Friday, August 08, 2014

aquavit



Não é que eu esteja a escrever tanto que vão estranhar a minha ausência mas, ainda assim, cumpre informar que vou de férias, a banhos, e que se tudo correr bem volto em Setembro, bronzeada, feliz, com a barriga cheia de peixe e com novidades.

Tuesday, July 22, 2014

ah, afinal ainda era mais uma e até é uma anedota


Na caixa de comentários do Público discutia-se o facto de a recente avaliação dos centros de investigação portugueses da FCT, levada a cabo com o objectivo de excluir metade deles de financiamento público, significar o provável encerramento dos dois únicos estudos dedicados aos Estudos Clássicos. O artigo refere os diferentes indicadores de qualidade apresentados pelos centros em sua defesa, inclusive o número de publicações.

Resposta esperta de um comentador: "Publicações que não se vendem...ou que não se sabe vender... está justificado o não investimento. Creio que é mais o não saber vender. É tipico do Português..."

três coisinhas muito rápidas das quais queria falar mas que resumo aqui por manifesta falta de tempo



1. Quem viaja e quer ver tudo, não perder nada, já perdeu tudo, não viu nada. Um aforismo da série "lições de uma rapariga que não tem dinheiro para ir a lado nenhum aos turistas que viajam com uma lista de tarefas em punho".

2. Quando chegaram os cupcakes falou-se mal, mal, mal até a moda passar. Depois chegaram os macarons e já havia menos energia, mas ainda assim falou-se mal, mal, mal até a moda passar (e que pena que foi). Agora já não há energia nenhuma e por todo o lado pululam a pasta de açúcar e os cake pops, que são a nova pirâmide. E não há quem nos salve. 

3. Há guerra na Ucrânia, há guerra na Palestina. E todos continuamos na vidinha de todos os dias. Dito isto, pergunto-me se havia demasiados mortos naquela famigerada capa do Correio da Manhã ou se, pelo contrário, o fotojornalismo do "bom gosto" é parte integrante do que nos mantém adormecidos e brandos. Ou a indignar-nos com o reinado da pasta de açúcar, o que é a mesma coisa.

Monday, July 21, 2014

aproveitamento político


O exame nacional de Português da segunda fase pedia um texto sobre "a necessidade de optar entre o conformismo e a coragem de assumir riscos". A minha irmã Vitória escreveu sobre o conformismo da população portuguesa e a necessidade de assumir os riscos necessários para destituir o governo. 

Não sei se tenha orgulho no risco que ela assumiu ao criticar o Governo num exame nacional ou se desconfie de aproveitamento político. Afinal, como ela prontamente me explicou, os exames são corrigidos por professores. 

lehkost*

#90diassemcompras

(Ana Pina faz regularmente coisas muito bonitas, mas acho que este anel é a minha favorita de sempre.)


Tentações à parte, e esta confesso que ainda é grandinha, ter posto de parte as compras durante os próximos noventa dias é um descanso, há imensas malas, sapatos e vestidos em que não vale a pena pensar, o que simplifica muito a vida de uma pessoa. Acho que vou usar o espaço mental que me sobra para decorar poemas.

(*leveza, em checo, uma palavra tão leve e delicada como o que diz e de que gosto muito)

Wednesday, July 16, 2014

o observador enviesado


O que seria do jornalismo português sem José Manuel Fernandes? Sem ele, por exemplo, eu nunca teria descoberto que o movimento sionista foi um movimento em que judeus se mudaram para a Palestina e compraram lá casas.Assim a modos que como os lisboetas no Algarve, mais coisa menos coisa.

(a título de curiosidade, espreitei outros textos da secção pedagógica "Explicadores". Há um sobre o aumento da dívida pública desde a chegada da troika. Ao longo de vinte e três linhas refere três factores. No parágrafo final, antes de nos explicar que é tudo muito complexo, reflecte também de passagem uma coisita chamada juros)

Tuesday, July 15, 2014

noventa dias (90!)

em que rita maria se compromete a parar a sangria orçamental e renuncia às compras 




Depois daquela hecatombe em que eu, em meia hora de labuta, aumentei o meu guarda roupa em nove (9!) pares de sapatos, decidi que já tinha dado para esse peditório. Agora já não preciso de sandálias rasas. Nem de sandálias com um salto médio. Nem de cunha. Nem de sandálias cor de rosa, azuis, douradas ou pretas ou beige ou de várias cores. Tenho todos os sapatos de que preciso. E, na verdade, pensando bem, também não preciso de mais roupa. Nem de mais pulseiras, brincos e colares. Nem de mais malas, sacos e carteiras. Nem de maquilhagem, nem de perfumes, nem de cremes. 

E então, animada por esta revelação e inspirada por este post (descoberto via Pollijean), cortei tal rubrica do meu orçamento pelos próximos noventa dias, mesmo a calhar, dez por cada par de sapatos. E deixei aqui firmado o compromisso, bem como as regras do jogo, que são as seguintes:


Estão contempladas as seguintes excepções:

1. Dinheiro gasto em serviços de costura não conta - não posso comprar roupa nova mas posso encurtar, apertar ou reparar tudo o que tenho. E especialmente tudo o que tenho guardado à espera de alterar, reparar ou transformar.

2. Se estragar um par de calças posso comprar outras - esta excepção justifica-se pelo facto de ter muito poucas calças, dois ou três pares, pelo que posso precisar mesmo de substituir umas se se estragarem. Não se aplica a saias e muito menos a vestidos.

3. Roupa interior, que é necessariamente de renovação mais frequente.

4. Hidratante de rosto, que vai acabar sensivelmente a meio deste período e será substituído. 


Não estão contempladas as seguintes excepções:

1. Ah, mas isto está tão barato, uma pechincha, inacreditável. Azar. 

2. Ah, mas tinha-me esquecido de que precisava mesmo de um casaquinho de malha azul (por acaso até é verdade), de umas calças mais frescas, de.... Azar.

3. Ah, mas o Inverno começou mais cedo e eu para o Inverno já sabia que precisava de umas botas. Azar.

4. Ah, mas... Azar.


Não estão contempladas as seguintes extensões:

1. Roupa de casa e de cama que também não preciso (uma pessoa também não pode deixar de contribuir para a economia).

2. Idem para outros elementos de decoração ou utilidade doméstica  (uma pessoa também não pode deixar de contribuir para a economia).

3. Livros de que também não preciso (uma pessoa também não pode deixar de contribuir para a economia).

4. Ah, mas...outras coisas que não tenham sido referidas acima (uma pessoa também não pode deixar de contribuir para a economia).


Sim, porque isto não é o meu passaporte de entrada para o minimalismo, que é uma filosofia contrária à minha natureza emotiva, gregária e desorganizada. É só um reconhecimento de que comprar roupa nova quase todos os meses, tendo-se tornado regra na sociedade actual, é um absurdo, e de que sim, menos escolhas facilitam o processo de tomada de decisão matinal sobre o que vestir, processo que parece que é muito divertido para algumas pessoas mas que para mim é uma tortura. Ah, e de que sou uma rapariga assim para o pobrezinho e de que não posso continuar a viver como se tivesse o meu salário alemão. 

Sunday, July 13, 2014

Thursday, July 10, 2014

a lei de rita

the great ebay splurge of 2014

Sapatos que já chegaram: 9/9
Sapatos de que gosto realmente: 8/9*
Sapatos que me servem: 8/9**
Sapatos que só vou usar depois do Verão: 2/9
Sapatos que são lindos mas de utilidade francamente reduzida: 1/9
Sapatos que acho que valem definitivamente o que me custaram: 9/9
Sapatos que teria comprado mesmo que estivessem ao preço normal: 6/9

Saldo: muito positivo (ver título do post). Mas agora não quero ouvir falar mais de sapatos por uns largos meses.

(*há uns que me levantam algumas dúvidas, são giros mas não são bem o meu estilo)
(**snif, uns são grandes)

Wednesday, July 09, 2014

são feiinhos mas pelo menos são corteses



(na página de Facebook da Selecção Alemã)
(perde-se um bocadinho na tradução, especialmente aquele "Kopf hoch!", que é uma combinação entre "ânimo!" e "mantenham o orgulho")

Friday, July 04, 2014

visual aid

(a vossa mãe também vos ensinou aquela técnica de desmistificar pessoas imaginando-as sentadas na sanita?)


(daqui)(claro que a fotografia aumenta, ora essa)

Thursday, July 03, 2014

manual de bem pecar


Decidi baptizar os meus filhos. Não é que tenha tornado repentinamente crente (ou repentinamente grávida), nada disso. Nem sequer fui a Roma, que é onde me costumam dar esses afrontamentos.
Mas ao ler este post sobre a culpa (e este outro em que a autora demonstra uma capacidade invulgar de lidar com ela, qualidade que felizmente partilho com ela) apercebi-me da importância que pode ter uma educação católica na vida de uma criança.

Mas, claro, uma educação católica séria, sul-europeia: em uma pessoa sentindo culpa antes e depois, e não pecando em demasia, fica o pecado expiado. No fundo uma espécie de guião para distribuir a culpa, catalogar as travessuras e apimentar as infracções. 

Wednesday, July 02, 2014

ping, you've got shoes!




Estou sem palavras. 
As boas notícias: pelo menos eram os últimos, acabou o pesadelo.

coisas realmente importantes


Se eu fosse responsável por coordenar uma campanha anti-tabaco para convencer as novas gerações a não fumar deixava de fora as imagens chocantes, os pulmões carbonizados, as línguas esburacadas e os pénis flácidos, tudo consequências hipotéticas a médio ou longo prazo, e dizia apenas isto: de manhã vocês vão chegar ao metro, que isto a vida não é uma road trip infinita, e as pessoas vão reparar em vocês porque vão cheirar mal.

Monday, June 30, 2014

the great e-bay splurge of 2014



Nos entretantos, enquanto contava os dias para a defesa do projecto de doutoramento e me entregava sem hesitação às mais variadas nuances da depressão pós-parto académica (especialmente a vergonha, o medo e a ansiedade) visitei o ebay inglês, inquirindo da disponibilidade de sandálias de pele, no meu tamanho, giras, de boa qualidade, diferentes e a bom preço. 

Parecia o meu dia de sorte: dúzias delas, em excelente estado, leilões ali a começar na casa das unidades, e das unidades baixinhas, portes razoáveis. Eufórica, licitei o valor mais baixo nalguns modelos seleccionados, confiante de que em virtude da lei de Rita alguma pechincha me havia de vir calhar às mãos. E veio. Ou vieram. Uma, duas, três, quatro, e por aí fora. 

Com o que a minha tentativa de comprar uns sapatos de Verão por pouco dinheiro e de me divertir de forma inócua na internet a ver as modas por uns segundos rapidamente se revelou numa catástrofe, um despesismo assustador, um desgoverno absoluto, uma loucura terceiro mundista. Um absurdo, em resumo. 

E eu, como se já não bastasse o medo com que estava da defesa do projecto, passei a tremer a cada ping do e-mail, receosa de ter arrematado mais um par de sapatos, cavado mais um buraco no orçamento, percorrido mais um bem-calçado passo no caminho que me separa da Imelda Marcos. 


(já só faltam uns, torçam por mim, eu não quero mesmo mais sapatos, só tenho dois pés e mesmo assim um deles sabe Deus)

vá para fora cá dentro

extreme version





O modelo é conhecido: uma pessoa pega num fim de semana perfeitamente corriqueiro, por exemplo depois de semanas de muito trabalho e muitos nervos, marca um hotel num sítio bonito mas não muito distante e prepara-se para recarregar baterias namorando, nadando, apanhando sol, comendo conchinhas e pequenos almoços de hotel e tomando banhos de imersão. 

Eis a nossa versão: sair do trabalho a horas, passar a ponte de mota, vento quente e bom, ir jantar a Alcochete, que não sei como é que ninguém me tinha avisado que é tão bonito, fazer-se ao caminho, ter um furo, cancelar o hotel, pagar a primeira noite e voltar para casa.

Parece triste. E é. 

Mas no dia seguinte a minha mãe levou-nos a almoçar à Ericeira, que é um dos meus sítios favoritos, comi percebes, que é um dos meus mariscos favoritos, cantei muito Ena Pá no carro em coro com os meus irmãos, que é uma das minhas coisas favoritas e ainda apresentei o meu amor a três dos meus sítios favoritos para fazer compras: o mercado da Ericeira, o Aldi e o Leroy Merlin. Já no domingo, atravessámos o rio e fomos ver a Casa da Cerca, que tem um jardim botânico muito bonito e muito calmo, onde uma pessoa pode deitar-se na relva a ver amadurecer as ameixas. 

E assim se passou o fim de semana, provando que nisto das escapadinhas, mesmo que não se consiga escapar, o que conta é a intenção. 

Friday, June 27, 2014

e no dia seguinte, o que te apoquenta minha rica filhinha? As insónias.

I'll have what she´s having

nunca vou ser bom para ti
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can't sleep
vejo a meg ryan
and then i can't sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can't sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can't sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can't sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can't sleep
e tenho o rosto coberto de pó

Matilde Campilho

(Estive a ler Matilde Campilho pela primeira vez esta madrugada e achei muito refrescante (e, entenda-se, não escrevo "refrescante" como quem procura um elogio pequenino). Foi uma boa surpresa (e, entenda-se, não digo boa surpresa porque tivesse duvidado que um poeta podia ser bom apesar de ser jovem, de ser atraente e de ser mulher. Ou, como li por aí, apesar de ser uma mulher jovem e atraente e de ter sido escolhida por Pedro Mexia. Não é o pénis de Pedro Mexia nem o protagonismo que este lhe reserva nas suas decisões que me aflige. É aliás órgão em que nunca tinha pensado antes de escrever a frase anterior. O que me surpreendeu foi descobrir algo de tanta frescura na mesma colecção que nos trouxe o bolor campestre de A. M. Pires Cabral)(fui roubar o poema aqui. Há lá mais, gosto muito de Piscinão Blue)
(e com isto me vou, ver se curo as insónias e celebro o fim das minhas angústias dedicando-me à única fórmula com resultados garantidos - o amor, uma cabana e o mar. Não sei como deixaram de fora o mar na formulação inicial)

Tuesday, June 24, 2014

digital knigge

para não dizerem que neste blogue não se aprende nada de útil XLIV



Nisto da vida, convém uma pessoa nunca dizer mal da sua mãe. Não vá dar-se o caso de mandarmos por engano para ela o e-mail em que falávamos dela a uma amiga.

Friday, June 20, 2014

da airbnbização de alfama (II)

(updates e desenvolvimentos)



1. Ontem, o post que escrevi sobre a airbnbização de Alfama foi publicado no Corvo, o que me deixou duplamente feliz - por um lado, porque gosto mesmo deste projecto, acho que presta um serviço público extraordinário e sinto-me mais lisboeta, mais em casa, desde que o leio e me sinto mas informada. E, por outro lado, porque quero mesmo acreditar que ainda vamos a tempo de fazer alguma coisa, pelo que quanto mais longe chegar a mensagem, melhor. Obrigada!

2. Uma das coisas boas desta publicação foi ter descoberto este artigo, no qual António Rosa de Carvalho, menos optimista que eu, pinta por outras (e melhores) palavras o cenário com que nos depararemos brevemente se não fizermos alguma coisa: "Está assim garantida a transformação de toda a Lisboa, não em cidade apropriada e vivida pelos residentes locais com identidade própria, mas sim em produto de consumo efémero e temporário, palco globalizado pronto a ser devorado pelo turismo de massas. (...) [uma estratégia] que não só destrói todos os interiores do património pombalino, mas leva a uma “demolição” sociológica de ocupação, muito mais grave. Um centro histórico ocupado apenas por ricos ou turistas, sem identidade ou famílias locais, produto temporário e décor efémero pronto a ser devorado".

3. Entretanto, poucos dias depois da publicação do post, saiu no Público uma entrevista ao nosso visionário Secretário de Estado do Turismo, que revelou qual a solução do governo para este problema: "liberalizar, liberalizar, liberalizar". Com Adolfo Mesquita Nunes aprendemos que o alojamento de casas a turistas obriga a registo camarário, estando "sujeito a tributação fiscal e a fiscalização" e que não há qualquer intenção do Governo de limitar esta actividade, existindo unicamente a preocupação de regular a situação do ponto de vista fiscal, garantindo que quem queira dedicar-se a esta actividade tenha "uma grande facilidade em fazê-lo". Em resumo: desde que os cofres do Estado não fiquem a perder, o mercado que se amanhe. 

4. Suponho que o próximo passo seja tentar intervir junto da Câmara Municipal de Lisboa e dos partidos representados na Assembleia Municipal, tentar marcar reuniões, ver muito bem os limites colocados a esta actividade por Berlim, Paris e Nova Iorque e continuar tentar passar a mensagem, inclusive junto dos próprios turistas. Se alguém se quiser juntar a mim, aceito companhia.

Wednesday, June 18, 2014

quatro motivos egoístas pelos quais me preocupo com os despedimentos da controlinveste

(a modos que os primeiras três às tantas são um só)



1. Porque o meu país não devia ter um só jornal diário de referência.
Eu não sou, como a maioria dos leitores deste blogue sabe, a maior defensora das virtudes do mercado livre. Parece-me até um pouco ingénuo acreditar que um sistema desenhado unicamente em função do lucro tenha como sub-produtos automáticos a justiça, a qualidade ou a diversidade. Coisas cá minhas.
Não sou no entanto insensível àquela conversa da concorrência, e acho que ter um único diário de referência pode ser negativo para um país, quer esse diário esteja na mão do Estado, o que não se coloca, ou de um único grupo económico.Por isso todos os passos que são dados pelo Diário de Notícias no sentido de nos deixar apenas com um diário de referência, o Público, me preocupam como cidadã.
Despedir jornalistas é apenas mais um destes passos - pode ser uma medida de sobrevivência financeira, mas é também uma medida de desistência jornalística (que de resto terá certamente consequências financeiras - é que esta gente calcula estas "poupanças" como se não tivessem qualquer efeito nas vendas, e duvido que a médio prazo isso se verifique, levando a novo ciclo de despedimentos, como aliás já aconteceu no Diário de Notícias).

2. Porque é importante para o país que haja jornalismo sério, consequente e bem-feito.
Também não sou daquelas pessoas que acredita que o jornalismo é indispensável à democracia - acredito é que há funções sociais que o jornalismo exerce que são fundamentais à democracia. Ou seja, não ponho de parte que um dia como sociedade encontremos outras formas de assegurar as mesmas funções. Enquanto não o fazemos, temos de criar condições para que os guardiões destas funções consigam exercê-las. Que condições são essas? Segurança laboral, para que possam enfrentar interesses instalados, políticos e económicos, sem receio de estarem amanhã no olho da rua por pressão de um qualquer assessor ou ao primeiro processo em tribunal. Independência absoluta da componente comercial das empresas em que trabalham, pelos mesmos motivos. Espaços de discussão e grémios de decisão entre pares, que obedeçam apenas a critérios jornalísticos. Tempo para exercerem o seu trabalho no respeito para com códigos deontológicos, especialmente no que diz respeito à verificação dos factos. E living wages, ordenados que permitam a alguém viver com o mínimo de conforto. 

Não estou a discutir se isto é realista ou idealista, estou a dizer que estas condições são essenciais ao exercício por parte dos jornalistas das funções que lhes adjudicámos, nomeadamente a da defesa da democracia.

O que temos é muito diferente, aquilo que se assiste na classe jornalística é a uma divisão cada vez mais acentuada entre, por um lado, vedetas muito bem pagas, que usufruem e tiram partido de um estatuto social de semi-celebridades que se esforçam, naturalmente, por manter, e do outro lado, exércitos de jornalistas a recibos verdes e de jornalistas estagiários, em estágio curricular ou do IEFP (pagos portanto por nós). A isto juntam-se condições de trabalho extremas, sem horários e sem estruturas de apoio ou instâncias de controlo pelos pares - o jornalista moderno escreve, tira fotos, filma, edita os seus próprios textos, coloca-os online e, às tantas, ainda conta cliques e verifica as caixas de comentários (esta última parte seria desejável do meu ponto de vista, mas até eu sei reconhecer a fronteira do idealismo). 

Estes despedimentos em massa de jornalistas baixam o nível salarial da classe ao por no mercado jornalistas desesperados, deixam os que sobram com cargas de trabalho irrealistas e impossíveis de cumprir em consciência, e, acima de tudo, com uma noção muito nítida de que a seguir pode ter chegado a vez deles. Noção essa que é prejudicial ao seu trabalho. Trabalho esse que é necessário a um sistema político que regula a sociedade em que eu vivo.

3. Porque o país precisa de jornalistas sem medo.
Há uma ideia aqui quero quero salientar face à polémica que aí vai sobre os jornalistas e a panaceia do empreendedorismo: independência absoluta para afrontar interesses, significa, na prática, a liberdade de fazer inimigos. Ou seja, no jornalismo, não se acomodar e dar o litro pode significar por seriamente em risco a carreira, actual e futura. Coisa incompatível, digo eu, com um planeamento estratégico de carreira que passe pela acumulação de contactos influentes e por conseguir o apoio de anunciantes e nalguns casos incompatível até com uma carreira de freelancer. Não sei se se pode generalizar isto, mas eu pessoalmente conheço muitos mais jornalistas a trabalhar em regime de freelance temas de sociedade ou de interesse humano do que histórias de política ou de economia. E é especialmente nas questões políticas e económicas que eu preciso de jornalistas sem medo. 

4. Porque a imagem das Relações Públicas precisa de relações públicas que percebam de Relações Públicas.
Muitos destes jornalistas vão procurar emprego nas Relações Públicas. Isto não me aborrece só pelo facto de poderem ocupar cargos que me podiam interessar ou pelo facto de os ocuparem como segunda escolha resignada. Incomoda-me acima de tudo porque as Relações Públicas são muito mais do que a assessoria de imprensa. E estes jornalistas, podendo ser assessores de imprensa competentes, e muitos são, na sua grande maioria não percebem nada de Relações Públicas nem tentam passar a perceber (aliás não lhes passa sequer pela cabeça que elas possam consistir em algo mais do que escrever press releases e telefonar aos seus ex-colegas). O que não contribui nem para a profissionalização da disciplina, nem para a melhoria da sua já tão atacada imagem, muito pelo contrário, e deixa coxas as organizações que entregam a totalidade da sua comunicação a estes profissionais. 

Tuesday, June 17, 2014

da depressão pós-parto académica



No mundo académico, a depressão pós-parto consiste num estado de intensa tristeza pelo fim da gravidez, combinada com algum alívio, num cacharolete* de emoções contraditórias - a parturiente sente por um lado um desejo imenso de manter o bebé mais tempo consigo, para poder continuar a aperfeiçoá-lo no seu útero, desejo que se intensifica de cada vez que olha para ele e vê que lhe falta um ou outro cabelo, que a orelha está torta e que o joelho esquerdo está ao contrário. Por outro lado, sente um intenso alívio e vontade de nunca mais olhar para a criatura, o que é incompatível com os longos anos que ainda passarão juntos.

Estas emoções contraditórias terão o seu auge no momento da visita dos seus amigos e professores ao hospital, visita essa que no mundo académico decorre de forma ligeiramente distinta, uma vez que a função de cada visitante é encontrar mais defeitos no bebé do que o visitante anterior, criticando não apenas o cabelo, a orelha e o joelho mas também a cor dos olhos, o formato das unhas dos pés e, em calhando, discutindo o próprio direito à existência da criancinha. 

Não obstante este perfil emocional algo peculiar, a sintomática da depressão pós-parto académica é bastante semelhante à da depressão pós-parto regular, destacando-se a irritabilidade, a ansiedade, a     diminuição da energia, a sensação de cansaço constante, a sensação de vazio e de tristeza, o desinteresse pelo bebé,  os sentimentos de culpa, incapacidade, pessimismo e sensação de inutilidade,   a dificuldade de concentração, a  falta de memória, a dificuldade em tomar decisões e, especialmente, a vontade de dormir muito.

(*sempre quis usar esta palavra no blog)

Sunday, June 15, 2014

o babysitter


Os dias estavam difíceis e duros, dias desses que a vida às vezes proporciona. Os pais decidiram sair para jantar, ir ao teatro, namorar como quem lambe as feridas e ganha coragem para a próxima batalha. Contrataram um babysitter para tomar conta da filha. Quando voltaram, ele garantiu que ele é que era o verdadeiro pai da criança, que quem foi ao ar perdeu o lugar e que era uma grande injustiça não ser ele a acordar com os beijos da rapariga no dia seguinte e levar a rapariga ao altar daqui a muitos anos, ele que lhe tinha mudado as fraldas e conseguido pô-la a dormir. O babysitter era António José Seguro.

Thursday, June 12, 2014

dos problemas derivados da questão


Estado actual da questão, vulgo "Projecto de Doutoramento": Dezoito páginas de texto desconexo, sensivelmente um terço dos conteúdos ainda por inserir, texto a necessitar de várias revisões.
Estado mínimo da questão amanhã às nove da manhã: No máximo vinte páginas de texto escorreito para mostrar à orientadora, com todos os conteúdos inseridos.
Estado obrigatório da questão na próxima segunda feira: No máximo quinze páginas de texto escorreito, bonito e bem estruturado para entregar ao júri.

Problemas imediatos derivados da questão: A mesa a que estou a escrever é demasiado alta. Ou a cadeira é demasiado baixa. Ou, o que é mais provável, o meu tronco é demasiado curto. 
Problemas a curto-prazo, igualmente derivados da questão: Hoje é dia 12 de Junho. Eu moro em Alfama.
Problemas a curto, médio e às tantas longo prazo: Estou muito, muito cansada e tenho vindo a descobrir que escrever afinal não é a melhor coisa do mundo universal mas uma grande chatice. Bem a minha mãe me dizia. 

Wednesday, June 11, 2014

ironia, sarcasmo e cinismo

a trilogia blasé


Aqui há uns tempos cruzei-me (no Zite, se não conhecem recomendo) com um texto da Salon intitulado "David Foster Wallace was right: Irony is ruining our culture", de que me lembrei agora ao ler este post da Luna. A teoria principal do texto era esta: a ironia e o sarcasmo tornaram-se tão mainstream no discurso contemporâneo que perdem o potencial humorístico que teriam tido anteriormente e se tornam na melhor base para uma sociedade dominada pelo cinismo, onde acreditar em alguma coisa nos expõe ao ridículo e defender princípios, ideias ou teorias nos faz passar por sonhadores ingénuos, cinzentões sem sentido de humor ou fundamentalistas em fúria. 

O risco é o que a Luna identifica: no limite, os cínicos têm sempre razão, a desilusão é sempre garantida. Mas sem pessoas que tenham a coragem de acreditar, e de acreditando falar das suas convicções e lutar por elas, a sociedade não avança. 

Vale a pena ler a totalidade do texto, embora se foque muito especificamente na Arte e na realidade dos Estados Unidos e nem sempre o que diz seja generalizável a toda a cultura popular ocidental e à cultura do debate público. Mas, como sei que nunca seguem os meus links mas estão hoje sem feeds e sôfregos de leitura, deixo-vos uns bocadinhos que me parecem aplicar-se mais à nossa vivência geral em sociedade e que me parecem conter algumas ideias importantes:

(...) Lazy cynicism has replaced thoughtful conviction as the mark of an educated worldview. Indeed, cynicism saturates popular culture, and it has afflicted contemporary art by way of postmodernism and irony. Perhaps no recent figure dealt with this problem more explicitly than David Foster Wallace. One of his central artistic projects remains a vital question for artists today: How does art progress from irony and cynicism to something sincere and redeeming? 

(...)Twenty years ago, Wallace wrote about the impact of television on U.S. fiction. He focused on the effects of irony as it transferred from one medium to the other. In the 1960s, writers like Thomas Pynchon had successfully used irony and pop reference to reveal the dark side of war and American culture. Irony laid waste to corruption and hypocrisy. In the aftermath of the ’60s, as Wallace saw it, television adopted a self-deprecating, ironic attitude to make viewers feel smarter than the naïve public, and to flatter them into continued watching. Fiction responded by simply absorbing pop culture to “help create a mood of irony and irreverence, to make us uneasy and so ‘comment’ on the vapidity of U.S. culture, and most important, these days, to be just plain realistic.” But what if irony leads to a sinkhole of relativism and disavowal? For Wallace, regurgitating ironic pop culture is a dead end: 

"Anyone with the heretical gall to ask an ironist what he actually stands for ends up looking like an hysteric or a prig. And herein lies the oppressiveness of institutionalized irony, the too-successful rebel: the ability to interdict the question without attending to its subject is, when exercised, tyranny. It [uses] the very tool that exposed its enemy to insulate itself"

So where have we gone from irony? Irony is now fashionable and a widely embraced default setting for social interaction, writing and the visual arts. 

(...)For the generation that came of age during Vietnam, irony was the response to a growing distrust toward anything and everything. 

(...) Irony was becoming a protective carapace, as Wallace pointed out, a defense mechanism against the possibility of seeming naïve. 

(...)The Onion’s satire points out that irony and formality have become the same thing. At one time, irony served to reveal hypocrisies, but now it simply acknowledges one’s cultural compliance and familiarity with pop trends. The art of irony has lost its vision and its edge. 

(...) Skeptics reject sincerity because they worry blind belief can lead to such evils as the Ku Klux Klan and Nazism. They think strong conviction implies vulnerability to emotional rhetoric and lack of critical awareness.

(...) Irony alone has no principles and no inherent purpose beyond mockery and destruction. The best examples of irony artfully expose lies, yet irony in itself has no aspiration to honesty, or anything else for that matter. 

(...) At one time, irony served to challenge the establishment; now it is the establishment. The art of irony has turned into ironic art. Irony for irony’s sake. (...) But irony without a purpose enables cynicism. It stops at disavowal and destruction, fearing strong conviction is a mark of simplicity and delusion. But we can remake the world. 

(em jeito de PS: Eu não vivia sem o humor, aprecio a ironia, até reconheço alguma utilidade social ao sarcasmo e há testemunhas de que me entrego de quando em vez a sessões de maledicência gratuitas. E sou também, infelizmente, cada vez mais cínica. Por isso quando falo da sociedade contemporânea e da necessidade de voltar a ter coragem de acreditar, podia estar a falar de mim. E estou, um bocadinho)

 
Yellow Dinosaur