Thursday, April 07, 2016

ULISSES, GUERRA E PAZ E A CONDIÇÃO HUMANA

(ainda outras coisas que me caíam mal)

Num dia em que um governante achou que ameaçar bofetadas era uma gracinha do mais fino humor, é natural que não se fale disto - e longe de mim querer desviar o assunto. Ainda assim, não queria deixar de registar que achei de algum mau gosto que Marcelo Rebelo de Sousa tenho optado por responder a uma pergunta sobre o que levaria na mochila caso fugisse de um país em guerra como se fosse uma questão sobre o que levaria para uma ilha deserta. 

coisas que me incomodam

(por ordem crescente de incómodo)


1. Ter um arruaceiro como Ministro da Cultura.
2. Ter um arruaceiro como Ministro da Cultura que se considera inimputável o suficiente para ameaçar aqueles que o criticam. 
3. Ler (muitas!) pessoas que confirmam essa crença do ministro, garantindo que é uma reação compreensível e humana dada a perseguição de que é alvo (coitadinho), o calibre dos seus ofensores (se formos por aqui não acabamos nunca) ou (a minha favorita), a eterna "falta de sentido de humor" de que é sempre acusada em Portugal toda e qualquer pessoa que considere uma afirmação inaceitável.


NOTA: A autora deste blogue concorda, tanto quanto lhe é possível apurar, com a demissão de António Lamas, embora lamente ter sido, ela também, feita de forma particularmente deselegante, não tem nada a favor de nenhum dos detractores de João Soares ontem ameaçados e tem estado, até agora, regra geral francamente satisfeita, e surpresa, com a actuação do governo, coisa que não se lembra de lhe ter acontecido em mais de três décadas de vida. 

Monday, March 07, 2016

a saga do biquíni


Ouvi dizer (nos blogues, essa fonte importantíssima deste tipo de informações) que já tinha começado a "saga do biquíni". Ora eu não sou especializada em sagas (lá em casa há dois volumes das sagas islandesas, mas tenho de confessar que ainda não as li) nem em biquínis, mas este ano não quis ficar atrás do resto da população já escolhi um belo fato de banho vermelho e estou preparada e motivada para mudar radicalmente a forma do meu corpo até estar pronta para o exibir na praia. 

Sunday, March 06, 2016

augment your constitution





No meio de tudo o que se tem escrito sobre o retrato de Cavaco Silva por Barahona Possolo, ainda não vi ninguém comentar uma coisa que me saltou logo à vista: que Constituição é aquela? 

1. Cavaco Silva possui uma versão cartonada e ilustrada, em corpo de letra vinte e cinco, como os livros infantis. 
2. Barahona Possolo, habituado a exagerar no retrato de alguns atributos-chave, fetichizou a Constituição, tornado-a maior e mais grossa. 
3. Quando o quadro foi pintado não havia nenhum exemplar da Constituição à mão. 
4. (update) A autora do post, na sua ânsia de ser engraçadinha, não pesquisou tão exaustivamente como pensava e há afinal edições da Constituição tão ou mais volumosas que aquela, conforme prontamente lhe explicaram. 

Wednesday, March 02, 2016

quem tem medo da barbie canalizador?*


Eu sei que existem pessoas que acreditam em papéis tradicionais para homens e mulheres e que pensam que é importante que existam brinquedos para rapazes e para raparigas, que respeitem os papéis de cada um, preparando-os para os exercer, normalmente reservando para as raparigas brinquedos relacionados com a vida familiar e doméstica ou com o cuidado com a sua aparência. 

E compreendo que existam pessoas que pensem que é natural que os rapazes brincam com brinquedos de rapazes e que as raparigas brinquem com brinquedos de raparigas, há sempre pessoas que acreditam que há fenómenos sociais "naturais" e que recusam que eles possam ter qualquer significado para além do óbvio (por exemplo, que pudesse existir uma ligação entre o facto de as raparigas brincarem com brinquedos ligados à vida doméstica e familiar e o facto de as mulheres terem uma carga de trabalho doméstico média muito superior à dos homens). 

O que já tenho mais alguma dificuldade em perceber é o que apoquenta estes dois grupos de pessoas quando a distinção entre os dois tipos de brinquedos deixa de ser obrigatória ou fortemente sugerida (ie, quando o McDonald's deixa de separar os brinquedos do Happy Meal entre rapazes e raparigas ou quando o Toys R Us e o Target deixam de separar os brinquedos por género, levando a inúmeros protestos e boicotes). 

Temerão que os seus filhos se sintam perdidos, sem saber o que é esperado deles? Que demorem demasiado tempo a encontrar o brinquedo que preferem? Que a brigada do politicamente correcto obrigue a sua doce princesa a brincar com um Action Men, depois de lhe queimar os soutiens às Barbies? Ou deposite uma vassoura com brilhantes da mão do seu rapazola traquinas e o obrigue a varrer o pátio toda a tarde em vez de jogar à bola?


(*depois de publicar o post li este post da Helena, e não posso deixar de concordar que, tendo escolhido para o post tendencialmente exemplos ligados à educação das raparigas, a sociedade é muito mais cruel para com rapazes que escolham brinquedos ou brincadeiras "de raparigas" do que o seu oposto, muitas vezes até celebrado)

Thursday, February 11, 2016

um post que era sobre tradutores mas depois passou a ser sobre experiências culinárias

Um bom tradutor* é como um organizador de casamentos: no cenário ideal, o texto corre fluido e não se dá por ele. Do que decorre que há três tipos de maus tradutores - aqueles cujos erros nos ferem a vista, nos incomodam, nos impossibilitam a leitura ou nos lembram constantemente a estrutura frásica da língua original, os que acham que têm imenso a acrescentar e que são a personagem principal a seguir à noiva e os que combinam os dois defeitos. 

Comecei a ler "Uma Vida Violenta", de Pier Paolo Pasolini (uma escolha evidente para quem terminou Ferrante**). Na sua nota introdutória, o tradutor informa-me que o livro continha muito calão romano, em parte não perceptível pelos restantes italianos, e que, para não perder esse colorido, o substituiu por um calão, de reminiscências nortenhas. 

Com o que li a introdução e fiquei logo com uma vontade irresistível de o arrumar e de passar à minha estratégia alternativa de desintoxicação - começar a investigar a cozinha napolitana e testar logo o prato mais maluco**.


(*exceção feita aos tradutores de poesia) 
(** era bom, mas vou investir numa versão mais contida, em termos de trabalho e exuberância, e não tenho dúvidas de que será ainda melhor)

Thursday, January 28, 2016

conversas em família


Não retiro à esquerda, nem por um momento, a responsabilidade última sobre a pesadíssima derrota eleitoral que sofreu, com todos os candidatos de todos os partidos de esquerda a perderem votos face às legislativas
Mas parece-me que sim, que o facto de o candidato ter estado mais de uma década em pré-campanha foi um elemento importante, e o que li sobre os debates em que participou confirmou a minha suspeita sobre porque é que ganhou como comentador o que nunca tinha conseguido como político - devido à ausência completa de oposição, contraditório ou desafio. 
Com uma muito breve exceção, que de resto parece que correu mal, Marcelo falou sempre tendo jornalistas como companhia única. Jornalistas esses que foram alternadamente parceiros de brincadeira, fãs confessos, groupies em êxtase ou, nos casos mais moderados, simples bibelots decorativos.
Que dessas conversas em família tenha resultado um Presidente, devemo-lo tanto ao falhanço da esquerda como ao do jornalismo. 

Thursday, January 21, 2016

o privilégio e a ação afirmativa

breve exercício de sistematização


1. Há as pessoas que negam que o privilégio e a discriminação existem. Nalguns casos, essas pessoas reconhecem que o privilégio e a discriminação (de género, de raça, de nacionalidade) terão existido no passado, mas acreditam que, depois de retiradas as circunstâncias formais que regulavam o privilégio (a abolição da escravatura, a extensão do direito de voto às mulheres, etc), a discriminação terá já desaparecido de todo, tornando a sociedade permeável à ascensão social, cultural e económica de qualquer indivíduo que prove merecê-la. Regra geral, estas pessoas tendem a recusar o significado de estatísticas como expressão de tendências da sociedade, preferindo uma abordagem circunstancial, caso a caso.

2. Há pessoas que reconhecem a existência da discriminação (a noção de privilégio é mais difícil de aceitar, porque implica a sugestão de que a nossa própria posição social e económica não seja resultado exclusivamente do nosso mérito, mas também de um sistema social que nos beneficia à partida), mas julgam que ela está em franco declínio, como resultado da abolição das circunstâncias formais que a regulavam. Face a este declínio, muitas destas pessoas defendem que que a discriminação terminará naturalmente, à medida que o tempo passa. 
Muitas delas acreditam ainda que o maior contributo para o fim da discriminação será ser dado por pessoas que, operando dentro do sistema, consigam superar as suas condicionantes e tornar-se bem sucedidas, acedendo por mérito próprio a posições de privilégio. 
Algumas destas pessoas defendem ainda que a reflexão social sobre o privilégio e a discriminação é negativa, pois tende a vitimizar os grupos anteriormente discriminados, diminuindo as conquistas daqueles que, de entre eles, conseguiram ascender social, cultural ou economicamente. Tal como o grupo anterior, este grupo tende a desvalorizar o significado de estatísticas como expressão de tendências da sociedade, considerando-as apenas testemunho ou da acumulação de casos específicos circunstancialmente atribuíveis aos indivíduos específicos que constituem estes grupos, ou de resquícios históricos.

3. Há pessoas que acreditam que existe privilégio e discriminação, e que defendem que esse é um tema que deve ser discutido e analisado em sociedade, mas que têm dúvidas acerca das vantagens da ação afirmativa, ou seja, de promover ativamente a participação de grupos de pessoas em posições em que elas não estejam representadas. Algumas destas pessoas argumentam com base na meritocracia, garantindo que é preciso e poderia ser suficiente um maior investimento na igualdade de oportunidades e no debate social, e sugerindo que a ação afirmativa pode prejudicar esse mesmo debate social, ostracizando grupos que lhe são antagónicos, especialmente pessoas que defendem as duas posições anteriormente descritas. 
Outras ainda defendem que a representatividade de pessoas de grupos marginalizados em posições que lhes estavam anteriormente vedadas não contribui tanto para a mudança social como o discurso crítico sobre o privilégio, existindo inclusive o risco de as pessoas que ascendem a essas posições se limitarem a replicar comportamentos e atitudes dos grupos privilegiados. 

4. E por último há pessoas que acreditam que há privilégio e discriminação e que defendem que é moralmente necessário não só tematizá-lo, discuti-lo e procurar aumentar a consciência de outros sobre a sua existência, mas também combatê-lo ativamente através de políticas de ação afirmativa, que promovem a participação de grupos sociais em posições que anteriormente lhes estavam vedadas. 
Na maior parte dos casos estas pessoas defendem que a ação afirmativa não é uma exceção a um processo que decorre, em todos os outros casos, de forma meritocrática, mas uma replicação, para benefício destes grupos, do privilégio em função do qual a sua participação é histórica e sistematicamente excluída. Defendem ainda que a representação destes grupos é fundamental em termos de justiça social e como forma de impedir a replicação ad infinitum do privilégio, e que historicamente seria ingénuo esperar que conquistas de qualquer tipo, e especialmente conquistas que põem em causa privilégios adquiridos ao longo de séculos e reproduzidos de forma estrutural, fossem conseguidas de forma natural pela suave passagem do tempo. 

Wednesday, November 11, 2015

ai é, ai é?


Fazem golpes de estado especificamente previstos na Constituição da República Portuguesa? São mais fiéis ao que prometeram aos vossos eleitores do que ao que nós prometemos aos nossos? Está bem, então se é assim que seja. Mas depois não queiram vir sentar-se nas nossas esplanadas como se nada fosse.

Friday, October 16, 2015

pequena estatística para reforço de embirração pessoal

Crie seu próprio questionário de feedback de usuário

Monday, October 12, 2015

anatomia das traições consentidas



Portugal tem um sistema político que coloca o poder executivo nacional, o Governo, à mercê de dois outros órgãos de soberania, a Assembleia da República e o Presidente da República. Assim, para um partido ou um conjunto de partidos formarem Governo não basta ficarem em primeiro lugar nas eleições, como na corrida do post anterior - têm de ser convidados a formar Governo pelo Presidente da República depois de este falar com todos os partidos e o seu programa não pode ser rejeitado pela maioria da Assembleia da República.

Porquê? Foi engano? Quem pôs estas regras na constituição, aliás à semelhança de muitos outros países, não estava bom do juízo? Não, o objetivo era garantir que, independentemente do resultado eleitoral, o governo do país não podia ser exercido por um partido com cujo programa a maioria dos eleitores, representados na Assembleia da República, não concordasse. Daí a possibilidade, definida pela constituição, de o programa de Governo ser rejeitado pela Assembleia.

Ora dá-se o caso de três partidos terem eleito deputados com base em programas contra a austeridade (quatro, na verdade, se interpreto corretamente o programa do PAN). Um deles garantiu mesmo que as pessoas deviam votar nele, em detrimento dos outros, porque seria a única forma de vencer realmente a coligação da austeridade.

De acordo com os teóricos da democracia dos cem metros (ganha quem fica em primeiro lugar e daqui a quatro anos voltamos a falar) e do "golpe de estado da esquerda", estes partidos detêm a maioria da Assembleia da República e representam em conjunto a maioria do povo português mas têm a obrigação moral e política de abdicar desse poder em nome da regra não escrita, da "tradição política" de que deve forçosamente governar quem fica em primeiro lugar.

Em vez de tentarem utilizar o poder e o peso que os portugueses lhes deram para concretizar as ideias e programas que levaram a que esses portugueses votassem neles, ou seja, o mandato que lhes deram, estes partidos devem, consoante lhes seja ou não permitido acesso ao clube restrito do arco da governação, fazer uma de duas coisas.
Se forem considerados partidos inaptos para a vida civilizada, devem organizar manifestações, produzir "moças" giras e sonhar com o Verão Quente.
Já no caso do PS, resta-lhes fazer oposição mas pouquinho, sem fazer finca-pé na recusa da austeridade como estratégia económica, já que o contrário significaria "não deixar governar quem ganhou as eleições".

Em resumo, os partidos de esquerda não podem trair o eleitorado dos partidos de direita, roubando-lhe o direito de ver o seu programa concretizado. Já trair o seu próprio eleitorado, diz que podem, claro, parece que é uma questão de respeito pela democracia.

a democracia em cem metros


«Instalou-se em Portugal uma ideia perversa: que desde que um partido ou coligação fique em primeiro, transformando as eleições numa mera corrida, uma minoria tem direito a governar contra a vontade da maioria. Ora esta ideia é o oposto da democracia. Numa democracia representativa a maioria dos deputados representa a maioria dos eleitores. E nunca um governo pode governar contra a vontade da maioria dos que foram eleitos.»

Daniel Oliveira, Em democracia manda a maioria

Wednesday, October 07, 2015

O que o povo quer

o mandato popular das eleições legislativas de 2015


Entre as declarações dos diferentes partidos e as interpretações que quem votou PAF porque acredita na política do Governo, de quem votou PAF só para não ter o PS à frente do Governo, de quem votou PS porque acredita que o PS deve ser Governo, de quem votou PS só para não ter o PAF no Governo e de quem votou à esquerda do PS acreditando ser essa a melhor forma de ver representadas as suas opiniões e o seu combate às políticas de austeridade*, tenho lido as mais retumbantes certezas sobre “o que o povo quer” e “o que o povo decidiu” nestas eleições, com o mandato popular a ser, invariavelmente e por incrível coincidência, igual à opinião da pessoa que o está a interpretar.

A verdade é que, como forma de aferição de uma hipotética "vontade comum", as eleições não são muito eficazes, já que expressam apenas a soma das vontades individuais, ainda por cima incluindo vontades expressas de forma estratégica, pelo que dificilmente podemos retirar delas conclusões sobre "o que o povo quer".

Mas há três coisas muito claras que resultam das eleições:

O Governo - É claro que a coligação PAF foi o partido mais votado, com 38,41% dos votos**, sendo igualmente claro que a maioria dos portugueses não a queriam no Governo, tendo votado em partidos que se lhe opunham. É também claro que o PS, que ficou seis pontos percentuais abaixo, também não convenceu suficientes portugueses de que é uma alternativa válida.
 A interpretação da maioria de esquerda é mais difícil e menos clara.
À partida, as pessoas que votaram no PS não votaram numa coligação de esquerda, que o PS disse que não faria, repetindo claramente ao longo da campanha que só fazia acordos pontuais. O mesmo, sem tirar nem por, é válido para um acordo de governação com a PAF, que o PS prometeu não fazer. Isto implica que, para manter a previsibilidade do voto (ou seja, que não acontecem coisas que sejam contrárias à informação de que os eleitores dispunham quando decidiram votar naquele partido), o PS só tem dos seus eleitores um mandato para governar sozinho, com acordos pontuais com os outros partidos. Estes partidos, por sua vez, também anunciaram estar apenas disponíveis para acordos pontuais, possivelmente de espectro alargado, mas ainda assim pontuais.
As pessoas que votaram na PAF, à partida, recusam qualquer desvio do atual caminho de política económica, cujo prosseguimento foi garantido por este partido, o que também limita o mandato de negociação da coligação. Por isso, na verdade, o mandato de que a PAF dispõe também só lhe permite governar sozinha com negociações pontuais com outros partidos. 
No entanto, naturalmente, o respeito pela democracia exige que esses partidos não negoceiem de forma que traia o seu eleitorado, o programa em que votou e as promessas que lhe foram feitas.

A austeridade - A única coisa que resulta clara da maioria parlamentar de esquerda, de 50,87% dos votos contra 38,41% é que a maioria dos portugueses é contra o prosseguimento das lógicas de austeridade como estratégia económica para o país, fazendo uma avaliação negativa dos seus resultados e recusando o seu prosseguimento. Este é um mandato claro e que não levanta dúvidas.

O Euro e a União Europeia - Da maioria de esquerda resulta também claro, uma vez que todos os partidos de esquerda o afirmaram, que a maioria dos portugueses defende que os portugueses devem ser mais exigentes, vocais e interventivos nas políticas e metas que lhes são atribuídas pela União Europeia, de que Portugal faz parte. Este é um mandato claro.
No entanto, resulta também claro das votações combinadas da PAF e do PS, 69,21%, que os portugueses na sua maioria recusam a violação do Tratado Orçamental e a possibilidade de sequer equacionar uma saída do Euro.

Estas são, a meu ver, as conclusões que podemos tirar do resultado das eleições e do “mandato popular". Tudo o resto pode e deve ser alvo de negociação, entre todos os partidos e em total acordo com o espírito da Constituição, sem que a democracia ou a vontade popular sejam postas em causa. 


(*não juntei aqui nem as pessoas que “só votam em pessoas”, porque na verdade não tenho como interpretar o que querem, não julgo sequer que votem todas no mesmo ou que procurem a mesma coisa nas mesmas pessoas, nem as que votaram no PAN, que suponho que tenham votado em nome de uma causa específica)(**somei aos votos da PAF os votos no PPD/PSD e no CDS-PP)

Monday, October 05, 2015

pedidos modestos


Cada vez mais sou uma rapariga realista e de sonhos modestos: não sonho com o euromilhões nem com neve no Natal, não acredito na reposição do feriado do 5 de Outubro ou numa Lisboa sem carros em cima do passeio e tenho pouca esperança na união das esquerdas e na democratização da União Europeia. 

Mas gostava mesmo, mesmo, e acho que nem era assim pedir muito, que houvesse um botão que me permitisse dizer "já sei que todos os blogues têm cookies, percebi e aceito todas, no trabalho, em casa, no telefone e no tablet. Aceito mesmo, rendo-me incondicionalmente e para sempre".

implantação ou implantes?


Se o nosso muito estimado e recentemente reeleito Governo não considera que ela mereça um feriado e o Presidente da dita cuja não a acha sequer digna de menção, realmente se calhar não é de estranhar que a televisão pública comemore a degradação da República fazendo o gosto ao dente e mandando-lhe piropos. 

Se ela reclamar, explicar-lhe-ão que se pôs a jeito e que quem passa a vida de mamas de fora também não podia estar à espera de outra coisa. Isto, claro, antes de fazerem aquele beicinho de quem acabou de fazer uma piada muito fraquinha mas quer muito acreditar que a culpa é a falta de sentido de humor de quem não se riu.
Update: o vídeo que estava linkado neste post foi removido. Não encontrei nenhuma justificação, retratação ou esclarecimento.

e depois de votos frouxos, amanheceres difíceis


Gostava de ser mais cínica. De achar que António José Seguro deve estar aos pulinhos (espero bem que não esteja) ou de estranhar quando porta-vozes do Bloco de Esquerda se dizem preocupados apesar do seu resultado (bem, isso já é um nível de cinismo especial, que não concebe sequer a sua ausência). Assim, estou apenas triste e preocupada*, ciente de que apesar de tudo os próximos quatro anos têm uma possibilidade, pequena mas significativa, de ser um bocadinho melhores do que os quatro que os antecederam. 

(*sem cobranças. Não me custa nada acreditar que existam pessoas que achem sinceramente que um governo de Direita é melhor para o país, toda a minha vida conheci pessoas de Direita e não, não eram todas imbecis, nem todas masoquistas, nem todas ricos barões da alta finança egoístas e desumanos)

Friday, October 02, 2015

para coração murcho, voto frouxo

post eleitoral (II)

Outro dia vinha num táxi* a pensar no meu voto, que ainda não estava decidido, e a equacionar as minhas opções e a pesar vários considerandos.

O primeiro é uma certeza, eu sei que posso votar PCP ou Bloco de Esquerda e ter na Assembleia da República pessoas que no geral partilham a minha opinião sobre os temas essenciais, fazem um excelente trabalho, são muitíssimo empenhados, nalguns casos extraordinariamente competentes e genericamente muito mais honestos do que a grande maioria da Assembleia (estatisticamente, que isto nem eu acho que a seriedade decorra da cor política). E, apesar de eu achar que o papel da Assembleia da República é cada vez mais secundário, não acho de todo que fossem votos desperdiçados. Acho que a AR é uma importante fazedora de opinião pública, um palco importante no qual quero ver defendido aquilo que acredito e que genericamente só chega aos jornais de forma diluída, rarefeita, quando não truncada ou conscientemente manipulada (e nem falo na televisão, terreno sagrado do arco da governação, praticamente interdito a corpos estranhos, e da demagogia). E acho relevante dar força e recursos a estes partidos para continuar uma luta que é a minha.

Podia votar no Livre/Tempo de Avançar e saber que estava não só a votar num partido de esquerda, como numa coisa inteiramente nova, pelo menos para mim: um partido de esquerda que queria mais do ser uma oposição de grande qualidade, um partido de esquerda que queria ser poder. Mas esta candidatura, que junta tanta gente que estimo pessoalmente e tem sem dúvida pessoas que eu gostava de ver no Parlamento, tem sido para mim a maior desilusão da campanha.
Primeiro, pelo ênfase infinito dado à forma em detrimento do conteúdo. Eu, que me considero uma pessoa bastante informada e que era sem dúvida uma sua eleitora potencial, fui informada pelos media, pelos blogues e pelo Facebook dos amigos apoiantes de todos os detalhes das primárias, quem eram os candidatos, como e onde se votava, o que correu bem e o que correu mal, mas tive de ir escarafunchar no site para conhecer detalhes do programa e das propostas do partido.
Ora eu não quero votar em pessoas, quero votar em ideias e programas, e na maior parte dos casos a votação nas diretas do Livre era completamente desligada de tendências ou programas específicos, era uma mera questão de recrutamento. Era isto a democracia cidadã, votar nos meus amigos, escolher as caras mais bonitas, as personalidades mais carismáticas, as pessoas mais interessantes?
No entanto, eu sou uma rapariga teimosa e li o programa, que acho que no geral é um contributo interessante, embora muito desequilibrado, e que merece a minha concordância nuns 80%, o que até não está nada mal.
E no entanto, se eu quisesse votar em pessoas, fazia três cruzes na Mariana Mortágua antes de sequer considerar Rui Tavares, e se só estivesse à procura de um programa com o qual eu concordasse em linhas gerais, também já estava bem servida. Havia dois fatores distintivos no Livre, a tal "cidadania" e aquilo a que vou chamar "a disponibilidade para sujar as mãos".
Ora esta cidadania, tomada aqui como um oposto ao campo tradicional da "política", não me interessa e o folclore que genericamente a acompanha não me diz nada. Eu acho que dedicar-se à causa pública, profissional ou pontualmente, singrar num partido, definir coletivamente o que se pretende e apresentar-se a eleições não é vergonha nenhuma, muito pelo contrário, independentemente dos casos em que quem o fez escolheu cobrir-se a si mesmo e à atividade de vergonha. E tenho especialmente pouca paciência para organizações de ex-políticos profissionais que descobrem que a cidadania é que é o futuro depois de esgotar as alternativas.
Já segundo fator, a disponibilidade para fazer parte de uma solução de Governo, negociando passo a passo com o PS os termos dessa participação, dizia-me muito. E continua a dizer, a perspetiva de ter uma oposição de muito boa qualidade não me chega, acho que o país está num verdadeiro estado de emergência e que a solução ou mitigação dos problemas imediatos das pessoas devia ser para a esquerda uma prioridade absoluta.
Mas não só o PS não quis saber do Livre para nada, para surpresa de muito poucos, como o Livre, apesar de ter organizado eleições regionais para o candidato com mais amigos (no Porto, a anulação de 46 votos de uma candidatura levou esse candidato do primeiro para o nono lugar. Acho que está bem ilustrada a dimensão da iniciativa), de ter pedalado por Lisboa e de ter apagado o impacto ecológico da sua campanha plantando árvores, não descolou nas sondagens.
Com o que um voto no Livre seria não só um voto num divórcio da cidadania e da política no qual não acredito como um voto residual que se perderia nas estatísticas.
Estava o Livre de fora**.

Mas, ao pensar nisto das mãos sujas (Sartre está vivo nos nossos corações), coloquei-me a questão fulcral: "o que é que eu quero que aconteça?". E o que eu quero que aconteça, antes de tudo o mais, é que Passos Coelho e Paulo Portas sejam derrotados. Não tenho muita esperança, mas o que eu mais quero, afastadas que está a possibilidade de uma coligação de esquerda, é isso.

E com isto dei por mim a descobrir o voto útil e a decidir, pela primeira vez e para minha grande surpresa, votar no PS.

Para ter um governo um bocadinho menos de Direita, mesmo que liderado por pessoas que não aprecio e em quem em muitos casos não confio. Para me livrar de Passos Coelho. Para me livrar de Portas, o rei das fotocópias. Para me livrar de Crato, esse demagogo que enganou tanta gente, do seu neo-liberalismo mal encapotado e da sua incompetência***. Para tirar um lugar à Direita no Conselho Europeu. E para conseguir, com sorte, algum alívio, mesmo que pouco, para quem mais sofreu com estes anos de "austeridade", assim entre aspas porque não sou tonta e vejo com olhos de ver.

Algum. Pouco. Com sorte. Eventualmente. Um bocadinho.

Não é um voto que me faça muito feliz, como se vê pelas palavras acima, é verdade. Mas a "oposição de grande qualidade" é uma garantia à partida e mudar de governo é uma oportunidade única. E eu não quero partilhar as culpas de a deixar passar. Mesmo que ela não me entusiasme e, na verdade, nem sequer me agrade muito.




(*coisas de rapariga tradicionalista, epifanias em táxis)(tradicionalista e fina, que a vida está cara e eu devia era ter vindo de mota, mas em minha defesa tinha catorze horas de trabalho em cima e ainda sou um bocadinho medricas com esta história das duas rodas motorizadas)
(** para compensar a energia eléctrica despendida ao escrever este post, reguei esta manhã a minha orquídea e vou comer restos ao almoço)
(***é que os nossos governos nunca são só de Direita, são sempre de Direita e incompetentes. É uma coincidência que devia ser estudada)

fervor democrático murcho

post eleitoral (I) 

As eleições são o oposto do dia de S.Valentim. A 14 de Fevereiro as pessoas que o celebram ficam felizes, nervosas ou desiludidas, consoante o que lhes calhar em sorte, mas as verdadeiras estrelas são as pessoas que não celebram, que se sentem superiores às outras e têm necessidade de o afirmar alto e orgulhosamente, garantindo que o amor, as flores, os mimos e os presentes são todos os dias.

Nas eleições, metade do país sente-se superior à outra metade, contando histórias bonitas sobre como lacrimejaram quando votaram pela primeira vez, a solenidade dos pais quando iam votar, o cheiro amadeirado da barba do pai depois de deixar o papelinho na urna. Entre estes, quase ninguém diz que a cidadania é todos os dias, pelo contrário - muitos referem o momento eleitoral como "o único momento em que têm algum poder" e não parecem achar isso grave nem especialmente chocante. Quando sentem que as éclogas eleitorais não chegam para convencer os cidadãos mais empedernidos, partem para o desdém e o despeito, o que não deixa de ser caricato, tão inchados de democracia com cheiro amadeirado estavam ainda uns momentos atrás. 

Domingo vou votar. Não estou alegre, nem feliz nem emocionada. Não acho que Abril tivesse sido só isto nem que tivesse sido principalmente isto. Não me sinto superior a metade da população. Não vou vestir a minha roupa de domingo, nem planeio sentir-me especialmente emocionada depois da cruz pouco convicta que vou fazer. Não aguardarei alegre os resultados, expectante em perfeito fulgor democrático sobre a escolha que os meus concidadãos vão fazer, sei que os resultados quase só podem ser mauzinhos ou então bastante piores. E não sinto nada que todos devamos ir votar - garanto que não ficava nada zangada se metade dos apoiantes de Passos Coelho, Nuno Crato e Maria Luís Albuquerque ficassem em casa.

O meu pai não usava barba, se calhar é disso. Mas, seja como for, o meu coraçãozinho está vazio de fervor democrático. E sentimentos de superioridade, esses então nem vê-los. 

Monday, August 24, 2015

rapariga com blogue com três leitores tenta o impossível


Alguém que me leia é/conhece:

a) um programador;
b) um programador com o mês de Setembro livre;
c) um programador com o mês de Setembro livre e experiência em Drupal;
c) um programador com o mês de Setembro livre e experiência em Drupal, interfaces de reserva e de paamento;

Respostas positivas serão recompensadas com gratidão eterna, queijo da ilha, flores no cemitério e um lugarzinho no céu. 

Tuesday, August 18, 2015

Regra geral das conversas ao telemóvel no autocarro


A maioria das pessoas que vai a conversar* no autocarro faz 90% das despesas da conversa que está a ter.

(*conversar=conversas superiores a cinco minutos cujo objectivo não é resolver questões imediatas)

coisas tão raras que não podem passar sem menção


Uma reflexão equilibrada e inteligente sobre proteção animal, neste caso sobre os lobos, a provar que se pode pensar nestes temas sem fundamentalismos, certezas absolutas e emoções ao rubro e que é útil e importante que se pense nestes temas sem fundamentalismos, certezas absolutas e emoções ao rubro. 

(por falar em posturas equilibradas e inteligentes, vale a pena ler este texto sobre a forma como Lisboa lida com as colónias de gatos vadios, que me parece extraordinariamente sensata)

Escala blasé de Rita Maria


Em uma pessoa querer demarcar-se das massas, seja por se sentir genuinamente superior, por embirrar com comportamentos de grupo, por necessidade de mostrar personalidade, por insegurança ou por fanfarronice, aparentar um desdém blasé pelo que quer que as massas apreciem é um dos comportamentos mais recomendados.

No entanto, para que este comportamento tenha o efeito desejado, convém não cometer erros de principiante, posicionando-se incorretamente na escala blasé, o que pode dar a impressão errada, porventura até comunicando o exacto oposto do que querem dizer. Para vos apoiar neste esforço decidi então criar a escala blasé de Rita Maria, tomando como exemplo a moda dos petiscos e grumêtascas que referi no post abaixo:

ESCALA BLASÉ DE RITA MARIA

[-5] O always adopter
Adopta entusiasticamente a moda das grumêtascas, procurando com vigor a melhor e mais original forma de aliar a farinheira a outro produto. Refere muitas vezes a importância da utilização de produtos locais, que podem ser combinados ou com farinheira ou com frutos vermelhos, de preferência locais. 
Coeficiente Expressão Identitária através do Consumo (EIC): +++

[-3] O curioso
Não é um entusiasta vocal da grumêtasca, mas tenta perceber o que se esconde por detrás dos modismos gastronómicos e tem curiosidade em conhecer restaurantes e conceitos novos. 
Coeficiente EIC: ++

[-1] O consumidor comum
Não as procura expressamente mas, ao cruzar-se com novidades gastronómicas, prova-as e enquadra-as nas suas preferências, adoptando umas e recusando outras de acordo com o seu gosto pessoal e disponibilidade financeira. Em muitos casos, ao cruzar-se com propostas originais e interessantes, procura replicá-las em casa.
Coeficiente EIC: +

[0] O blasé
Como tem uma certa alergia a modismos e às publicações que os veiculam, acaba por não se aperceber da existência de alguns deles. Quando confrontado com uma moda passageira, como por exemplo as grumêtascas, encara-as com um leve enfado, mas não deixa de lhes dar uma oportunidade, se a ocasião o propiciar, por exemplo para satisfazer o entusiasmo alheio com esta proposta gastronómica, porque não há nada melhor nas redondezas ou porque naquele dia lhe apetece, genuinamente, farinheira. 
Coeficiente EIC: 0

[+1] O blasé-irritadiço
O blasé-irritadiço é em tudo semelhante ao blasé regular, mas a sua alergia a modismos é mais pronunciada e sente alguma irritação face à proliferação cogumelar de ofertas gastronómicas em tudo idênticas mas extremamente ciosas da sua suposta originalidade. Reserva para si no entanto o direito a quebrar o jejum de modinhas e ceder em casos pontuais. Uma das estratégias mais comuns para a gestão de cedências pontuais é conhecer o sítio onde os hamburguers são bons e baratos, sem folclore excessivo, ou a grumêtasca/wine-bar cuja oferta de vinho a copo é verdadeiramente excecional e por isso irrecusável. Como se reconhece por esta estratégia e pelo coeficiente EIC, o blasé-irritadiço é muito semelhante ao consumidor comum.
Coeficiente EIC: +

[+3] O blasé-esforçado
O blasé-esforçado reconhece a utilidade social da recusa das modinhas passageiras, que o aproxima do blasé regular, que associa a uma certa classe e distinção. Por isso, esforça-se por demonstrar de formas variadas a sua não adesão a estas modinhas, seja garantindo publicamente e a um círculo tão alargado quanto possível que não toca em farinheira desde 1995 ou denegrindo as modas como poucochinhas e portanto abaixo do seu nível cultural e socio-económico, dizendo por exemplo “Ainda se fosse foie gras até se compreendia…” ou “Mas eu alguma vez comia mirtilhos de supermercado?”. Esta posição deve ser marcada afincadamente, tornando-se conhecida de todo o seu círculo, de forma a que ninguém se atreva a servir-lhe um grumê-petisco sob pena de ser enxovalhado pelas costas ou, em casos mais pronunciados, em público. 
Coeficiente EIC: ++

[+5] O blasé-regateiro
O blasé regateiro tende a aperceber-se das modas um pouco mais tarde e tenta compensar o seu atraso com excesso de entusiasmo crítico. Outra possibilidade é que o blasé regateiro esteja menos seguro da pertença aos círculos sócio-culturais blasé, o que torna mais propenso a exagerar no entusiasmo, de resto pouco blasé, com que marca a sua posição, quer tenha sido ou não convidado a expressá-la. A principal diferença entre o blasé esforçado e o blasé regateiro é que este último ataca não só a moda em si mas todos os que a seguem, garantindo serem os clientes da grumêtascas, todos sem exceção, um exército de acéfalos trogloditas, pirosos sem redenção, saloios das beiras e, em casos especialmente radicais, jurando que usam ceroulas de malha, que cheiram mal da boca, que não lavam as mãos e que são a meta da decadência mental, basta, pum, basta! Morra a farinheira, morra, pim!
Coeficiente EIC: +++

Conselhos de utilização:  Naturalmente esta escala é fluida, dependendo dos temas e modismos a que cada um é mais sensível. Eu por exemplo fui educada para uma certa alergia às tendências desta vida e sou quase regateira no que diz respeito à moda dos tuk tuks, uma blasé-irritadiça no que diz respeito às grumêtascas e uma entusiasta always adopter das combinações de Alvarinho com castas sulistas (por enquanto). Já na roupa tendo a aproximar-me mais do consumidor comum ou do blasé regular, encarando sem especial urticária até as propostas boho-betas que tanto fazem pelas lojinhas do Facebook deste país, mas há algumas coisas que me levam rapidamente ao campo blasé-irritadiço, quase esforçado. Já na literatura, consigo por exemplo manter-me no blasé regular face a José Luis Peixoto, que nunca li e que transformava rapidamente em blasés-mais-que-esforçados muitos dos meus amigos, mas sou muito vocal face a Ken Follett, aquele senhor que manda catedrais acima e abaixo em vários volumes. No geral, tento apenas evitar chegar ao blasé-regateiro, mais que não seja porque não engana ninguém e ainda corria o risco de parecer tolinha, insegura ou mau carácter.

Monday, August 17, 2015

breve interregno no coma induzido deste blogue para duas meias croniquetas de férias

Parte I
(Terceira, Pico, São Jorge)


Resumo: Vacas, hortênsias, muito verde e muito azul. Abelheira. 

O sítio mais bonito de todos: A minha ilha é sem dúvida S. Jorge, inacreditável na sua beleza e improbabilidade geográfica. E gostei muito do Pico, da omnipresença da montanha, cuja subida me foi sistematicamente recusada pelo mau tempo, dos vinhedos. Mas se tivesse de escolher um só sítio seria provavelmente uma qualquer estrada interior da ilha Terceira, uma das muitas que passavam ora por túneis de plátanos, ora por florestas tão densas que pareciam impenetráveis (mas não eram!), intercalando sempre com campos muito verdes, semeados de vacas e rodeados de hortênsias.

Um momento especial: Quase todos os momentos desta caminhada e o momento em que, depois de dias a tentar subi-lo ou pelo menos vê-lo, o Pico se nos revelou de repente, deslumbrante e já inalcancável. 

O que comer: Queijo. Lapas, claro (mas cansam, a certa altura). Amêijoas de S. Jorge (qualquer que seja o preço a que estejam tabeladas, não vão ser mais baratas no restaurante seguinte, afianço-vos). Morcela, muito boa e realmente diferente. Atum. Boca-negra grelhado (o meu novo peixe favorito). E cracas, muitas cracas. A acompanhar com Terras de Lava branco, e terminar com um bolo D. Amélia (em havendo frescos, senão não vale a pena) e uma abelheira. O turista gastronómico é muito feliz nos Açores.

O que comprar: Queijo da cooperativa dos Lourais. Adorei o de nove meses e estava disposta a financiar uns testes de 12, 18 ou 24 meses, mas foi o de sete, já picante e ainda "manteiguento" (demasiado para ir para queijo da ilha, explicou a senhora da fábrica), a conquistar o meu coração. 

O que ler: O "Mau Tempo no Canal" foi uma escolha difícil para livro de férias - aceitei logo que era a escolha evidente, mas já tinha tentado entrar no livro tantas vezes quando era mais nova, sempre para desistir outras tantas... E voltou a ser difícil, mas nos últimos dias da viagem dei por mim completamente conquistada, a arquivar já mentalmente o livro na prateleira dos romances da minha vida (isto não é uma metáfora pirosa, essa prateleira existe mesmo)(ok, é uma prateleira um bocadinho pirosa), a poupá-lo e a ter saudades dele, das personagens tão locais e tão universais, como quase sempre quando a literatura é grande. E, claro, deliciada por poder acompanhar os percursos da protagonista, o canal, as estradas que tomava, aflita de um lado para o outro, em São Jorge, os baleeiros, a casa de que tomou conta no Pico, o cemitério da Candelária onde enterrou o homem de quem mais gostava, que tinha visitado por acaso e que tanto me tinha impressionado, com as suas campas cercadas de molduras brancas de madeira, a fazer lembrar um berçário

Como voltar: Gorda, cansada, feliz, com a mala muito cheia e planos de regresso.


Parte II
(Minho)


Resumo: Família, incêndios, trabalho e chuva na praia. 

O sítio mais bonito de todos: Todos os que ficaram para o ano que vem.

Um momento mágico: Levar uma criança pequenina pelos campos, mostrar-lhe nozes, amêndoas e castanhas, todas ainda protegidas dentro de cascarões e ouriços, figos e pêssegos quase maduros, maçãs pequeninas, courgettes gigantes e os kiwis, essa cultura tão tipicamente minhota, carregados de fruta, a prometer uma excelente colheita daqui a um mês. Ter a família alargada à mesa e senti-la, devagarinho como são estas coisas, a ganhar espaço e marcar o lugar. E, last but not the least, o momento em que a fisioterapeuta-massagista-mãos de fada me explicou como torço os pés.

O que comer: Bolinhos de bacalhau, bacalhau frito, pataniscas e broa. Cabrito e fígado de vitela de cebolada (não tem comparação com o de porco). Rojões com sangue frito e farinhatos, papas de sarrabulho, polvo, vitela estufada e arroz de cabidela (não comi isto tudo, mas era o que recomendaria). Para acompanhar com verde tinto, de preferência um bom Vinhão, púrpureo e viscoso. Entre nós, guardamos o branco para fins de tarde de calor, champarrião, senhoras e turistas. E por falar em turistas:

O que não comer: Eu percebo que as pessoas locais se interessem pela inovação das grumêtascas de que a Volta ao Mundo aqui dá conta, mas se sei de alguém que tenha ido de Lisboa ao Alto Lima ver meter farinheira em tudo acho que lhe bato.

O que comprar: Jóias e broa (para meu azar, nem umas nem a outra). 

O que ler: Comecei a ler um livro, mas entre a família, os programas infantis e o trabalho que levei de Lisboa acabei por não ler nada e os livros a que dediquei mais atenção eram de pintar. 

Como voltar: Cansada e contente, mas a precisar de outras férias, para descansar e de pelo menos mais uma semana no Minho, de preferência com bom tempo, para fazer tudo o que queria fazer e não fiz, para mostrar tudo o que queria mostrar e não mostrei.

Monday, July 27, 2015

breve interregno no coma induzido deste blogue para um post em registo aforístico


A maioria das nossas atitudes para com os outros dizem mais sobre nós do que sobre os outros ou as suas ações. Isto é especialmente verdadeiro quando nos zangamos, quando outra pessoa nos irrita ou quando julgamos alguém merecedor do nosso desprezo, soberba ou altivez. 

Parecendo que não, saber isto é muito útil. 

Saturday, July 18, 2015

subtilezas


Sócrates vai de férias sozinho, come em restaurantes e gasta muito dinheiro. 
Título do jornal: Sócrates gasta muito dinheiro em férias e restaurantes. 

Sócrates vai de férias com os filhos, come em restaurantes e gasta muito dinheiro. 
Título do jornal: Sócrates gasta muito dinheiro em férias e restaurantes. 

Sócrates vai de férias com elementos do sexo feminino, come em restaurantes e gasta muito dinheiro. 
Título do jornal: Sócrates gasta muito dinheiro em mulheres.

(não percebo bem se ele pagou realmente pela companhia delas, o que sem dúvida justificaria o título, se elas são objectos de luxo como outros quaisquer ou se foram promovidas a animais de estimação, daqueles que são muito engraçados sim senhor mas dão muita despesa)