Friday, January 30, 2015

aos contribuintes alemães


Tinha começado um post chamado "e os contribuintes alemães", mas ainda só tinha alinhavado duas ou três frases quando encontrei esta carta do novo primeiro ministro grego aos contribuintes alemães, cuja leitura recomendo.

a política, a democracia, os mercados e os compromissos adquiridos


A grande revolução grega do último fim de semana não foi chegar ao poder um partido que defende muitas das coisas que também defendo, embora isso seja para mim uma experiência realmente inovadora, mas a vitória da política e da democracia sobre a tecnocracia. Já muitos comentadores disseram isto, provavelmente todos muito melhor que eu, mas não queria deixar também eu de salientar isto.

A Política, tantas vezes confundida em Portugal com a politiquice, é isto, o confronto de alternativas sobre como gerir a coisa pública. Ao longo dos últimos anos têm tentado das mais variadas formas convencer-nos de que já não há, na Europa, espaço para ela, que há um único caminho, uma única forma de gerir os Estados, forma essa que passaria necessariamente pelas propostas neo-liberais, privatizações de empresas públicas, mesmo que lucrativas, descida dos salários, perda de direitos, cortes na Educação, na Saúde, nas pensões. Ora esta é uma proposta legítima, mas não foi nunca apresentada a ninguém como uma proposta política legítima, mas sim como o único caminho tecnicamente possível, o único passível de ser sequer equacionado no contexto económico atual. “Contexto económico atual” que de repente deixava de ser uma variável política resultante de decisões políticas para ser um dado neutro e imutável, como a meteorologia.

Isto tem consequências aos mais diversos níveis, mas a mais gravosa, para mim, é o esvaziamento da política e consequentemente da democracia - se não há caminhos alternativos, se não há possibilidades diferentes de ação, o que sobra? Não sobra nada, para as eleições sobra apenas a questão de quem será o candidato mais indicado para gerir o Programa Único, qual o menos corrupto, o mais carismático, o mais jeitoso, o que não é daquele partido que não podemos nem ver. A política fica assim reduzida à politiquice, com os seus meandros pouco recomendáveis, debates vazios e prioridades dúbias, e a decisões de Recursos Humanos de quatro em quatro anos, nas quais nos é dado o privilégio de participar, para decidir quem vai implementar o Programa Único. Queremos Passos ou Sócrates? Seguro ou Costa? Isto é a soberania do povo? Isto é a democracia, é democrático? Não é, é uma mão cheia de nada.

O que as eleições gregas fizeram foi lembrar que a democracia é muito, muito mais do que um processo de recrutamento, que a política é muito mais do que os embates entre elites políticas petrificadas nos seus papéis e que se multiplicam regularmente produzindo mais do mesmo. A democracia é a soberania do povo de tomar decisões políticas, de escolher entre alternativas políticas, isto é, alternativas sobre a forma como querem agir coletivamente, como Estado.
Isto é profundamente radical, é verdade. É por isso que ao longo dos anos tantos povos, tantos cidadãos individuais lutaram e morreram pela democracia.

No passado domingo, os gregos recusaram o Programa Único. Recusaram-no porque ele era inexequível e irrealista, recusaram-no porque os condenava à miséria por várias gerações, recusaram-no porque os obrigava a vender recursos valiosos a preço de saldo, recusaram-no porque era desumano mas, acima de tudo, recusaram-no porque podiam, porque essa decisão estava nas suas mãos, tal como em Portugal está nas nossas.

Mas e os mercados, e os acordos, e os compromissos?
Quero responder a esta pergunta em três pontos.

O primeiro é o das evidências técnicas. Quase todos os analistas sérios concordam que o Programa Único não ia conduzir ao renascimento da economia grega e que não seria possível, tecnicamente, aos gregos pagar a sua dívidas nas condições definidas pela Troika. Tornar-se-ia portanto sempre necessário renegociar a própria dívida e/ou os termos do seu pagamento. Muitos proponentes do Programa Único concordam com isto e não têm dificuldade em assumi-lo, mas julgam que isso não deve impedir os gregos de implementar "as reformas” do Programa Único, porque mesmo que não funcionem para o seu objetivo oficial, objetivo oficial esse que era a sua única fonte de legitimidade, são reformas importantes para a sustentabilidade da economia grega. Isto é um parecer técnico? Uma realidade económica imutável? Não, é uma convicção política detida por um quadrante político muito próprio, com uma definição também muito própria de “sustentabilidade da economia”, no caso uma definição que permite a miséria e o empobrecimento radical das pessoas e das nações mas tem pavor ao défice, forçando no caso da Grécia até a um excedente orçamental. 

O segundo, é quase um detalhe, mas é muito significativo - os empréstimos têm riscos. É para compensar estes riscos que se definiu que é legítimo que os credores cobrem juros. Ora desde o início os juros dos empréstimos à Grécia são muito elevados, em parte porque isso permite aos mercados fazer um bom negócio com a dívida grega, agora aparentemente uma compra segura, prometem os parceiros europeus, e em parte porque foi considerado que o risco, de default ou de mudança política, era muito elevado. E este risco foi pago e está a ser pago todos os dias, sendo assumido por todos como real. Porque é.

E o terceiro é que nenhuma destas componentes são estáticas - a configuração dos mercados resulta tanto de decisões políticas como de ofensivas especulativas concertadas, tudo menos acidentais, o valor da dívida também é afetado por decisões políticas, já que tanto o valor da moeda como as taxas de juro do empréstimo da troika são decisões políticas, e o próprio acordo é um acordo político, que não está assente em pedra e cal, podendo ser sempre revisto e renegociado conforme a evolução económica e política tanto da Grécia como dos restantes parceiros, um dos quais uma união política da qual a Grécia é membro de pleno direito. É um acordo, nem sequer chega a ser um "direito adquirido", termo tão querido aos proponentes do Programa Único, não uma sentença penal. O termo compromisso, para mim, é muito revelador - por um lado, os compromissos que assumimos. Mas por outro, sempre, o compromisso, o ponto em que as partes se encontram para definir o que é melhor para todos. O compromisso do Programa Único não é o melhor para a Grécia - iss não devia chegar para o invalidar, se fosse realmente um "compromisso"?

Thursday, January 29, 2015

a mulher que me levou a césar

(daqui

Morreu hoje, aos 77 anos, Colleen McCullough, conhecida da maioria por provocar calores e lágrimas a várias gerações à custa de um romance sobre um padre especialmente tentador: o famoso Pássaros Feridos, que li na adolescência e do qual mal me lembro. Julgo que retive apenas que os cangurus são uma praga, que a Austrália participou na Segunda Guerra Mundial como membro da Commonwealth e que o amor carnal talvez fosse uma atividade com o seu quê de interesse.

Mas, para mim, Colleen McCullough é acima de tudo a autora de uma série de romances* sobre algumas das figuras mais importantes da política romana, de Sula a Júlio César, escritos com uma extraordinária riqueza de detalhes sobre as leis, costumes, rituais e intrigas da república romana e que só podem ter tido na sua origem uma investigação excecional.

Quando me cruzei com o primeiro livro da série, aos vinte e um anos, eu já tinha um fraquinho por romanos, daí ter escolhido trazer justamente esse livro da biblioteca, mas Colleen McCullough é a responsável principal pela minha paixoneta por Júlio César (ai...), por ter escolhido e tido 18* na cadeira de "Democracia na Antiguidade Clássica", que fiz em Erasmus justamente nesse ano, e por uma fixação por este período que me ficou para sempre e já me levou a Roma, ao Latim e a imensas leituras fascinantes, nos dias de hoje já maioritariamente das fontes originais (traduzidas, claro, infelizmente).

Devo-lhe muito, portanto, de Teócrito a Tucídides, de César a Ovídio, e sou por isso também, porque ela me mostrou que se pode fazê-la respeitando a História e a inteligência dos seus leitores, uma grane defensora da literatura de divulgação histórica, desde que bem feita.

Gratias ago tibi, Colleen McCullough, obrigada.


(*sim, isto é uma recomendação, sem reticências, embora o último livro da série, que saiu recentemente, seja um pouco mais fraco. E empresto, tenho quase todos, embora salvo erro só um deles em Português, e também tenho a coleção em Inglês em formato digital, completa, que cedo igualmente)(**na verdade tive 1,0, um vinte perfeito, mas o gabinete de conversão corrigiu para a escala portuguesa, que toda a gente sabe que não é para usar toda)(não sei porque é que digo que não sou uma pessoa rancorosa, de vez em quando dou por mim e tenho um arquivo demasiado grande de tretas destas)

Monday, January 19, 2015

it's that time of the year again!



Está quase a começar o Kino 2015, um festival de cinema que, para mim, é diferente de todos os outros - a este vou mesmo, em vez de me limitar a equacionar ir, tencionar ir, a sugerir vagamente que gostava de ir ou a ler o programa para ver a que filmes gostava de ir (eventualmente)(ou seja nunca). Recomendo vivamente.

(Update: para pedir convites para a abertura basta escrever um e-mail para kino@lissabon.goethe.org)

o melhor do fim de semana passado numa imagem


(roubei a imagem aqui, mas fui comer os ouriços aqui e recomendo)

Friday, January 16, 2015

o cantinho do consumidor (*)

Compras online no Jumbo ou no Continente?



Quando comecei a fazer compras online escrevi um post sobre as vantagens e desvantagens das compras online**, mas na altura tinha só testado o serviço do Jumbo e fiquei de um dia fazer uma comparação. Aqui vai ela:

O site: ambos os sites funcionam bastante bem, embora o motor de busca falhe algumas vezes. No site do Jumbo há uma grande mais valia: posso sempre acrescentar comentários aos produtos, o que diminui a probabilidade de erro - se não tenho a certeza do peso de uma abóbora, posso especificar que quero uma inteira, independentemente do peso. Também uso este campo para especificar pedidos de carne - por exemplo que quero aquela carne de bife, mas picada, ou que quero o frango limpo, sem pele e cortado em oito partes. Estes meus desejos são sempre cumpridos à risca. No site do Continente não tenho espaço para comentários nem pedidos especiais.

Em caso de indisponibilidade: Quando não existe um produto, o que acontece depende da opção que selecionamos ao encomendar. Se permitimos trocas, os funcionários do supermercado trocam por um produto semelhante numa categoria de preço semelhante e ao receber as compras revemos as trocas e aceitamos ou recusamos. Funciona razoavelmente bem, pelo menos no caso do Jumbo, embora eles façam uma interpretação mais liberal do que eu de “nível de preços semelhante”. 
Se não permitimos trocas automáticas, há uma diferença muito grande entre os dois supermercados.
No caso do Jumbo, telefonam-nos a informar dos produtos em falta e permitem-nos tomar, ao telefone, decisões alternativas. Também nos deixam acrescentar coisas de que nos tínhamos esquecido à encomenda. 
No caso do Continente, telefonam a avisar mas não podemos mudar o pedido, é um telefonema estritamente informativo. Este é um dos grandes motivos que me levam a preferir o Jumbo: em caso de falha falo com pessoas reais, que me dão escolhas, e não com máquinas de debitar frases burocráticas como “este telefonema é estritamente informativo Sra Rita Dantas, neste caso não há possibilidade de troca”.
Na minha segunda (e última, salvo promoções realmente extraordinárias) compra com o Continente, o caso foi especialmente grave porque não havia nem a carne picada, nem os camarões e possivelmente também não haveria o frango, mas ainda não me sabiam dizer - portanto nenhuma das fontes de proteína animal encomendadas. Tentei cancelar a encomenda ao telefone mas “isso não vai ser possível Sra Rita Dantas, agora só pode mesmo recusá-la no ato de entrega”. Argh, lá fui eu às compras ao supermercado, já que as compras não me permitiam fazer nem uma das refeições planeadas!
Em ambos os casos, mesmo depois desta fase, acontece por vezes faltar uma coisa ou outra que não foi comunicada, mas é residual.

As entregas: em ambos os casos, chegam sempre dentro do período horário anunciado, uma vez no Jumbo atrasaram-se dez minutos e devolveram-me a taxa de entrega.

O preço das entregas: Os preços são iguais, mais coisa menos coisa. No caso do Jumbo é frequentemente gratuita para encomendas superiores a 100€, mas muito raramente atinjo este patamar. No caso do Continente  estava outro dia em vigor uma promoção com entregas gratuitas se pagássemos com Paypal (foi de resto o que me levou a dar-lhes uma segunda oportunidade), não sei se ainda é o caso.

Os preços: fazer compras online fica ligeiramente mais caro do que ir às compras pessoalmente ao supermercado, acho que os preços são ligeiramente mais caros e por outro lado não comparamos tão bem, dentro da categoria é fácil comparar preços por capacidade, sem falhas, mas na vida real às vezes decidimos antes fazer outra coisa e online como não vemos as alternativas não o fazemos.

Os presentes: ambos os serviços nos enviam presentes com a encomenda - tenho a impressão de que o Jumbo envia mais coisas, mas não tenho a certeza porque só encomendei com o Continente duas vezes. Muitas vezes são coisas em que tenho pouco interesse, mas é divertido porque é surpresa e são mimos que sabem sempre bem. No caso do Continente recebi, para além dos presentes, em ambas as vezes cinco euros em compras para poder comprar o que tinha ficado em falta, mas acabei por nunca os usar.

O veredicto: Jumbo, sem dúvida. Um site que nos deixa especificar bem o que queremos e pessoas reais do lado de lá, com capacidade e vontade de nos ajudar em caso de produtos em falta.

(*eu, a roubar títulos? Não, que ideia)
(** desde esse post, a lei passou a exigir aos supermercados online a disponibilização de mais informação sobre os produtos, incluindo as informações nutricionais e os ingredientes, portanto um dos aspetos negativos que salientei na altura ficou resolvido)

Thursday, January 15, 2015

eu não sei que não uso disso, mas a minha d.eglantina queixa-se muito e ela é muito séria, está há vinte anos lá em casa e tenho o faqueiro de prata intacto, não me ia agora mentir


(da Wikipedia)

Andar de carro é mais confortável do que partilhar os transportes com outras pessoas. Andar de carro é mais chique do que andar de transportes públicos. Andar de carro é, em muitos percursos, mais rápido do que andar de transportes públicos, nalguns casos até muito mais rápido. Andar de carro é, para alguns trajetos, realmente inevitável - dentro de Lisboa serão muito poucos, mas não deixa de ser verdade que existem. Em resumo: deslocar-se em viaturas próprias permite no geral uma existência mais flexível, confortável e autónoma. E por estes motivos, e potencialmente outros ainda que não me ocorrem agora, há pessoas que escolhem vir de carro para Lisboa, morando fora, ou andar de carro em Lisboa, quando trabalham e moram na cidade.

São argumentos legítimos, todos eles. E todos eles permitem criticar a decisão da autarquia lisboeta de impedir a circulação de alguns veículos no seu centro histórico.

Mas se ouço, durante o dia de hoje, mais uma pessoa que seja a dizer que anda de carro em Lisboa porque os transportes públicos não funcionam acho que ainda me dá alguma coisinha má. E então se essa pessoa achar que são fundamentais para ir para a Baixa, não garanto que não comece a sair-me fumo das orelhas.

Eu já morei em várias cidades diferentes e já estive em muitas outras, em turismo, a visitar amigos ou em viagem de trabalho. Com exceção dos seis anos em que estive fora, ando nos transportes públicos lisboetas desde os dez anos, portanto há vinte e dois, tendo morado durante este período em três áreas completamente distintas da cidade. 

E parece-me, muito sinceramente que, apesar de se fazerem sentir os cortes de que foram recentemente alvo a Carris e o Metro, a rede de transportes de Lisboa está ao nível da maioria das capitais europeias, sendo até superior a algumas delas.  

O metro desenvolveu-se e agora todas as linhas se cruzam com todas as outras linhas, um ganho enorme de eficiência para os passageiros. Há também uma grande variedade de carreiras e percursos de autocarros - duvido que passem pela baixa lisboeta menos de vinte carreiras diferentes. Sim, há alguns autocarros antigos, mas estão longe de ser a maioria e o seu estado está longe de ser catastrófico. A aplicação "Lisboa Move-me" funciona quase sem falhas, é notável. E a rede da madrugada cobre muitas áreas diferentes da cidade, durante toda a noite, com um grande grau de fiabilidade. 

Quando se falar de novo em cortes, racionalização de serviços e redução de custos, terei todo o prazer em contar convosco para a defesa da qualidade dos transportes públicos da cidade. Quando tivermos de lutar contra a privatização, ficarei feliz por estarem a lado daqueles que andam regularmente de transportes públicos a lutar contra o aumento dos preços e o corte de carreiras essenciais mas não lucrativas. Conto convosco.

Mas, entretanto, se não andam de autocarro desde a última vez que o vosso avô vos levou ao Jardim Zoológico e o último bilhete de metro que compraram era de cartolina amarela, custava oitenta escudos e fazia uns filtros muito jeitosos, sugiro que se abstenham de falar do que não sabem e que assumam a vossa escolha de andar de carro como aquilo que é. Uma escolha. 


(Update: entretanto, na caixa de comentários surgiu uma crítica muito boa a este post, que coloca questões muito importantes que o invaliam pelo menos parcialmente. Como agora não tenho tempo para escrever um post novo nem reescrever este, recomendo  a leitura do comentário, que no geral subscrevo)

(Disclaimer: eu tenho um dístico de moradora da zona 13, recém-adquirido. Dá-me jeito para ir passear ao fim de semana e tal, mas o clamor é tanto que estou a começar a pensar se não valerá vários milhões de euros no mercado negro)
 

Wednesday, January 14, 2015

um país de empreendedores


Há um senhor velhote cuja profissão é ficar nas filas do consulado de Angola por outras pessoas.

Monday, January 12, 2015

futurologia


Isto tem o valor que tem (e relevância então...) mas gostava de deixar aqui previsto oficialmente que o ceviche nunca vai "chegar".

#quisuisje?


(Rua da Adiça, Alfama)

É injusto, profundamente injusto, sugerir a alguém que não pode ser Charlie porque não foi outras coisas (porque não é Ahmed, porque não se juntou ao #blacklivesmatter, porque não foi Gaza, porque não é um refugiado cristão sírio cuja entrada na Europa é recusada, porque não é, hoje especialmente, nigeriano, porque não foi Snowden, Kiriakou ou Chelsea Manning). Ninguém tem a obrigação de se indignar por todas as coisas e, sobretudo, ninguém tem a capacidade de se indignar e de ficar chocado com todas as coisas. É perfeitamente natural que algumas questões nos toquem mais que outras, que sintamos que umas nos estão mais próximas ou que por algum motivo são mais graves, que existam catástrofes que legitimam interpretações do mundo em que acreditamos e que por isso nos indignam mais, porque as confirmam, ou nos indignam menos, porque as esperávamos. Podemos tentar interpretar estas escolhas, porque nos afetam umas catástrofes mais do que outras, mas nesse caso temos de aceitar que haver escolhas é quase inevitável e, naturalmente, admitir que nem todas as escolhas são racionais e que há muitos fatores, entre os quais o peso mediático de um acontecimento, que as condicionam.

É injusto, profundamente injusto, considerar ser obrigatório que cada muçulmano se distancie publicamente do terrorismo, como se a acusação pendesse sobre a cabeça de todos eles - sendo que estou de acordo que a luta contra o islamismo tem nos muçulmanos que recusam o fanatismo religioso os seus combatentes mais eficazes. Mas não só não são os únicos como esta responsabilidade não lhes está, não lhes pode estar reservada.

É injusto, profundamente injusto, considerar que não podem ser Charlie aqueles que não correm riscos pela liberdade de expressão, ou pela liberdade tout court. Que absurdo, como se tivéssemos todos, constantemente, de fazer todos os sacrifícios possíveis e imaginários pela liberdade de expressão, incluindo a obrigação de ser desagradável para com os nossos chefes, de abrir a alma quando conversamos com a cabeleireira e de insultar a ave rara da padaria que ainda não sabe que só gostamos de pão mal cozido. Como se cada decisão estratégica de comunicação fosse sinónimo de cobardia, como se a auto-preservação não fosse também ela um direito e, por último, como se a nossa alegada falta de coragem nos retirasse o direito de nos solidarizar com vítimas de um ataque terrorista ignóbil só porque, desta vez, as vítimas não foram escolhidas ao acaso.

Está enganado, profundamente enganado, quem considera que a liberdade de expressão não se aplica se estivermos a falar de provocações e não de simples humor inocente - pessoalmente, partilho a convicção de quem outro dia escrevia que os muçulmanos se indignam porque se sentem provocados, e não porque na sua maioria se sintam profundamente ofendidos (era um artigo muito bom, vou ver se o encontro). Têm razão, este tipo de humor funciona através da provocação - a provocação é o mecanismo do humor neste caso, tal como em muitos outros, ele é humor porque provoca e não apesar de provocar. Não tenho de o apreciar para defender que possa ser feito, mas também não sou obrigada a apreciá-lo só porque pessoas com convicções diametralmente opostas às minhas defendem que não devia poder existir.

Está também enganado quem acredita, subitamente, que a liberdade de expressão não tem limites ou não deve tê-los - justamente em nome dos afamados valores ocidentais. Nenhum deles se aplica, a meu ver, no caso do Charlie Hebdo, mas existem: a injúria, a calúnia, a difamação, o discurso do ódio, o incitamento à discriminação e, nalguns países como a França, por exemplo, a negação do Holocausto. O facto de existirem limites à liberdade de expressão não quer dizer nem que eles se aplicassem neste caso, nem que seja legítimo que nos defendamos, quando consideramos ter sido vítimas, a título individual ou coletivo, de um abuso da liberdade de expressão por quaisquer outros meios que não os previstos pelo Estado de Direito.

E por último, está enganado quem defende que, na defesa dos tais afamados valores ocidentais, os mesmos devem ser relativizados. Que em nome do valor ocidental da tolerância, devemos ser intolerantes para com quem não professa este valor. Que em nome do valor ocidental do Estado de Direito, e da sua defesa, os terroristas devem ter menos direitos perante a lei que o cidadão comum. Que em nome do valor ocidental da liberdade religiosa, devemos proibir a construção de mesquitas porque há países onde chegaram ao poder fundamentalistas que perseguem os cristãos e não permitem a construção de igrejas. Que em nome do valor do respeito pelo outro, pudéssemos escolher respeitar menos os que não nos respeitam a nós. Li estas coisas todas. Como se falar de valores não fosse falar de princípios, como se os princípios pudessem ser uma questão de merecimento e não uma escolha civilizacional. No fundo, como se não fossem valores.

No fim disto tudo, quem sou eu, como mulher, como portuguesa, como ocidental, como europeia? 

Sou uma cidadã do pós 11 de Setembro, no sentido em que já não me sinto totalmente protegida da guerra nem da violência arbitrária, já não penso que são perigos que pesam apenas sobre os outros ou que existem nos países dos outros. E com isso tenho medo, e recuso, e condeno. Inequivocamente.

Sou uma cidadã da Europa - da Europa dos valores, sem relativizações, como conquista civilizacional a defender. Da Europa com toda a sua história e todas as lições que ela nos permite colher e nos exige que colhamos. Da Europa que já teve esperança no projecto europeu e que já sonhou falar a uma só voz. Da Europa das manifestações do Pegida, da Europa de Marine Le Pen e dos ataques xenófobos em França, da Europa do UKIP, da Europa do neo-nazismo e da Europa de Viktor Orbán. Da Europa da fortaleza de Schengen. Da Europa de Putin, da Ucrânia, da Bielorússia. E com isto tenho medo, e recuso, e condeno. Inequivocamente.

Sou uma cidadã do mundo pós-globalização, com todas as suas características, inclusivamente a falência do modelo bipolar e a impossibilidade, felizmente lentamente compreendida por cada vez mais pessoas, de falar "da África" ou "da América Latina" ou "do mundo ocidental". E por isso com uma visão cada vez mais matizada do mundo, com cada vez menos certezas e cada vez mais surpresas, nem todas negativas. 

E com isto recuso falar de forma inequívoca de um "nós" (oh, como nos conheço!) e do famigerado "outro" (oh, como se furta eternamente ao meu conhecimento, a qualquer conhecimento unificado!). Não acredito em justiça circunstancial, não acredito na relativização da moral, não acredito na flexibilidade da verdade, não acredito no respeito condicional. Não uso os valores que defendo como arma de arremesso, metáfora auto-indulgente ou oportunidade para distribuir palmadinhas nas costas dos meus semelhantes. Pelo contrário, tento usá-los como bússola, como ponto de referência, como bandeira de luta e como horizonte de esperança. Como valores.

E com isso sou a soma dos valores que defendo e das minhas tentativas de os usar para agir e para  interpretar o mundo, sou Charlie, sou Ahmed, sou todos os dias uma nova revolta, um novo medo e, tentativamente, uma nova esperança onde o cinismo e a indiferença se tentam implantar.

Sunday, January 11, 2015

"Escrever preferencialmente á moda antiga (não privilegiando o novo acordo ortográfico)"


Já é a segunda ou terceira vez que leio este anúncio de "emprego*", com ligeiras diferenças na formulação, mas sempre explicando que querem alguém que escreva "á moda antiga". Será que ainda ninguém se deu ao trabalho de lhes dizer nada?

(*pus aspas porque é uma posição não remunerada pelo que não se trata bem de um emprego, mas sim, de acordo com o acordo semântico antigo, de beneficência)
 

o boas intenções em tribunal

em que se assinala o primeiro momento de glória da vida deste blogue



Este blogue anda um pouco abandonado, por uma série de motivos, mas não queria deixar de assinalar este momento: pela primeira vez na história deste humilde estabelecimento fui ameaçada com um processo em tribunal.

Friday, January 09, 2015

ó rita, quando puseste aquele limite ao #anoquasesemcompras sobre férias em locais com desafios metereológicos, estavas a pensar em alguma coisa específica?



Estava, e entretanto é bem possível que se realize. Felizmente tenho sete meses para poupar, para procurar materiais em segunda mão e, talvez o mais importante, para fortalecer o pé direito e ficar em muito melhor forma física no geral.

Tuesday, January 06, 2015

lupenreiner demokrat (*)


De vez em quando surgem, em política, momentos que clarificam tudo e frases que nos permitem perceber, de imediato, o tipo de pessoa com quem estamos a lidar e a natureza das suas convicções. Neste momento essa frase é "claro que os gregos podem votar em quem quiserem, mas...".

(sim, é parecida com essa outra em que estão a pensar, e não me parece mesmo que seja coincidência)
(* frase alemã que descreve um democrata acima de qualquer suspeita usada numa pergunta colocada ao ex-chanceler Gerhard Schröder a respeito de Vladimir Putin. Na altura, Schröder respondeu afirmativamente o que foi muito polémico embora, para sermos justos, seja preciso referir que foi uma resposta muito matizada e cuidadosa e que admitia que não estava tudo bem)

o post mais brilhante do dia


É este, nem sequer há concorrência.

Tuesday, December 30, 2014

um 2015 (quase) sem roupa nova


Depois dos meus três meses sem compras, li bastante sobre guarda-roupas cápsula (por exemplo aqui e aqui) e achei que faziam todo o sentido: menos roupa, a ocupar menos espaço, a exigir menos decisões e a garantir menos faux-pas. Perfeito.

Então fui buscar a minha roupa de Inverno, sentei-me, fiz uma lista do que havia e do que precisava de ser comprado e preparei um guarda-roupa cápsula à minha maneira (quarenta a cinquenta peças, sem sapatos nem bijuteria, porque os sapatos já lá estavam e coitadinhos não fizeram mal a ninguém e a bijuteria ajuda a variar). 

O resultado: comprei quase tudo aquilo de que precisava, mas não comprei bem só aquilo que precisava e nem todas as minhas compras foram dignas de cápsulas futuras. Mas fiz algumas compras muito boas, olhei para o que tinha com olhos de ver e descobri combinações novas, e visto-me realmente melhor e mais rápido e com menos stress e sei que se uma peça essencial não se tivesse estragado a experiência teria sido ainda melhor. Mas, financeiramente, não notei uma grande diferença: as minhas compras foram planeadas, mas foram compras na mesma e como demorei a encontrar algumas coisas as compras acabaram por se distribuir (e multiplicar!) no tempo em vez de num único momento.

Por isso, em 2015, decidi combinar as duas experiências. Atribuí um orçamento fixo (e pequeno!) ao próximo Verão e ao próximo Inverno e defini também uma pequena verba em caso de férias em destinos com outras exigências meteorológicas e estragos ou oscilações maiores de peso que impliquem a substituição de peças essenciais.

E depois disto, fechei a carteira, na expectativa de gastar mais dinheiro em cultura e experiências bonitas e de acabar o ano com poupanças dignas desse nome.


(desta vez deixei, para além da roupa interior e dos pijamas, também a bijuteria e os produtos de higiene e beleza de fora. Porque o risco de desfalque é muito reduzido e por piedade, que isto é gamification, não tortura chinesa)

Monday, December 29, 2014

zweitausendundvierzehn

(aus der Vogelperspektive)

Ontem, mais ou menos por acaso, aconteceu-me ir ver o que me tinha acontecido este ano. Incrível a quantidade de coisas de que já não me lembrava! Mas incrível, acima de tudo, a quantidade de coisas muito boas que me aconteceram. Antes de passar revista ao ano (de forma muito enviesada, indo ver o que tinha partilhado no instagram e o muito pouco que tinha escrito no blogue), se me perguntassem, diria que tinha sido um ano fraquinho com um presente muito grande lá para o fim. Que horror, que falta de memória, e que ingratidão!

Este ano encontrei a mulher genial que viria a ser a minha orientadora e encontrei o tema que me apaixona realmente, que me diz mais pessoal, profissional e academicamente. Este ano escrevi e defendi esse projeto, com sucesso. Este ano tive finalmente uma gabardine amarela. Este ano abracei um emprego que combina a minha formação, a minha experiência e a minha ligação à Alemanha e à língua e cultura alemãs. Este ano li mais alemão, falei mais alemão e ouvi mais alemão. Este ano fomos campeões. Este ano comecei a dar aulas, um sonho muito antigo e que já sei que vou continuar a realizar no ano que vem. Este ano descobri a(s) melhor(es) ginja(s) de sempre. Este ano fui de férias, daquelas mesmo férias, as melhores em muitos anos. Este ano saí de uma situação de maior aperto financeiro. Este ano li livros muito bonitos. Este ano passei mais tempo com pessoas de quem gosto e encerrei mais pessoas no meu coração, com especial destaque para um rapazola pequeno e para um rapazinho que uma amiga tem guardado e que há-de vir. Este ano sinto que estou numa relação mais próxima, mais segura e mais bonita e também que estou mais apaixonada e confiante do que no ano passado. Este ano deixei de fazer limpezas. E de ter a casa suja. Este ano aprendi como não desperdiçar comida, reduzi o meu orçamento alimentar em pelo menos metade, comi melhor e tive menos trabalho e mais prazer na cozinha. Este ano vi o Tejo (quase) todos os dias, mas também vi o Vez, o Lima, o Guadiana e o mar, o mar de Lisboa, o mar do Algarve grande e o mar do Algarve pequeno. Este ano estive mais próxima da minha família, ou pelo menos senti-me mais próxima da minha família. Este ano comi canivetes pela primeira vez e fiz o meu primeiro Red Velvet (sim, ficou muito bom, não, não o comi todo). Este ano quase acabei uma caderneta de cromos (a meias, acabar foi ele, o quase fui eu). Este ano não fiz compras durante três meses, apenas para descobrir três meses depois que continuava a mesma tontinha de sempre e que tenho de estender o desafio por um período mais longo (o próximo ano inteiro, mas com outras regras). Este ano fiz a minha primeira árvore de Natal.

Este ano foi bom. 
O próximo talvez seja bom também - é o que desejo para mim, e para vocês todos. Um ano bom e mais atenção, não vá acontecer-vos como a mim, e terem uma lista de bênçãos deste tamanho mas andarem distraídos.

Wednesday, December 10, 2014

pairate quê?


Descarrego o jornal, folheio página atrás de página, nada. Abro a página, a secção Internet, nada. Ontem o Pirate Bay saiu do ar, bem como vários outros sites de partilha de ficheiros, como o EZTV, mas o Público ou não sabe ou não percebeu que era notícia, e uma notícia importante. 

Desconfio que o grande risco do jornalismo tradicional face à internet não é o falhanço do seu modelo de negócio, mas o facto de não a perceberem, de não saberem falar sobre ela, quanto mais explicá-la.

Update: o Pirate Bay ainda não voltou a estar online, apesar de alguns sites o terem noticiado e de eu ter ido atrás feita tontinha. Entretanto um dos fundadores do site sugeriu que era boa ideia que ele se mantivesse offline e o Público acordou. A fonte mais credível para atualizações parece continuar a ser o Torrent Freak.

Update do update: Entretanto já existe uma cópia funcional, feita pelo Isohunt, muito convenientemente chamada Old Pirate Bay (uma descoberta da Snowgaze). Quem sente falta do EZTV não fica mal servido aqui.

Friday, December 05, 2014

então não vale a pena ir a Cuba?


Vale muito a pena ir a Cuba, vila simpática e muito calma, almoçar à Marisqueira Julião, um sítio maravilhoso onde comi uma sopa de bacalhau alentejana tão maravilhosa, mas tão maravilhosa, que só de pensar nela me vêm lágrimas aos olhos de comoção. Ou me engano muito ou foi a melhor coisa que comi este ano.

(e o vinho? Bom. E o serviço? Bom. E o marisco? Fresco. E os preços? Justos. É mesmo de ir? É pois)

bem prega frei tomás

história do dia em que fomos a Cuba encomendar umas botas alentejanas feitas à medida e do mês e meio que ficamos à espera delas


No dia 25 de Outubro, fomos a Cuba encomendar umas botas alentejanas feitas à medida, um projeto antigo do meu consorte. Tínhamos as melhores referências do sapateiro Mário Grilo e da qualidade do seu trabalho e fomos com boas expectativas.

Chegados à pequena loja, começamos por confirmar essas expectativas: as botas expostas tinham bom aspeto, as peles inteiras que estavam à mostra eram ainda mais bonitas e o sapateiro falou-nos demorada e exaustivamente sobre a qualidade do seu trabalho, a inovação constante, a importância de prestar um serviço de boa qualidade e o seu papel como embaixador das botas alentejanas a nível nacional e internacional.

Confiámos.

Escolhemos a pele, o modelo e, medidas tomadas, prometeram-nos as botas para duas semanas depois, antes ainda da realização da Feira da Golegã, que traria uma grande quantidade de encomendas e após a qual os prazos seriam significativamente mais longos. Optámos por pagar logo ali tanto as botas como os portes e ficámos a aguardar a sms com o código de tracking do envio por correio registado, já a planear mentalmente futuras compras (umas botas alentejanas altas para mim e uns sapatos em pele de veado com uma cor lindíssima para ele). 

Entretanto a Feira da Golegã começou e acabou (foi de 7 a 16 de Novembro) e começámos a tentar conseguir obter informações sobre quando chegariam as botas. E-mails sem resposta.  Telefonemas atrás de telefonemas, para o número fixo e para o móvel - fizemos dezenas de chamadas, atenderam duas vezes. Em ambas as vezes uma senhora que não sabia responder às nossas perguntas prometia ligar no dia seguinte depois de obter informações junto do sapateiro Mário Grilo, que estaria ausente. Em nenhuma das vezes ligou. 

Quinta feira passada, a 27 de Novembro, exatamente cinco semanas depois, portanto mais do dobro do prazo acordado, finalmente um sinal de vida! Era uma justificação? Uma explicação do sucedido? Um pedido de desculpas? Não, era uma sms para confirmar o envio. Código de tracking, como prometido? Nada disso. Apenas a mensagem: "seguiiram botas alentejana ,, cumprimentos" (sic).

Depois de esperar alguns dias, e tendo em conta que apesar de ser Dezembro os serviços registados costumam ser bastante rápidos, tentámos obter o código de tracking. Pela via habitual, telefonemas atrás de telefonemas, sempre sem resposta, e com uma mensagem no mural da página do Facebook, que prontamente foi engolida pela página, tendo provavelmente ficado à espera de aprovação - há muito empresário português que acha que as redes sociais são excelentes ferramentas de comunicação para falar com os seus clientes, para ouvi-los é que nem por isso. E responder-lhes então está mesmo fora de questão.

Aparentemente, Mário Grilo é um desses: apesar de desde então já ter atualizado a página com várias fotos, não aprovou a minha pergunta, de resto colocada de forma educada e discreta, sem referência às várias semanas de espera nem ao escândalo que tem sido o serviço ao cliente desde então.

Tanta conversa sobre profissionalismo, sobre qualidade, sobre inovação no serviço e é assim que se tratam os clientes? Sem pingo de respeito ou consideração, como se nunca lhes fossem devidas satisfações, como se fossem uma parte necessária mas aborrecida do processo, um empecilho incontornável mas passível de ser ignorado e destratado conforme seja conveniente? Seis semanas já e nem uma palavra para além de ums sms atabalhoada, sem o código de tracking prometido e sem qualquer justificação?  

Se estes são os grandes embaixadores das atividades profissionais, os heróis da preservação dos saberes artesãos, então estou seriamente preocupada com o futuro do artesanato português.

Muita basófia, péssimo serviço (da qualidade do produto final não posso falar, mas prometo fazer um update ao post quando e se as botas chegarem). Da nossa parte, nunca mais. 

(entretanto no fim de semana prometeram-nos o código de tracking para segunda feira. Não veio, claro, apesar das lembranças frequentes - só quinta feira, dia 11 de Dezembro chegou uma sms curtinha e mal escrita, como de costume, com o código de tracking. Garantia ainda que tinham enviado as botas por EMS mas que tinham sido devolvidas, e que seguiam agora pelos correios. Deixo à discrição de cada um se querem acreditar nesta história, mas no dia seguinte as botas chegaram realmente)

Update: Quando as botas finalmente chegaram, sete semanas depois em vez das duas prometidas, várias coisas saltavam à vista. A primeira, e mais evidente, era a cor: longe do castanho avermelhado que tínhamos encomendado, as botas eram castanho-mel. Depois, a forma: o Mário Grilo tinha-nos aconselhado a evitar um formato demasiado redondo, por serem botas para homem, e tínhamos concordado. A biqueira era completamente redonda.  De resto, e porque quero ser justa, tenho de dizer que os sapatos estavam bem feitos, eram muito confortáveis e a pele era de boa qualidade. Umas botas excelentes, para dizer a verdade, só era pena não serem o que tínhamos encomendado. Uma semana depois, no entanto, ficaram sem os atacadores, que rebentaram.

Entretanto, numa pesquisa da internet, encontrei outro caso de alguém em Espanha que também pagou parte das suas botas alentejanas a Mário Grilo no acto da encomenda e que ficou vários meses à espera sem sucesso e um caso muito semelhante no Canadá.

Em resumo: o sapateiro Mário Grilo é muito simpático no trato e parece competente e profissional, mas não recomendo de forma nenhuma que lhe encomendem sapatos (botas alentejanas ou outros) já que o seu trabalho é de qualidade mas o serviço ao cliente é péssimo - deixa-o semanas à espera sem resposta, mente-lhe e ignora os detalhes da encomenda, entregando o que lhe apetece, quando lhe apetece.

Wednesday, November 26, 2014

interstício

um momento de poesia regional para vos animar o dia
 
 

 
(clicar na imagem para aumentar)

Para o caso de também estarem a precisar de alguma inspiração neste dia chuvoso, partilho convosco estas duas obras primas da poesia regional portuguesa publicadas no jornal O Povo da Barca. O primeiro poema é, como terão de reconhecer, já de muito alto nível, mas por favor não deixem de ler o segundo. 

Tuesday, November 25, 2014

operação marquês


Sinto, já há muito tempo, que a PJ devia contratar-me para dar nomes às operações.  

(no que diz respeito à prisão do Sócrates, fico por aqui, que mais não sei. Nunca fui fã de José Sócrates, pelo contrário, como os arquivos deste blogue revelarão, mas não sou de ódios futebolísticos em política, não tenho dificuldades em identificar políticas suas que beneficiaram o país e surpreende-me sempre que existam pessoas informadas que acreditam que a chegada da troika é uma consequência do despesismo do seu governo. O meu desejo mais sincero é que o processo seja célere e claro e que a acusação tenha um caso forte e bem fundamentado, em resumo, que isto possa ser a vitória da justiça que tantos se apressaram a celebrar e não um elemento adicional do pântano permanente em que nos movemos)

Friday, November 21, 2014

friseuretiquette

para não dizerem que neste blogue não se aprende nada de útil XLV

Se são míopes e têm óculos e lentes de contacto, escolham as lentes de contacto quando forem cortar o cabelo. De contrário ao regressar do nevoeiro ainda dão convosco de cabelo curtinho quando só tinham planeado ir cortar as pontas.

Tuesday, November 18, 2014

alista-te, diziam eles

(post para lá de interessante sobre um assunto fundamental, justificando inteiramente o meu regresso ao blogue)

Eu tenho um tablet, já antigo mas ainda muito jeitoso, que na verdade só tem dois defeitos: foi feito por uma empresa que gosta de dificultar a vida às pessoas (um defeito grande) e gosta de começar a tocar música sozinho, sem que eu perceba porquê (um defeito mais pequeno). 
Ora como o tablet é feito pela tal companhia do demo e por música em qualquer geringonça dessa empresa é uma seca, eu só tinha um álbum na dita cuja geringonça, a Winterreise. E portanto de vez em quando, inesperadamente, começava a ouvir música baixinho, descobria a fonte, e desligava (ou ficava a ouvir). 
Entretanto a empresa do demo actualizou o sistema operativo e eu, que descobri uma forma de manter o Moviebox (o qué isso?) sem ter de fazer jailbreak (fiz assim), aceitei a actualização. Como por música numa geringonça da Apple continua a ser uma seca, continuo a só ter um álbum, mas desta vez é o que vinha com o software (mas porquê, porquê?). 

Resultado: enquanto não me dou ao trabalho de me livrar desse álbum, a minha tabuleta tecnológica, que dantes tocava Schubert quando lhe apetecia, agora toca U2. E ainda lhe chamam um upgrade. 

 

Wednesday, November 05, 2014

a vida nos antípodas*



A Luna partilhou aqui o filme dos piropos na versão Manuel de Oliveira: o filme começa, o filme continua, o filme avança, o filme sobra e ninguém diz nada, um senhor mete-se, outro pede direções, e é tudo, em horas e horas.
Ah, a civilização. Também já lá estive e lembro-me bem que era muito jeitoso. Uma pessoa ia na rua e, se não prestasse atenção, até se esquecia de que existia ou que tinha um aspeto físico.

 (*sem assédio verbal, sem desconversas semânticas e sem impasses eternos sobre o que é ou não prioritário discutir hoje)

 
Yellow Dinosaur