre os níveis que são afetados pela corrupção: quando falamos de países corruptos, de Estados falhados, imaginamos que todas as esferas estão envolvidas na corrupção, todos os níveis, do polícia ao ministro, da porteira ao médico, e quando falamos de países civilizados, a corrupção passa a ser uma constante apenas nas esferas mais altas, na alta finança, nas grandes empresas, nos centros de decisão política.

Mas de resto, a proposição mantém-se. Na Itália. Na Alemanha. Na Grécia. Na França. Na Espanha. No Reino Unido. Em Portugal. Na Irlanda. Por todo o lado. A corrupção, as trocas de favores entre a política e as grandes empresas, o desvio de dinheiros públicos, o abuso do poder. Casos atrás de casos atrás de casos, a sua maioria sem consequências, mas acima de tudo casos, atrás de casos, atrás de casos. A regra, não a exceção. 

Quando se discute hoje a corrupção na Grécia como grande entrave ao desenvolvimento da sua economia, provavelmente com razão, e se equacionam as medidas que o Syriza pode tomar para a combater, penso muitas vezes nisto - no carácter muito pouco excecional da corrupção na Europa.


(*naturalmente podia ter chegado a esta conclusão mais cedo e/ou por outras fontes, não é nada de novo, mas para mim, nessa altura, mudou um pouco a minha perspectiva) 

Monday, February 02, 2015

os media, a união europeia e o governo grego


Ato 1

Potencial novo governo grego: Não queremos sair do euro.
Media: Potencial novo governo grego pode estar a planear saída do euro.
Potencial novo governo grego: Não queremos sair do euro.
Media: Potencial novo governo grego pode estar a planear saída do euro.
Potencial novo governo grego: Não queremos sair do euro.
Media: Potencial novo governo grego pode estar a planear saída do euro.

Ato 2

Novo governo grego: Não queremos um novo empréstimo.
União Europeia: Se não cumprirem os vossos compromissos, não vos emprestamos mais dinheiro.
Media: UE avisa que pode recusar novo empréstimo à Grécia se esta não cumprir os seus compromissos.
Novo governo grego: Não queremos um novo empréstimo.
União Europeia: Se não cumprirem os vossos compromissos, não vos emprestamos mais dinheiro.
Media: UE avisa que pode recusar novo empréstimo à Grécia se esta não cumprir os seus compromissos.
Novo governo grego: Não queremos um novo empréstimo.
União Europeia: Se não cumprirem os vossos compromissos, não vos emprestamos mais dinheiro.
Media: UE avisa que pode recusar novo empréstimo à Grécia se esta não cumprir os seus compromissos.

Ato 3

União Europeia: UE anuncia sanções à Rússia.
Novo governo grego: Hey, ninguém nos perguntou!
Media: Gregos contra sanções à Rússia.
[negociação]
Novo governo grego: Apenas quisemos participar da decisão, como é natural. 
União Europeia: Negociação bem sucedida, compromisso atingido. 
Media: Gregos contra sanções à Rússia.

Update: Ato 4


O meu maior medo, no caso grego, não é que as suas políticas falhem per se nem que os governos europeus e os mercados os boicotem de tal forma as condenem automaticamente ao falhanço. São dois riscos reais, mas não são os que me inquietam mais.

O que mais me apoquenta é a vitória da desinformação - que os jornais continuem a escrever coisas que já foram desmentidas, que as pessoas continuem a partilhar textos que contêm informações já desmentidas, e que apoiados neste clima de desinformação, os líderes europeus continuem a responder não à realidade e às propostas que efetivamente lhes são feitas mas à "proposta argumentativa de que lhes dá jeito discordar", mesmo que ela não exista e que não encontrem ninguém que a defenda.

E que no fim a História reflita este debate surdo e o use para demonstrar a total inexistência de alternativas seja ao que for, sempre e em toda a parte.