Thursday, February 26, 2015

5:00


Hoje ao passar num quiosque vi na capa de uma revista que a mulher do Primeiro Ministro foi operada, e que terá corrido bem. Parte de mim ficou triste por a senhora ter esta fase da sua vida tão exposta, mas depois parei um momento para pensar e reparei que não sei de qualquer ocorrência em que este tema tenha sido utilizado no debate público, zero aproveitamento do lado do Governo, zero aproveitamento do lado da oposição. 

E tirei cinco minutos para ter orgulho no meu país e na sua classe política, o que é raro, mas neste caso inteiramente justo.

Tuesday, February 24, 2015

informação oficial*


Informo os estimados leitores deste blogue que a Primavera começou este fim-de-semana. Aproveito para agradecer a quem de direito este Inverno maravilhoso, frio e pouco chuvoso, o primeiro desde que regressei a Portugal que não foi uma tortura.

(*eu não tenho muitos talentos, mas um deles é este: sou a pessoa mais competente que conheço no que diz respeito à distinção entre o fim do Inverno e o início da Primavera. Podia saber cantar, dançar, gerir o meu dinheiro ou fazer maionese, podia, mas não era a mesma coisa)

Friday, February 20, 2015

Passos garante que dignidade dos portugueses não foi atingida


Fala por ti, filhinho, fala por ti.
A minha dignidade se calhar sofre de excesso de sensibilidade, mas de cada vez que lia coisas como estas, só para dar um exemplo, garanto-te que ficava francamente afectada.

Sunday, February 15, 2015

troca de favores

Se eu prometer não recuperar aquele maravilhoso dinossauro amarelo, alguém me ajuda a recuperar o bordeaux do título do blogue? Eu não costumo ser demasiado naba, mas este template novo tem uma quantidade de limitações que estou com algumas dificuldades em contornar.

Friday, February 13, 2015

coesão social


Eu sinto que como sociedade estamos demasiado desligados, que nos faltam rituais, que nos devíamos deixar de preconceitos e festejar todas as festas, feriados e tradições, quer sejam novas ou velhas, nacionais ou importadas, inventadas por nós ou já existentes, religiosas ou civis, pessoais ou colectivas. Acho que isso fazia de nós uma sociedade mais unida, forte e solidária e, a nível mais pessoal,  que são as celebrações e rituais que impedem o tempo de se nos escorrer ente os dedos, e nós a ver sem conseguir pará-lo. 
Acredito mesmo nisto.

Posto isto ontem tive muito boas notícias e não celebrei, não me vou mascarar no Carnaval, não estou a planear festejar o Dia dos Namorados e tanto se me dá que hoje seja sexta-feira 13, 15 ou 25.
Sou uma fraude.

ópio do povo reloaded




1. Leio a polémica sobre o cachecol de Varoufakis com um bocejo. Tenho especial carinho por todos aqueles que, à esquerda ou à direita, não conseguem distinguir a defesa da redistribuição da riqueza de um voto de pobreza e confundem os marxistas com os franciscanos. Entretanto aproveitei para registar que Varoufakis está casado há imenso tempo e que os cachecóis da Burberry duram pelo menos doze anos* - não que eu queira um, que se eu mandasse todos os cachecóis que não dessem pelo menos três voltas ao pescoço seriam proibidos ou, vá, um bocadinho de liberdade, seja, obrigados a mudar de nome. Sugiro "farrapinhos". E por falar em "se eu mandasse"...

2. Estou a ler um livro sobre a Coreia do Norte. A certa altura, sobre a famosa questão dos penteados, refere que a regra para os homens, a determinada altura, era que cada fio de cabelo individual não podia ter mais de 5cm de comprimento. A exceção eram os homens que sofriam de calvície, cujos fios de cabelo podiam ir até aos 7cm. Estão a ver porquê, não estão? Não percebo esta gente, assumem o desafio de tentar criar uma humanidade melhor, regulam os mais insignificantes detalhes do aspecto e da vida pessoal dos cidadãos, mas depois deixam passar estas coisas. E por falar em calvície...

3. Estive a reflectir e cheguei à conclusão de que este post da São João ("O objectivo da busca da igualdade não é podermos fazer o mal que os outros fazem.") significa que se critico a obsessão dos media com os corpos, penteados e roupas das mulheres políticas e o facto de as usarem para as descredibilizar, também não posso tirar o dia para me rir do Paulo Portas e da sua careca descoberta. Reconheço que me custa e penso no que isso quererá dizer.

Update*: afinal não duram nada. O Público, o nosso jornal diário de referência, refere que o cachecol tem um aspecto "um pedacito coçado".  Todo um tratado.

Thursday, February 12, 2015

#jesuispas50shades




Pergunto-me porque terão as pessoas tanta necessidade de se distanciar publicamente de 50 Shades of Grey. O que não faltam são produtos culturais de fraca qualidade, mas só alguns conseguem a proeza de levar as pessoas a sentir a necessidade de garantir em público que não leram, não viram e desdenham quem o fez. Qual será o segredo?

Update: Entretanto nos comentários deste post linkaram-me este post, que julgo que responde parcialmente à questão, ou pelo menos dá a pista principal: "coisas de gajas". Eu não concordo na totalidade com o post, mas vale a pena seguir o link. Deixo aqui apenas dois parágrafos, que me parecem acertar na mouche e que me lembram o que disse sobre pornografia para mulheres, justamente na análise que fiz depois de ler este livro:

"Twilight e Fifty Shades of Grey, este último aqui apresentado como um mero produto de marketing, partilham o mesmo ponto de partida: o material de origem, os livros, foram escritos por uma gaja, o filme foi realizado por outra gaja e o material é dirigido a gajas, dando-lhes o tipo de historias que parte significativa das gajas querem ler/ver, mas cujo gosto e desejo espelhado pela predilecção por este tipo de história estão pressionadas a não revelar publicamente" 

"As "verdadeiras" gajas, as feministas, não apreciam particularmente este tipo de história pelo papel para o qual remetem as gajas no seu relacionamento com os gajos, e os gajos, que continuam a ter o domínio do espaço público, também não apreciam estas história porque, enfim, são histórias de gajas. Logo, no espaço público, há que tratar com desprezo este tipo de produtos. Desprezo que não se manifesta igualmente por uma outra série de produtos de valor semelhante, nomeadamente os filmes de super-heróis."

"Paradoxalmente, na perspectiva das "verdadeiras" gajas, contudo, os filmes de super-heróis, cuja supremacia na indústria cinematográfica tem origem numa cultura maioritariamente masculina, só lhes irrita pela ausência de super-heroínas. Para as "verdadeiras" gajas, a ascensão da mulher no espaço mediático [deve ser feita] pela apropriação por parte da mulher daquilo que é e tem sido uma cultura essencialmente masculina." 

(link post completo)

Wednesday, February 11, 2015

kindergartenpolitik


Boa ideia: reconhecer que o facto de Lisboa ser cada vez mais uma cidade turística tem custos para a cidade, e cobrar em consequência uma taxa, tal como o fazem centenas de cidades com grande afluxo de turistas, sem que de resto a sua atratividade em termos turísticos tenha sofrido a mínima mossa.

Um bocadinho deslocado: decidir usar esse dinheiro não para equilibrar as contas da cidade, não para melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes e mitigar as desvantagens de viver num destino turístico, nem para investir em infraestruturas que contribuam para a melhoria da experiência turística da maioria dos turistas, mas para recuperar um pavilhão. Não é nenhum absurdo, porque o turismo de congressos é um sector que mexe milhões, mas achei que não fazia sentido direcionar à partida a totalidade das verbas obtidas pelaa taxa para um objetivo tão específico.

Palermice: Desistir da ideia porque o presidente da Associação de Hotelaria de Lisboa, que defendia a recuperação do pavilhão, disse mal da CML e da sua intenção de implementar uma taxa turística. Mas afinal a taxa turística fazia sentido e a recuperação do pavilhão era importante para a cidade, ou era só um jeitinho à AHL?

Tuesday, February 10, 2015

camarada, faz a tua autocrítica!


Não concorda com uma blogger ou colunista? Não há problema!
A partir de agora, com este teste de auto-diagnóstico, pode descobrir o que há de errado consigo antes de partir para discussões embaraçosas -  a maioria dos nossos defeitos e problemas acabam por ser bastante óbvios para os outros, que não deixarão de nos alertar para essa fragilidade, com efeitos potencialmente destruidores para a nossa auto-estima. Para evitar esse confronto, antes de expressar a sua discórdia, faça este teste: 

Quem é o seu herói de infância:
a) A virgem Maria.
b) Cavaco Silva.
c) Aristóteles.
d) A vizinha de baixo, que tinha sempre todas as Barbies que saíam.
e) Outro.

Quando foi a última vez que riu à gargalhada?
a) Ontem, estava na paragem do autocarro e vieram-me uns calores engraçadíssimos, faziam cociguinhas.
b) Julgo que foi em 1995, mas deixe-me confirmar na minha agenda.
c) Oh pá, a semana passada, há uma passagem do Guattari que me leva sempre às lágrimas.
d) Quando a minha colega foi ao cabeleireiro e saiu de lá com uma permanente horrível.
e) Outro.

Qual o seu primeiro pensamento quando acorda de manhã?
a) Não posso dizer.
b) Deixa-me apagar o rádio-despertador rápido antes que comecem aqueles tipos com a mania de que têm graça.
c) Deito-me, levanto-me, deito-me, levanto-me, a condição humana é um absurdo.
d) Hoje vou vestir a minha saia preta da Zara, espero que a bimba da secretária do chefe que foi logo a correr comprar uma igual apesar de ter umas coxas de lavadeira não se lembre de a vestir também.
e) Outro.

Qual o seu prato favorito?
a) Calipo de morango.
b) Papas de aveia.
c) Papas de aveia.
d) O que eu gosto mesmo muito é de chocolates, mas de cada vez que como um tenho de fazer três horas de ginásio. Já a minha irmã? Come o que lhe apetece e não engorda, a vaca.
e) Outro.

Quem é o seu autor favorito?
a) EL James.
b) José Rodrigues dos Santos.
c) David Foster Wallace.
d) Eu não tenho tempo para ler, isso é para quem não tem mais que fazer.
e) Outro.

Porque não concorda com a blogger?
a) O texto dela causou-me um afrontamento.
b) O texto dela não tem graça.
c) O texto dela é ofensivo e desonesto.
d) Ela está sempre a mostrar as coisas que tem.
e) Outro.

Avalie as suas respostas e identifique de acordo com a chave abaixo qual o seu problema e como resolvê-lo ou escondê-lo de forma eficaz:

Maioria de respostas a)
o seu problema é a falta de sexo. Caso não disponha de um cavalheiro disposto a colaborar consigo na resolução deste problema e o seu pudor não lhe permita resolver o assunto pelas suas próprias mãos, existem gadgets muito úteis à venda na internet.

Maioria de respostas b) o seu problema é que não tem sentido de humor, só gosta de coisas sensaboronas e é capaz de se cruzar com as coisas mais absurdas sem esboçar um sorriso. Este problema não tem solução definitiva, mas pode torná-lo mais discreto aprendendo a rir dos mesmos assuntos que a maioria das pessoas e imitando o seu comportamento.

Maioria de respostas c) o seu problema é que se leva demasiado a sério. A solução mais simples para este problema é “deixar-se de merdas” mas se tiver dificuldades em fazê-lo devido a excesso de exposição a estímulos intelectuais na adolescência, pode juntar-se a uma comunidade hipster, o que lhe vai permitir perceber que a ironia é omnipresente, tudo pode ser irónico, de uma canção a uma operação bancária, de um bigode a uma escolha de carreira, de uma doença venérea a um programa político. Existe a possibilidade de acabar por levar demasiado a sério a tarefa de não levar nada a sério - caso isso aconteça, tente falar abertamente desse problema de forma irónica.

Maioria de respostas d) o seu problema é inveja, um dos problemas feministas* mais omnipresentes na sociedade, embora esteja um pouco demodé e seja cada vez menos visto. A solução para o seu problema, como sei que sempre suspeitou, é comprar várias coisas muito caras e falar abundantemente sobre elas, garantindo que ninguém suspeita da aflição que a consome. Se a sua inveja tiver outra origem, proceda de igual forma adaptando o objeto de consumo.

Maioria de respostas e) o seu problema é de diagnóstico mais difícil, sendo que é provável que tenha uma combinação de todos os problemas acima e/ou que tenha sido intelectualmente desonesto nas respostas a este teste.

(*de acordo com uma descoberta que fiz hoje num portal para mulheres, são feministas todas as coisas que todas as mulheres fazem desde sempre, como coçar o nariz, dizer mal umas das outras, respirar, ter o período ou criticar o parceiro) 

ui, que me ri tanto que até me saiu uma ervilha pelo nariz!



Fala-se muito da forma como a internet espicaça as discussões, as torna mais acesas, menos tolerantes, e nos deixa a nós mais prontos a partir para a ofensa, em função do espírito de manada ou a coberto da distância ou do anonimato. 

Já da gargalhada blogosférica fala-se menos, e é pena. Nas caixas de comentários dos blogues, Mona Lisa não tinha futuro. À menor piadinha (com ou sem graça*), as pessoas riem-se de tal forma que se engasgam, saltam-lhes lágrimas dos olhos, têm de correr a esconder-se na casa de banho, dar explicações ao chefe que as ouviu no andar de baixo e tomar uma aspirina para não ter um ataque cardíaco. A ser verdade, os blogues fazem mesmo muito pela felicidade dos seus leitores.

(*se bem que, para dizer a verdade, não haja piadas sem graça na internet, no máximo há leitores sem sentido de humor, provavelmente por se levarem demasiado a sério)

Thursday, February 05, 2015

da corrupção


Uma das melhores coisas que me aconteceu em 2014 foi receber de presente uma assinatura da London Review of Books e passar a ler regularmente artigos com perspetivas inovadoras e argumentadas de forma extremamente séria, exaustiva e ponderada, sem a mínima cedência ao soundbyte, sobre temas que me interessam, do feminismo à economia, da política internacional ao ambiente, passando também, como não podia deixar de ser, pela crítica literária e artística. Mesmo quando não concordo com a posição de um autor (talvez até especialmente nesses casos) é um prazer imenso lê-la, mesmo quando calha só conseguir ler dois ou três artigos de uma edição, e só espero poder continuar a assiná-la por muitos e muitos anos.

Um dos artigos mais interessantes com que me cruzei foi este artigo de Perry Anderson sobre a corrupção na Itália, que me levou a uma pequena epifania que vou formular assim: a corrupção não é um estado de exceção no capitalismo e nas democracias ocidentais, mas um seu elemento constitutivo*. 

Dantes, eu partilhava a perspetiva de muitos portugueses sobre a corrupção em Portugal em comparação com outros países europeus e, como alemã honorária, sentia-me orgulhosa do meu segundo país, onde os políticos sobre quem recaíam suspeitas se demitiam ou eram demitidos, os poderosos que fugiam aos impostos acabavam na cadeia e escândalos em que se descobriam redes de corrupção tinham consequências gravosas. Continuo, claro, a achar que estas diferenças são significativas. Mas o que aprendi neste artigo foi a olhar, com olhos de ver, para as semelhanças. E percebi que elas são muitas mais, e muito mais significativas, que as diferenças. 

Julgo que haverá talvez ainda uma outra diferença, entre os níveis que são afetados pela corrupção: quando falamos de países corruptos, de Estados falhados, imaginamos que todas as esferas estão envolvidas na corrupção, todos os níveis, do polícia ao ministro, da porteira ao médico, e quando falamos de países civilizados, a corrupção passa a ser uma constante apenas nas esferas mais altas, na alta finança, nas grandes empresas, nos centros de decisão política.

Mas de resto, a proposição mantém-se. Na Itália. Na Alemanha. Na Grécia. Na França. Na Espanha. No Reino Unido. Em Portugal. Na Irlanda. Por todo o lado. A corrupção, as trocas de favores entre a política e as grandes empresas, o desvio de dinheiros públicos, o abuso do poder. Casos atrás de casos atrás de casos, a sua maioria sem consequências, mas acima de tudo casos, atrás de casos, atrás de casos. A regra, não a exceção. 

Quando se discute hoje a corrupção na Grécia como grande entrave ao desenvolvimento da sua economia, provavelmente com razão, e se equacionam as medidas que o Syriza pode tomar para a combater, penso muitas vezes nisto - no carácter muito pouco excecional da corrupção na Europa.


(*naturalmente podia ter chegado a esta conclusão mais cedo e/ou por outras fontes, não é nada de novo, mas para mim, nessa altura, mudou um pouco a minha perspectiva) 

Monday, February 02, 2015

os media, a união europeia e o governo grego


Ato 1

Potencial novo governo grego: Não queremos sair do euro.
Media: Potencial novo governo grego pode estar a planear saída do euro.
Potencial novo governo grego: Não queremos sair do euro.
Media: Potencial novo governo grego pode estar a planear saída do euro.
Potencial novo governo grego: Não queremos sair do euro.
Media: Potencial novo governo grego pode estar a planear saída do euro.

Ato 2

Novo governo grego: Não queremos um novo empréstimo.
União Europeia: Se não cumprirem os vossos compromissos, não vos emprestamos mais dinheiro.
Media: UE avisa que pode recusar novo empréstimo à Grécia se esta não cumprir os seus compromissos.
Novo governo grego: Não queremos um novo empréstimo.
União Europeia: Se não cumprirem os vossos compromissos, não vos emprestamos mais dinheiro.
Media: UE avisa que pode recusar novo empréstimo à Grécia se esta não cumprir os seus compromissos.
Novo governo grego: Não queremos um novo empréstimo.
União Europeia: Se não cumprirem os vossos compromissos, não vos emprestamos mais dinheiro.
Media: UE avisa que pode recusar novo empréstimo à Grécia se esta não cumprir os seus compromissos.

Ato 3

União Europeia: UE anuncia sanções à Rússia.
Novo governo grego: Hey, ninguém nos perguntou!
Media: Gregos contra sanções à Rússia.
[negociação]
Novo governo grego: Apenas quisemos participar da decisão, como é natural. 
União Europeia: Negociação bem sucedida, compromisso atingido. 
Media: Gregos contra sanções à Rússia.

Update: Ato 4


O meu maior medo, no caso grego, não é que as suas políticas falhem per se nem que os governos europeus e os mercados os boicotem de tal forma as condenem automaticamente ao falhanço. São dois riscos reais, mas não são os que me inquietam mais.

O que mais me apoquenta é a vitória da desinformação - que os jornais continuem a escrever coisas que já foram desmentidas, que as pessoas continuem a partilhar textos que contêm informações já desmentidas, e que apoiados neste clima de desinformação, os líderes europeus continuem a responder não à realidade e às propostas que efetivamente lhes são feitas mas à "proposta argumentativa de que lhes dá jeito discordar", mesmo que ela não exista e que não encontrem ninguém que a defenda.

E que no fim a História reflita este debate surdo e o use para demonstrar a total inexistência de alternativas seja ao que for, sempre e em toda a parte.

duelo de manhãs

manhã de gisele bündchen vs manhã de rita maria

 "Vou dormir aqui, que assim não incomodo ninguém." (fonte)

1. A equipa pela qual ela estava a torcer não deitou tudo a perder de forma estúpida na última jogada.
2. Ela não tem ar de pessoa que dorme no sofá para não acordar o namorado que começa a trabalhar às oito no dia seguinte. E se o fosse, e o namorado tivesse de se levantar cedo, que também não tem, teria dormido antes no quarto de visitas. Num dos quinze. 
3. Ainda não é de manhã no sítio onde ela mora.
4. E mesmo que fosse, ela não estava num autocarro a caminho do trabalho.
5. Esta é mais arriscada, mas cheira-me que ela não terá um fígado ou vesícula biliar reivindicativos.

Friday, January 30, 2015

aos contribuintes alemães


Tinha começado um post chamado "e os contribuintes alemães", mas ainda só tinha alinhavado duas ou três frases quando encontrei esta carta do novo primeiro ministro grego aos contribuintes alemães, cuja leitura recomendo.

a política, a democracia, os mercados e os compromissos adquiridos


A grande revolução grega do último fim de semana não foi chegar ao poder um partido que defende muitas das coisas que também defendo, embora isso seja para mim uma experiência realmente inovadora, mas a vitória da política e da democracia sobre a tecnocracia. Já muitos comentadores disseram isto, provavelmente todos muito melhor que eu, mas não queria deixar também eu de salientar isto.

A Política, tantas vezes confundida em Portugal com a politiquice, é isto, o confronto de alternativas sobre como gerir a coisa pública. Ao longo dos últimos anos têm tentado das mais variadas formas convencer-nos de que já não há, na Europa, espaço para ela, que há um único caminho, uma única forma de gerir os Estados, forma essa que passaria necessariamente pelas propostas neo-liberais, privatizações de empresas públicas, mesmo que lucrativas, descida dos salários, perda de direitos, cortes na Educação, na Saúde, nas pensões. Ora esta é uma proposta legítima, mas não foi nunca apresentada a ninguém como uma proposta política legítima, mas sim como o único caminho tecnicamente possível, o único passível de ser sequer equacionado no contexto económico atual. “Contexto económico atual” que de repente deixava de ser uma variável política resultante de decisões políticas para ser um dado neutro e imutável, como a meteorologia.

Isto tem consequências aos mais diversos níveis, mas a mais gravosa, para mim, é o esvaziamento da política e consequentemente da democracia - se não há caminhos alternativos, se não há possibilidades diferentes de ação, o que sobra? Não sobra nada, para as eleições sobra apenas a questão de quem será o candidato mais indicado para gerir o Programa Único, qual o menos corrupto, o mais carismático, o mais jeitoso, o que não é daquele partido que não podemos nem ver. A política fica assim reduzida à politiquice, com os seus meandros pouco recomendáveis, debates vazios e prioridades dúbias, e a decisões de Recursos Humanos de quatro em quatro anos, nas quais nos é dado o privilégio de participar, para decidir quem vai implementar o Programa Único. Queremos Passos ou Sócrates? Seguro ou Costa? Isto é a soberania do povo? Isto é a democracia, é democrático? Não é, é uma mão cheia de nada.

O que as eleições gregas fizeram foi lembrar que a democracia é muito, muito mais do que um processo de recrutamento, que a política é muito mais do que os embates entre elites políticas petrificadas nos seus papéis e que se multiplicam regularmente produzindo mais do mesmo. A democracia é a soberania do povo de tomar decisões políticas, de escolher entre alternativas políticas, isto é, alternativas sobre a forma como querem agir coletivamente, como Estado.
Isto é profundamente radical, é verdade. É por isso que ao longo dos anos tantos povos, tantos cidadãos individuais lutaram e morreram pela democracia.

No passado domingo, os gregos recusaram o Programa Único. Recusaram-no porque ele era inexequível e irrealista, recusaram-no porque os condenava à miséria por várias gerações, recusaram-no porque os obrigava a vender recursos valiosos a preço de saldo, recusaram-no porque era desumano mas, acima de tudo, recusaram-no porque podiam, porque essa decisão estava nas suas mãos, tal como em Portugal está nas nossas.

Mas e os mercados, e os acordos, e os compromissos?
Quero responder a esta pergunta em três pontos.

O primeiro é o das evidências técnicas. Quase todos os analistas sérios concordam que o Programa Único não ia conduzir ao renascimento da economia grega e que não seria possível, tecnicamente, aos gregos pagar a sua dívidas nas condições definidas pela Troika. Tornar-se-ia portanto sempre necessário renegociar a própria dívida e/ou os termos do seu pagamento. Muitos proponentes do Programa Único concordam com isto e não têm dificuldade em assumi-lo, mas julgam que isso não deve impedir os gregos de implementar "as reformas” do Programa Único, porque mesmo que não funcionem para o seu objetivo oficial, objetivo oficial esse que era a sua única fonte de legitimidade, são reformas importantes para a sustentabilidade da economia grega. Isto é um parecer técnico? Uma realidade económica imutável? Não, é uma convicção política detida por um quadrante político muito próprio, com uma definição também muito própria de “sustentabilidade da economia”, no caso uma definição que permite a miséria e o empobrecimento radical das pessoas e das nações mas tem pavor ao défice, forçando no caso da Grécia até a um excedente orçamental. 

O segundo, é quase um detalhe, mas é muito significativo - os empréstimos têm riscos. É para compensar estes riscos que se definiu que é legítimo que os credores cobrem juros. Ora desde o início os juros dos empréstimos à Grécia são muito elevados, em parte porque isso permite aos mercados fazer um bom negócio com a dívida grega, agora aparentemente uma compra segura, prometem os parceiros europeus, e em parte porque foi considerado que o risco, de default ou de mudança política, era muito elevado. E este risco foi pago e está a ser pago todos os dias, sendo assumido por todos como real. Porque é.

E o terceiro é que nenhuma destas componentes são estáticas - a configuração dos mercados resulta tanto de decisões políticas como de ofensivas especulativas concertadas, tudo menos acidentais, o valor da dívida também é afetado por decisões políticas, já que tanto o valor da moeda como as taxas de juro do empréstimo da troika são decisões políticas, e o próprio acordo é um acordo político, que não está assente em pedra e cal, podendo ser sempre revisto e renegociado conforme a evolução económica e política tanto da Grécia como dos restantes parceiros, um dos quais uma união política da qual a Grécia é membro de pleno direito. É um acordo, nem sequer chega a ser um "direito adquirido", termo tão querido aos proponentes do Programa Único, não uma sentença penal. O termo compromisso, para mim, é muito revelador - por um lado, os compromissos que assumimos. Mas por outro, sempre, o compromisso, o ponto em que as partes se encontram para definir o que é melhor para todos. O compromisso do Programa Único não é o melhor para a Grécia - iss não devia chegar para o invalidar, se fosse realmente um "compromisso"?

Thursday, January 29, 2015

a mulher que me levou a césar

(daqui

Morreu hoje, aos 77 anos, Colleen McCullough, conhecida da maioria por provocar calores e lágrimas a várias gerações à custa de um romance sobre um padre especialmente tentador: o famoso Pássaros Feridos, que li na adolescência e do qual mal me lembro. Julgo que retive apenas que os cangurus são uma praga, que a Austrália participou na Segunda Guerra Mundial como membro da Commonwealth e que o amor carnal talvez fosse uma atividade com o seu quê de interesse.

Mas, para mim, Colleen McCullough é acima de tudo a autora de uma série de romances* sobre algumas das figuras mais importantes da política romana, de Sula a Júlio César, escritos com uma extraordinária riqueza de detalhes sobre as leis, costumes, rituais e intrigas da república romana e que só podem ter tido na sua origem uma investigação excecional.

Quando me cruzei com o primeiro livro da série, aos vinte e um anos, eu já tinha um fraquinho por romanos, daí ter escolhido trazer justamente esse livro da biblioteca, mas Colleen McCullough é a responsável principal pela minha paixoneta por Júlio César (ai...), por ter escolhido e tido 18* na cadeira de "Democracia na Antiguidade Clássica", que fiz em Erasmus justamente nesse ano, e por uma fixação por este período que me ficou para sempre e já me levou a Roma, ao Latim e a imensas leituras fascinantes, nos dias de hoje já maioritariamente das fontes originais (traduzidas, claro, infelizmente).

Devo-lhe muito, portanto, de Teócrito a Tucídides, de César a Ovídio, e sou por isso também, porque ela me mostrou que se pode fazê-la respeitando a História e a inteligência dos seus leitores, uma grane defensora da literatura de divulgação histórica, desde que bem feita.

Gratias ago tibi, Colleen McCullough, obrigada.


(*sim, isto é uma recomendação, sem reticências, embora o último livro da série, que saiu recentemente, seja um pouco mais fraco. E empresto, tenho quase todos, embora salvo erro só um deles em Português, e também tenho a coleção em Inglês em formato digital, completa, que cedo igualmente)(**na verdade tive 1,0, um vinte perfeito, mas o gabinete de conversão corrigiu para a escala portuguesa, que toda a gente sabe que não é para usar toda)(não sei porque é que digo que não sou uma pessoa rancorosa, de vez em quando dou por mim e tenho um arquivo demasiado grande de tretas destas)

Monday, January 19, 2015

it's that time of the year again!



Está quase a começar o Kino 2015, um festival de cinema que, para mim, é diferente de todos os outros - a este vou mesmo, em vez de me limitar a equacionar ir, tencionar ir, a sugerir vagamente que gostava de ir ou a ler o programa para ver a que filmes gostava de ir (eventualmente)(ou seja nunca). Recomendo vivamente.

(Update: para pedir convites para a abertura basta escrever um e-mail para kino@lissabon.goethe.org)

o melhor do fim de semana passado numa imagem


(roubei a imagem aqui, mas fui comer os ouriços aqui e recomendo)

Friday, January 16, 2015

o cantinho do consumidor (*)

Compras online no Jumbo ou no Continente?



Quando comecei a fazer compras online escrevi um post sobre as vantagens e desvantagens das compras online**, mas na altura tinha só testado o serviço do Jumbo e fiquei de um dia fazer uma comparação. Aqui vai ela:

O site: ambos os sites funcionam bastante bem, embora o motor de busca falhe algumas vezes. No site do Jumbo há uma grande mais valia: posso sempre acrescentar comentários aos produtos, o que diminui a probabilidade de erro - se não tenho a certeza do peso de uma abóbora, posso especificar que quero uma inteira, independentemente do peso. Também uso este campo para especificar pedidos de carne - por exemplo que quero aquela carne de bife, mas picada, ou que quero o frango limpo, sem pele e cortado em oito partes. Estes meus desejos são sempre cumpridos à risca. No site do Continente não tenho espaço para comentários nem pedidos especiais.

Em caso de indisponibilidade: Quando não existe um produto, o que acontece depende da opção que selecionamos ao encomendar. Se permitimos trocas, os funcionários do supermercado trocam por um produto semelhante numa categoria de preço semelhante e ao receber as compras revemos as trocas e aceitamos ou recusamos. Funciona razoavelmente bem, pelo menos no caso do Jumbo, embora eles façam uma interpretação mais liberal do que eu de “nível de preços semelhante”. 
Se não permitimos trocas automáticas, há uma diferença muito grande entre os dois supermercados.
No caso do Jumbo, telefonam-nos a informar dos produtos em falta e permitem-nos tomar, ao telefone, decisões alternativas. Também nos deixam acrescentar coisas de que nos tínhamos esquecido à encomenda. 
No caso do Continente, telefonam a avisar mas não podemos mudar o pedido, é um telefonema estritamente informativo. Este é um dos grandes motivos que me levam a preferir o Jumbo: em caso de falha falo com pessoas reais, que me dão escolhas, e não com máquinas de debitar frases burocráticas como “este telefonema é estritamente informativo Sra Rita Dantas, neste caso não há possibilidade de troca”.
Na minha segunda (e última, salvo promoções realmente extraordinárias) compra com o Continente, o caso foi especialmente grave porque não havia nem a carne picada, nem os camarões e possivelmente também não haveria o frango, mas ainda não me sabiam dizer - portanto nenhuma das fontes de proteína animal encomendadas. Tentei cancelar a encomenda ao telefone mas “isso não vai ser possível Sra Rita Dantas, agora só pode mesmo recusá-la no ato de entrega”. Argh, lá fui eu às compras ao supermercado, já que as compras não me permitiam fazer nem uma das refeições planeadas!
Em ambos os casos, mesmo depois desta fase, acontece por vezes faltar uma coisa ou outra que não foi comunicada, mas é residual.

As entregas: em ambos os casos, chegam sempre dentro do período horário anunciado, uma vez no Jumbo atrasaram-se dez minutos e devolveram-me a taxa de entrega.

O preço das entregas: Os preços são iguais, mais coisa menos coisa. No caso do Jumbo é frequentemente gratuita para encomendas superiores a 100€, mas muito raramente atinjo este patamar. No caso do Continente  estava outro dia em vigor uma promoção com entregas gratuitas se pagássemos com Paypal (foi de resto o que me levou a dar-lhes uma segunda oportunidade), não sei se ainda é o caso.

Os preços: fazer compras online fica ligeiramente mais caro do que ir às compras pessoalmente ao supermercado, acho que os preços são ligeiramente mais caros e por outro lado não comparamos tão bem, dentro da categoria é fácil comparar preços por capacidade, sem falhas, mas na vida real às vezes decidimos antes fazer outra coisa e online como não vemos as alternativas não o fazemos.

Os presentes: ambos os serviços nos enviam presentes com a encomenda - tenho a impressão de que o Jumbo envia mais coisas, mas não tenho a certeza porque só encomendei com o Continente duas vezes. Muitas vezes são coisas em que tenho pouco interesse, mas é divertido porque é surpresa e são mimos que sabem sempre bem. No caso do Continente recebi, para além dos presentes, em ambas as vezes cinco euros em compras para poder comprar o que tinha ficado em falta, mas acabei por nunca os usar.

O veredicto: Jumbo, sem dúvida. Um site que nos deixa especificar bem o que queremos e pessoas reais do lado de lá, com capacidade e vontade de nos ajudar em caso de produtos em falta.

(*eu, a roubar títulos? Não, que ideia)
(** desde esse post, a lei passou a exigir aos supermercados online a disponibilização de mais informação sobre os produtos, incluindo as informações nutricionais e os ingredientes, portanto um dos aspetos negativos que salientei na altura ficou resolvido)

Thursday, January 15, 2015

eu não sei que não uso disso, mas a minha d.eglantina queixa-se muito e ela é muito séria, está há vinte anos lá em casa e tenho o faqueiro de prata intacto, não me ia agora mentir


(da Wikipedia)

Andar de carro é mais confortável do que partilhar os transportes com outras pessoas. Andar de carro é mais chique do que andar de transportes públicos. Andar de carro é, em muitos percursos, mais rápido do que andar de transportes públicos, nalguns casos até muito mais rápido. Andar de carro é, para alguns trajetos, realmente inevitável - dentro de Lisboa serão muito poucos, mas não deixa de ser verdade que existem. Em resumo: deslocar-se em viaturas próprias permite no geral uma existência mais flexível, confortável e autónoma. E por estes motivos, e potencialmente outros ainda que não me ocorrem agora, há pessoas que escolhem vir de carro para Lisboa, morando fora, ou andar de carro em Lisboa, quando trabalham e moram na cidade.

São argumentos legítimos, todos eles. E todos eles permitem criticar a decisão da autarquia lisboeta de impedir a circulação de alguns veículos no seu centro histórico.

Mas se ouço, durante o dia de hoje, mais uma pessoa que seja a dizer que anda de carro em Lisboa porque os transportes públicos não funcionam acho que ainda me dá alguma coisinha má. E então se essa pessoa achar que são fundamentais para ir para a Baixa, não garanto que não comece a sair-me fumo das orelhas.

Eu já morei em várias cidades diferentes e já estive em muitas outras, em turismo, a visitar amigos ou em viagem de trabalho. Com exceção dos seis anos em que estive fora, ando nos transportes públicos lisboetas desde os dez anos, portanto há vinte e dois, tendo morado durante este período em três áreas completamente distintas da cidade. 

E parece-me, muito sinceramente que, apesar de se fazerem sentir os cortes de que foram recentemente alvo a Carris e o Metro, a rede de transportes de Lisboa está ao nível da maioria das capitais europeias, sendo até superior a algumas delas.  

O metro desenvolveu-se e agora todas as linhas se cruzam com todas as outras linhas, um ganho enorme de eficiência para os passageiros. Há também uma grande variedade de carreiras e percursos de autocarros - duvido que passem pela baixa lisboeta menos de vinte carreiras diferentes. Sim, há alguns autocarros antigos, mas estão longe de ser a maioria e o seu estado está longe de ser catastrófico. A aplicação "Lisboa Move-me" funciona quase sem falhas, é notável. E a rede da madrugada cobre muitas áreas diferentes da cidade, durante toda a noite, com um grande grau de fiabilidade. 

Quando se falar de novo em cortes, racionalização de serviços e redução de custos, terei todo o prazer em contar convosco para a defesa da qualidade dos transportes públicos da cidade. Quando tivermos de lutar contra a privatização, ficarei feliz por estarem a lado daqueles que andam regularmente de transportes públicos a lutar contra o aumento dos preços e o corte de carreiras essenciais mas não lucrativas. Conto convosco.

Mas, entretanto, se não andam de autocarro desde a última vez que o vosso avô vos levou ao Jardim Zoológico e o último bilhete de metro que compraram era de cartolina amarela, custava oitenta escudos e fazia uns filtros muito jeitosos, sugiro que se abstenham de falar do que não sabem e que assumam a vossa escolha de andar de carro como aquilo que é. Uma escolha. 


(Update: entretanto, na caixa de comentários surgiu uma crítica muito boa a este post, que coloca questões muito importantes que o invaliam pelo menos parcialmente. Como agora não tenho tempo para escrever um post novo nem reescrever este, recomendo  a leitura do comentário, que no geral subscrevo)

(Disclaimer: eu tenho um dístico de moradora da zona 13, recém-adquirido. Dá-me jeito para ir passear ao fim de semana e tal, mas o clamor é tanto que estou a começar a pensar se não valerá vários milhões de euros no mercado negro)
 

Wednesday, January 14, 2015

um país de empreendedores


Há um senhor velhote cuja profissão é ficar nas filas do consulado de Angola por outras pessoas.

Monday, January 12, 2015

futurologia


Isto tem o valor que tem (e relevância então...) mas gostava de deixar aqui previsto oficialmente que o ceviche nunca vai "chegar".

#quisuisje?


(Rua da Adiça, Alfama)

É injusto, profundamente injusto, sugerir a alguém que não pode ser Charlie porque não foi outras coisas (porque não é Ahmed, porque não se juntou ao #blacklivesmatter, porque não foi Gaza, porque não é um refugiado cristão sírio cuja entrada na Europa é recusada, porque não é, hoje especialmente, nigeriano, porque não foi Snowden, Kiriakou ou Chelsea Manning). Ninguém tem a obrigação de se indignar por todas as coisas e, sobretudo, ninguém tem a capacidade de se indignar e de ficar chocado com todas as coisas. É perfeitamente natural que algumas questões nos toquem mais que outras, que sintamos que umas nos estão mais próximas ou que por algum motivo são mais graves, que existam catástrofes que legitimam interpretações do mundo em que acreditamos e que por isso nos indignam mais, porque as confirmam, ou nos indignam menos, porque as esperávamos. Podemos tentar interpretar estas escolhas, porque nos afetam umas catástrofes mais do que outras, mas nesse caso temos de aceitar que haver escolhas é quase inevitável e, naturalmente, admitir que nem todas as escolhas são racionais e que há muitos fatores, entre os quais o peso mediático de um acontecimento, que as condicionam.

É injusto, profundamente injusto, considerar ser obrigatório que cada muçulmano se distancie publicamente do terrorismo, como se a acusação pendesse sobre a cabeça de todos eles - sendo que estou de acordo que a luta contra o islamismo tem nos muçulmanos que recusam o fanatismo religioso os seus combatentes mais eficazes. Mas não só não são os únicos como esta responsabilidade não lhes está, não lhes pode estar reservada.

É injusto, profundamente injusto, considerar que não podem ser Charlie aqueles que não correm riscos pela liberdade de expressão, ou pela liberdade tout court. Que absurdo, como se tivéssemos todos, constantemente, de fazer todos os sacrifícios possíveis e imaginários pela liberdade de expressão, incluindo a obrigação de ser desagradável para com os nossos chefes, de abrir a alma quando conversamos com a cabeleireira e de insultar a ave rara da padaria que ainda não sabe que só gostamos de pão mal cozido. Como se cada decisão estratégica de comunicação fosse sinónimo de cobardia, como se a auto-preservação não fosse também ela um direito e, por último, como se a nossa alegada falta de coragem nos retirasse o direito de nos solidarizar com vítimas de um ataque terrorista ignóbil só porque, desta vez, as vítimas não foram escolhidas ao acaso.

Está enganado, profundamente enganado, quem considera que a liberdade de expressão não se aplica se estivermos a falar de provocações e não de simples humor inocente - pessoalmente, partilho a convicção de quem outro dia escrevia que os muçulmanos se indignam porque se sentem provocados, e não porque na sua maioria se sintam profundamente ofendidos (era um artigo muito bom, vou ver se o encontro). Têm razão, este tipo de humor funciona através da provocação - a provocação é o mecanismo do humor neste caso, tal como em muitos outros, ele é humor porque provoca e não apesar de provocar. Não tenho de o apreciar para defender que possa ser feito, mas também não sou obrigada a apreciá-lo só porque pessoas com convicções diametralmente opostas às minhas defendem que não devia poder existir.

Está também enganado quem acredita, subitamente, que a liberdade de expressão não tem limites ou não deve tê-los - justamente em nome dos afamados valores ocidentais. Nenhum deles se aplica, a meu ver, no caso do Charlie Hebdo, mas existem: a injúria, a calúnia, a difamação, o discurso do ódio, o incitamento à discriminação e, nalguns países como a França, por exemplo, a negação do Holocausto. O facto de existirem limites à liberdade de expressão não quer dizer nem que eles se aplicassem neste caso, nem que seja legítimo que nos defendamos, quando consideramos ter sido vítimas, a título individual ou coletivo, de um abuso da liberdade de expressão por quaisquer outros meios que não os previstos pelo Estado de Direito.

E por último, está enganado quem defende que, na defesa dos tais afamados valores ocidentais, os mesmos devem ser relativizados. Que em nome do valor ocidental da tolerância, devemos ser intolerantes para com quem não professa este valor. Que em nome do valor ocidental do Estado de Direito, e da sua defesa, os terroristas devem ter menos direitos perante a lei que o cidadão comum. Que em nome do valor ocidental da liberdade religiosa, devemos proibir a construção de mesquitas porque há países onde chegaram ao poder fundamentalistas que perseguem os cristãos e não permitem a construção de igrejas. Que em nome do valor do respeito pelo outro, pudéssemos escolher respeitar menos os que não nos respeitam a nós. Li estas coisas todas. Como se falar de valores não fosse falar de princípios, como se os princípios pudessem ser uma questão de merecimento e não uma escolha civilizacional. No fundo, como se não fossem valores.

No fim disto tudo, quem sou eu, como mulher, como portuguesa, como ocidental, como europeia? 

Sou uma cidadã do pós 11 de Setembro, no sentido em que já não me sinto totalmente protegida da guerra nem da violência arbitrária, já não penso que são perigos que pesam apenas sobre os outros ou que existem nos países dos outros. E com isso tenho medo, e recuso, e condeno. Inequivocamente.

Sou uma cidadã da Europa - da Europa dos valores, sem relativizações, como conquista civilizacional a defender. Da Europa com toda a sua história e todas as lições que ela nos permite colher e nos exige que colhamos. Da Europa que já teve esperança no projecto europeu e que já sonhou falar a uma só voz. Da Europa das manifestações do Pegida, da Europa de Marine Le Pen e dos ataques xenófobos em França, da Europa do UKIP, da Europa do neo-nazismo e da Europa de Viktor Orbán. Da Europa da fortaleza de Schengen. Da Europa de Putin, da Ucrânia, da Bielorússia. E com isto tenho medo, e recuso, e condeno. Inequivocamente.

Sou uma cidadã do mundo pós-globalização, com todas as suas características, inclusivamente a falência do modelo bipolar e a impossibilidade, felizmente lentamente compreendida por cada vez mais pessoas, de falar "da África" ou "da América Latina" ou "do mundo ocidental". E por isso com uma visão cada vez mais matizada do mundo, com cada vez menos certezas e cada vez mais surpresas, nem todas negativas. 

E com isto recuso falar de forma inequívoca de um "nós" (oh, como nos conheço!) e do famigerado "outro" (oh, como se furta eternamente ao meu conhecimento, a qualquer conhecimento unificado!). Não acredito em justiça circunstancial, não acredito na relativização da moral, não acredito na flexibilidade da verdade, não acredito no respeito condicional. Não uso os valores que defendo como arma de arremesso, metáfora auto-indulgente ou oportunidade para distribuir palmadinhas nas costas dos meus semelhantes. Pelo contrário, tento usá-los como bússola, como ponto de referência, como bandeira de luta e como horizonte de esperança. Como valores.

E com isso sou a soma dos valores que defendo e das minhas tentativas de os usar para agir e para  interpretar o mundo, sou Charlie, sou Ahmed, sou todos os dias uma nova revolta, um novo medo e, tentativamente, uma nova esperança onde o cinismo e a indiferença se tentam implantar.

Sunday, January 11, 2015

"Escrever preferencialmente á moda antiga (não privilegiando o novo acordo ortográfico)"


Já é a segunda ou terceira vez que leio este anúncio de "emprego*", com ligeiras diferenças na formulação, mas sempre explicando que querem alguém que escreva "á moda antiga". Será que ainda ninguém se deu ao trabalho de lhes dizer nada?

(*pus aspas porque é uma posição não remunerada pelo que não se trata bem de um emprego, mas sim, de acordo com o acordo semântico antigo, de beneficência)
 

o boas intenções em tribunal

em que se assinala o primeiro momento de glória da vida deste blogue



Este blogue anda um pouco abandonado, por uma série de motivos, mas não queria deixar de assinalar este momento: pela primeira vez na história deste humilde estabelecimento fui ameaçada com um processo em tribunal.